Coragem no desespero

Há muitas, muitas razões para ser cínico com a decisão de Papandreou de convocar um referendo ao acordo europeu. Em primeiro lugar, aparentemente, isto não tem a ver com a Europa ou com algum desejo de “mais democracia” no seio das decisões tomadas nos encontros europeus. Tem a ver quase exclusivamente com questões de politica interna, e é um acto que nasce do desespero. Não do desespero da austeridade imposta pela UE, mas desespero face à impossibilidade politica de cumprir o que foi acordado. Estão relacionados, mas não são exactamente a mesma coisa.

Em segundo, este é um referendo perfeitamente chantagista, e aí concordo com os cínicos, mas que parte de uma realidade que tem de ser assumida: no contexto actual europeu, este acordo que  – vamos ser francos, não resolve nada e é manifestamente insuficiente – é o melhor que se consegue, e mesmo assim a custo. Temos portanto um referendo que consiste numa dupla chantagem:

  • a primeira é claramente sobre os outros membros da UE. O mero anúncio do referendo – ou seja, que a Grécia pode rejeitar o acordo, ou seja, que a Grécia pode ir à falência descontrolada – foi o suficiente para causar uma devastação imensa nos mercados financeiros. É um sério aviso aos outros líderes europeus sobre o que acontecerá se de facto se concretizar a bancarrota, e que talvez não fosse má ideia repensar toda a estratégia de ajuda europeia. O primeiro-ministro grego apostou o país inteiro numa jogada de altíssimo risco, porque os alemães e franceses podem ser agora confrontados com a escolha entre financiar a dívida grega ou financiar os seus bancos que irão à falência caso não escolham a primeira. Ou seja, entre salvar os seus bancos salvando os gregos, ou em simplesmente salvar os seus bancos. A favor dos gregos está o facto, que se vai tornar cada vez mais óbvio, que uma saída da Grécia põe em xeque todos os outros países periféricos e outros não tão periféricos. A catástrofe espreita.
  • a segunda chantagem deriva da primeira, e é sobre os cidadãos gregos. Caso os outros europeus não façam uma oferta melhor ou mudem de rumo politico na gestão desta crise, há então que fazer uma escolha entre dois tipos de caminhos: uma austeridade dura imposta do exterior, ou uma ainda mais dura mas controlada pelos gregos. Entre serem servis e miseráveis, ou ainda mais miseráveis mas livres, esta é a verdadeira escolha dos gregos, por injusta que pareça. Mas será uma escolha que responsabilizará os cidadãos, que por uma vez não poderão culpar “os políticos” pelo caminho escolhido. Pensem, informem-se, reflitam sobre os estado do país e os caminhos que se apresentam, e escolham – mas depois acabaram as lamurias. Esta é a mensagem, e é clara. Não admira que os partidos da oposição estejam lívidos. Acabaram as promessas fáceis e a diabolização para ganhar eleições.

Do ponto de vista táctico, é uma jogada brilhante de Papandreou. Mas não tenhamos ilusões, isto é o equivalente à ultima carga da cavalaria. Pode resultar, e espero que sim, e a coragem, mesmo resultante do desespero,  ninguém lhe tira – não fosse ele um Socialista – simplesmente os grandes gestos desesperados ou românticos acabam muitas vezes em tragédia, e quero ver onde estarão os que agora elogiam o “sentido democrático” e a “lição de soberania” do líder grego quando despedirem metade dos funcionários públicos por falta de fundos, ou quando os hospitais começarem a ficar sem medicamentos. Já para não falar da hipótese séria de um golpe militar. A bancarrota não é bonita, e é neste momento a hipótese mais provável.

Mas quando resultam, caramba, são o material de que são feitos os mitos.

22 thoughts on “Coragem no desespero”

  1. Excelente opinião para ler mais tarde quando acabar de ler o Idiota, de Dostoevski.

    Como se, para o povo e os trabalhadores, a “bancarrota” tenha resultados muito diferentes, ou piores, que andar o resto da vida a pagar juros exorbitantes à grande cambada da usura e à corja mais reduzida que a domina e controla. Também o que safou nesta peroração do nosso entendido VEGA, altamente influenciada por artigos a granel de pasquins de referência europeus e americanos, julgo eu, foi a alusão à “coragem” dos socialistas.

    Pelo menos ando o resto do dia bem disposto, a lembrar-me, entre outras coisas muito engraçadas de dar os peitos à morte, do curso de guerrilha que o Mário Soares tirou em Cabo Verde.

