Aspirinas é na pharmacia

No ano em que se generaliza o uso do novo acordo ortográfico, informo que pela parte que me toca continuarei a escrever utilizando a velha grafia. No entanto, não o faço por nenhum motivo cultural, nem de protesto ou sequer por convicção. A atitude justifica-se unicamente porque aprendi a escrever desta maneira, sai-me naturalmente, as regras do novo acordo são-me em grande parte desconhecidas e tenho uma imensa preguiça em aprendê-las. Logo, como não me apetece despender grande esforço em nova aprendizagem, o timing é o seguinte: quando me habituar a elas de tanto as ler, mudo. Quanto à “herança cultural”, desculpa de tanta gente se recusa a admitir que as suas razões são rigorosamente iguais às minhas, estou-me perfeitamente nas tintas. As heranças usam-se para construir coisas novas, e a cultura é o que fazemos e o que transmitimos com as ferramentas à nossa disposição, não as ferramentas em si.

48 thoughts on “Aspirinas é na pharmacia”

  1. pois eu não mudo porque os da CLP é que devem adaptar-se no sentido de promover a proximidade e união – o contrário é absurdo, não fosse o papel das mães leiteiras dar de mamar e fazer bem crescer as suas crias. este sim, é o prestígio digno de orgulho internacional a ser seguido. inconstitucional ou não, debates aos molhos, servirá, antes de mais, este tratado, para servir os interesses geopolíticos e económicos do brasil. a variância ortográfica constitui uma riqueza a ser preservada, além de que adaptação pelas editoras e a obsoleslência dos dicionários deveria ser, por si só, um bom motivo para ajudar a combater o dilúvio financeiro em que vivemos. abrasileirar a nossa língua é uma ideia messiânica e utópica. não, não e não: prendam-me se quiserem, chanfrados, rabudos! :-)

  2. mudas, acredita em mim, eventualmente mudas. Assim que estiveres habituada, e a nova grafia deixar de acender as luzinhas de “alarme de erro ortográfico”. É irritante ao início, mas eventualmente vais-te habituar.

    (estou curioso com essa dos “da CLP é que devem adaptar-se”. É um conceito que nunca entendi bem. Porquê, exactamente?)

  3. porquê? porque são de menoridade e devem chupar da teta da mãe. além de que todos os países lusófonos, exceptuando o brasil, participaram no tratado por arrastamento e não por convicção e exaltação de vontades. trata-se de um “‘diktat’ neocolonial, em que o mais forte (o Brasil) determina a sua vontade ao mais fraco (Portugal)” como diz Vasco Graça Moura.

    (mudo o carai, negão!) :-)

  4. Bom ano Vega9000,

    Pelas razões aduzidas no post – ou seja nenhumas, se percebi bem – vou também eu continuar a usar a grafia antiga, com a agravante de o fazer, quando escrevo nos blogues, com as limitações a que o teclado azerty e a pressa obrigam.

    O interesse que o acordo desperta em mim é, essencialmente, uma protuberância do meu interesse geral (genuino) por regras morais e juridicas.

    Nesse âmbito, não posso ser insensivel à sugestão de que estariamos num momento em que “se generaliza o uso do novo acordo ortográfico”. Reparem que se procurarmos dar um sentido util a esta sequência de palavras, por mais esforços que façamos, vamos necessariamente chegar à conclusão que é completamente impossivel.

    Esta reflexão para dizer que, se dedicassemos dois segundos a procurar saber o que é o acordo ortografico, e a medir os efeitos (nomeadamente juridicos) que ele tem, perderiamos 96,4 % das razões de nos preocupar com ele.

    Boas entradas !

  5. esqueci entretanto de te dizer, Vega, que escrevo sempre sem corrector e apenas em caso de dúvida vou ao dicionário – é um óptimo exercício. e um orgulho. :-)

  6. Olinda, todos os países da CLP atingiram a maioridade há já algum tempo. São, para todos os efeitos, incluindo a língua, iguais. Pegaram na herança, e fizeram o que entenderam com ela.
    (Eu gosto de correctores)
    ___
    João Viegas, tirando quem escreve profissionalmente (jornalistas, tradutores, etc), ninguém tem de se preocupar muito, é uma questão relativamente menor. Excepto que:
    – quem tem filhos em idade escolar, sobretudo no primeiro ano (é o caso) tem de ter a preocupação de estar a par do NAO se quer acompanhar a evolução dos estudos em português. E ajudar.
    – com a evolução e a crescente habituação ao NAO, vai haver uma altura em que a grafia irritante (por erros percepcionados) vai ser a antiga. É nessa altura que a grande maioria dos indignados vai mudar. O espírito de manada é forte. Dou-lhes dois anos. No caso do MST, quatro.
    – a parte jurídica desconheço.