  2. Por acaso, ontem, quando vi a notícia, veio-me logo à cabeça o General Custer. Não é preciso resultar para entrar para a história. Resta saber se entra como o estadista visionário que salvou a Grécia, ou o louco irresponsável que a afundou.

    (noutros assuntos, ainda não é líquido que haja mesmo um referendo – parece que há dissidentes mesmo dentro do próprio partido)

  3. Não percebo de onde vem o escrúpulo moral em chantagear os chantagistas (aqueles que provocaram a crise em 2007 e que agora forçam o pagamento do custo das suas asneiras pelos estados e pelos povos, através da especulação nos CDS da dívida soberana e da intervenção das agências de rating) e os seus lacaios políticos (Merkel, Sarkozy, etc.).

    Força Papandreou!

  4. muito bem visto. foi o que pensei , caramba , como o povo dá jeito quando se entorna o caldo…eu diria é : cobardia no desespero e sim , é capaz de passar à história como símbolo da cobardia dos homem-criança do século XXI.
    oh Vega , desculpa lá , mas dizer que chantagem é sinónimo de coragem…bebeste ao almoço , ou quê?

  5. Muito bem, Vega. Penso que o Papandreou vai ser mais herói que vilão chantagista. Estilhaçou uma pseudo UE onde os membros ricos pagam juros “bonificados” e os pigs em dificuldades são esmagados com taxas de juros, esquecendo-se que quem sai esmagado é quem menos contribuiu para o endividamento: os médios e baixos rendimentos.
    A ajuda que a bondosa UE se preparava para facultar aos gregos carregava uma taxa de usura de verdadeiro inimigo. Imaginem a Reserva Federal americana carregar deste jeito o mais que falido Estado da Califórnia! Puta que pariu estes bondosos das troikas, chefiados pela lesma que dá pelo nome de Durão Barroso.

  6. Só espero que até São Martinho, quando formos à terrinha beber a água pé, vulgo, (H2-Ó-PÉ), não funcionem as portagens nas scutes,

    Se não podem ser convocados os militares novamente, e aí o Passos não vai ter tempo de reagir como o homologo grego.

  7. VEGA 9000,

    muito bem analisado e explicado. Poucos saberão ao certo o que vai na cabeça do grego,uma coisa é certa, juros de 100% não são para pagar.

    Perdido no partido, no país, na europa e no mundo, tomem lá… e resolvam esta…

    Bem visto, já os gregos antigos ensinavam que um homem não pode ser encurralado sem perigo.

    Estou com o homem desesperado, os espertos que se amanhem.

    Nós por cá, estamos prontos, só não temos é homens com corpo de quem já tenha trabalhado alguma vez na vida e entenda que não há volta a dar ao monstro.

    Parabéns, VEGA9000

  8. “a coragem ninguém lhe tira: ou não fosse ele um socialista”, MUITO BEM, PÁ,

    Mas continua:

    “a beleza ninguém lhe tira: ou não fosse ele um socialista”

    “a inteligência ninguém lhe tira: ou não fosse ele um socialista”

    “a bondade ninguém lhe tira: ou não fosse ele um socialista”

    e por aí fora. há cenas que só assistem mesmo aos socialistas, não é veguinha?

  9. Pode ser que seja desta que a Europa se ergue e encontra o caminho.
    Mas não nos podemos esquecer que se quiserem ir pelo caminho da destruição, arrasar com os periféricos, a periferia não acaba desse modo. E de periférico em periférico se acaba a Europa.

  10. vega: simplesmente ele chegou a esse ponto porque finalmente percebeu que p caminho que leh impuseram é um beco sem saida, e é o reconhecimento de que a austeridade soft ou hard é um entrave ao crescimento economico e á resolução dos problemas.A argentina também passou pelo mesmo e safou-se

  11. anonimo, quem se está a foder são os gregos, que comem austeridade sem parar sem que isso lhes adiantasse de algo.A tua politica neoliberal não leva a lado nenhum.Terminação és tu e todos aqueles que acarinham a mafia financeira