    Bom ano para ti também.

  7. sabes o que é, é que para as mães os filhos são eternos bebés. :-)

    e a esse argumento dos filhos em idade escolar eu digo-te assim: se os tiver, prefiro ensiná-los em casa, ao meu jeito e do futuro pai que há-de ser um auto-didacta sensível a esta e muitas outras questões. uma parelha perfeita. :-)

  8. Axo cu Vega 9000 tem rasao. U qé qe cuxta excrever co a niova urtografia? Cada um tem dereito a excrever cumo dá maix geito. U qé peecizo é cos outros nos intendam.

    O rexto nao paça duma trêta!

  9. “Alguém imagina os Estados Unidos a ditarem à Inglaterra as regras ortográficas da língua inglesa? Ou o Canadá a ditar as do francês à França ou a Venezuela as do espanhol a Espanha?”

    AMARAL, Andrey do. Novo (e Divertido) Acordo Ortográfico, Rio de Janeiro: Ciência Moderna, 2009, ISBN 9788573938258.

  10. Pelo hábito, o que vai acontecer é que vamos escrever em língua que não é do antes nem do depois do NAO. Quando muito, para quem não pretende/não é obrigado a cumprir, utilizar-se-á uma miscelânea de “erros ortográficos” (à luz de quê?). Mas parece-me bem mais interessante esta abordagem, que é a abordagem que diz que a língua não é só ferramenta, também é cultura e devemos irritar-nos, sim senhor, por virem uns senhores dizerem que temos de escrever (E FALAR) obedecendo à gramática da puta que os pariu.

    https://aspirinab.com/valupi/a-gramatica-da-puta-que-o-pariu/

  11. Obrigado Vega,

    Eu estou 100 % de acordo com o que dizes no texto e nos comentarios. O acordo vincula apenas as administrações (entre as quais as que estão encarregues de administrar o serviço publico de educação). A haver mudança nos usos, o que nunca é a 100 % garantido, embora pareça provavel tendo em conta o caracter razoavel e muito limitado das modificações introduzidas pelo NAO, ela vai acontecer exactamente como dizes.

    O que não é, nem deve ser, motivo de preocupação. Nem sequer acerca dos teus dois primeiros pontos porque :

    – Quem tem filhos na escola (como eu) sabe perfeitamente quem acompanha quem nessa matéria, e não é no sentido que dizes, mas antes no sentido inverso.

    – Como dizes, se o novo padrão vingar, vai tornar-se cada vez mais dificil uma pessoa agrarrar-se a arcaismos, não porque o espirito de manada seja forte, mas porque a evolução social se vai encarregar de dar cada vez mais relevo ao ridiculo das razões de quem decidiu bater-se contra o acordo “por uma questão de principio”.

    Juridicamente, o acordo é um caso muito interessante. Como é que se modifica um padrão social ? Tera sentido fazê-lo por via legislativa ? Quais são as condições da eficacia das regras juridicas nessa matéria ?

    Repara que seria perfeitamente possivel modificar o padrão ortografico sem proceder por lei (ou por tratado internacional). E’ o que sucede em muitos paises. Por outro lado, a modificação por lei não pode, neste caso (e num regime liberal como o nosso), obrigar senão as administrações, em quem mandam os governos sem precisar (em principio) de recorrer à lei…

    Tenho para mim que o NAO revela mais sobre as relações que os falantes de português têm com a lei, do que sobre as relações que eles têm com a ortografia.

    Mas talvez seja a mesma coisa.