  12. ENTÃO E NÓS POR CÁ? VAMOS CONTINUAR A COMER E CALAR?
    QUANDO É QUE OS PORTUGUESES SE COMEÇAM A REVOLTAR COM TODA ESTA INJUSTIÇA? OU SERÁ QUE NÃO HÁ COLHÕES POR CÁ?
    SE, POR ENQUANTO, AINDA ESTÃO A DIGERIR, ESPERAM LÁ POR ABRIL OU MAIO. NESSA ALTURA NÃO SERÃO OS SUBSÍDIOS DE FÉRIAS OU NATAL A DESAPARECER. A CONTINUAR ASSIM, COM O IVA A ENCURTAR, DEVIDO À ENORME QUEBRA NO CONSUMO, O DÉFICIT VAI DISPARAR, E AÍ, MEUS AMIGOS, TERÃO QUE SER OS VENCIMENTOS E AS REFORMAS DE TODOS A LEVAR A MACHADADA. O CAMINHO ESTÁ APONTADO E CHAMA-SE GRÉCIA!
    SERÁ QUE NESSA ALTURA O NOSSO PM VAI POR O ASSUNTO A REFERENDO OU VAI PEDIR MAIS CONSELHOS AOS MERKELS E SARKOSYS? DUVIDO QUE TENHA TOMATES PARA ENFRENTAR AS “TROIKAS”
    AQUI COMO NA GRÉCIA, TERÁ QUE SER O POVO A INDICAR O CAMINHO, PORQUE O GOVERNO NÃO TEM LEGITIMIDADE PARA CONTINUAR COM ESTAS POLITICAS QUE O POVO NÃO VOTOU NAS ÚLTIMAS ELEIÇÕES. NÃO FORAM ESTAS AS PROPOSTAS APRESENTADAS PELO PSD. EU NÃO VOTEI NELES, MAS CONHEÇO ALGUNS QUE VOTARAM E SÃO NESTE MOMENTO OS MAIS REVOLTADOS, POIS DIZEM QUE FORAM ENGANADOS.

  13. Especialmente delicioso o frente a frente agora passado na porqueira do Crespo, entre o Alberto Martins e o Guilherme Silva do PSD e sobretudo do PSD Madeira (a propósito, alguém reparou que o plano de austeridade para a Madeira não está contemplado no OE ? E que por lá o IVA a 4% e a comparticipação a 100% de tODAS as despesas de saúde, por exemplo, não foram revogados, sem que qualquer jornalista ,,mesmo do contenente tenha colocado uma pergunta sobre o assunto?).
    Mas voltando ao debate da porqueira, diz o Guilherme que reprova esta atitude (ele não disse, mas insinuou) cobarde de Papandreou que tem, segundo ele, paralelo com o a opção do Sócrates, quando propõe o PEC IV. (???????)

    Vai o Alberto e diz que se vamos pra os paralelismos, encontra-os, de facto, na voracidade eleitoralista da oposição na Grécia, exemplificando e comparando com o chumbo do PEC IV por parte do PSD e seus aliados da “esquerda”. Muito curiosas as similitudes. Também disse que o governo alterou radicalmente o acordo feito com a troika, sem consultar a oposição (leia-se PS, que os outros estão- se cagando). Vai o Guilherme e diz que a “dinâmica da situação ” não permite grandes consultas…Pena não terem, na voracidade das eleições (leia-se pote) adoptado o mesmo responsável critério.

    (agora vou vomitar, já volto)

  14. porque hás-de esperar tal coisa, nm? tu que te delicias com o vómito em que estamos e que sabes desde há muito que não sou edizinho?
    Ora vai à tua vidinha pequenita e deleita-te nela…

  15. não és, fofinho? pensei, pensei mesmo. ou achas que só tu podes falar de cor sobre a vidinha dos outros ou daquilo com que se deliciam? mas lá está, tu és inteligente. a ti ninguém te leva à certa e lá isso do babanço para cima do nosso ex-primeiro é apenas fé, pazinho. fé, que é mais difícil não ter fé em nada e por que não hás tu ter fé num dos partidos que conduziu portugal aqui e a europa, já há muito, à pós-democracia? foste tu que os travaste, foste? que criticaste com o voto o nascimento de privilégios, do governo para alguns, dos direitos para uns quantos, dos negócios para os mesmos, dos empregos para os do cartão? que reclamaste no supermercado e na repartição? que explicaste ao teu vizinho, ao colega do lado, ao bóbi no tapete, não com demagogia, mas com assertividade, com honestidade intelectual? deves ter sido, deves, mon petit, que tu és lindo e corajoso e inteligente e bom, muito bom, e bem capaz de separar o trigo do joio.

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