    Boas…

  12. Olinda, os casos que conheço são pessoas perfeitamente inadaptadas socialmente e que se nota a milhas serem uns miseráveis infelizes. Embora, para ser justo, não sei se será de terem sido educados em casa ou se é por terem sido educados pelo tipo de pessoas que os educa em casa. Fiz-me entender?
    Agora, se o quiseres educar em casa segundo as tuas regras e as de mais ninguém, é contigo. Não te queixes é quando o embate com o mundo real acontecer com um chumbo no exame de lingua portuguesa.Por erros ortográficos.
    ___
    edie, a língua é cultura, não podia estar mais de acordo. Já a grafia inclino-me mais para o aspecto de ferramenta.
    ___
    João Viegas, na questão do acompanhamento dos filhos, tens toda a razão.
    Já juridicamente a tua questão é interessante. Não há, parece-me, nenhuma maneira (tirando a reprovação social) de obrigar um adulto a adoptar a nova grafia. Mas pegando na questão da educação, se um miúdo tirar más notas a língua portuguesa – o que tem consequências concretas sobre o futuro dele – porque os pais se recusam a deixá-lo adoptar o NOA “por uma questão de princípio”, vão fazer o quê? Processar o estado porque não concordam?
    Aí, na questão educativa, é que faz sentido ser alterado por lei, não?

  13. Ola de novo.

    A questão da aplicação na escola é das mais apaixonantes. Repara so que :

    – para se atingir o resultado que mencionas, não é necessario fazer uma lei (os britânicos não têm lei e no entanto aprendem inglês e, embora não tenha a certeza, aposto que até fazem ditados e tudo…) ;

    – é dificil saber em que medida uma lei tem necessariamente, por si so, o efeito que dizes : a lei não da notas aos alunos, apenas directivas aos professores que, por sua vez, exercem a sua profissão de acordo com alguns principios, entre os quais o da liberdade de ensino. Muito francamente, não me passa pela cabeça que um professor -mesmo um professor de português – dê o mesmo valor ao “erro” que revela que o aluno não segue o novo padrão, do que ao erro crasso que revela que ele não domina a lingua seja qual fôr o padrão. Ainda que desse, o professor de historia, ou de matematica, ou de filosofia, jamais chumabara um aluno bom porque ele grafa “acto” e não “ato”… Portanto podemos perfeitamente imaginar que a obrigação de dar aulas de português seguindo o novo padrão não afecte de maneira decisiva o comportamento dos alunos.

    Isto apenas para continuar a conversa e dizer porque é que acho o assunto fascinante. E agora, para tornar tudo um pouco mais complexo :

    As regras linguisticas (nomeadamente as ortograficas) têm a maior parte das caracteristicas proprias das regras juridicas. O facto de terem origem num acto de autoridade do Estado não é, quanto a mim, traço distintivo nem de umas nem de outras.

    Boas !

  14. sim, fizeste-te entender – entendo que talvez conheças fracas e miseráveis amostras. quanto aos exames, anota aí: um curioso feito crescer por curiosos saberá sempre escrever para o retrato tal como saberá não arrotar, com poderosa sonância, num restaurante.

    (fiz-me entender?) :-)

  15. Caro Vega, dizes que tens preguiça em adoptar a ortografia oficial. Eu, que não me considero preguiçoso, jamais usarei outra ortografia, senão aquela que existia antes deste aborto de acordo. Fica aqui prometido!

    Compreendo as tuas razões e aceito-as, cada um é livre. Mas acho, em todo o caso, que devias dedicar um pouco mais de tempo à língua portuguesa.

    Escreveste aí acima:

    “…mudas, acredita em mim, eventualmente mudas. Assim que estiveres habituada, e a nova grafia deixar de acender as luzinhas de ‘alarme de erro ortográfico’. É irritante ao início, mas eventualmente vais-te habituar.”

    Ora “eventualmente” não significa o que tu pensas, se bem te entendi.

    “Eventually”, palavra inglesa, é outra coisa: quer dizer “por fim”, “finalmente”.

    A palavra portuguesa “eventualmente” quer dizer “talvez”, “possivelmente”, “dependendo das circunstâncias” e outras coisas parecidas, que não se parecem nada com o significado inglês da palavra “eventually”.

    Bem sei que a maioria dos tradutores e tradutoras de cinema e televisão inexoravelmente traduzem “eventually” por “eventualmente”. Mas são inexoráveis ignorantes.

  16. Todo o meu apoio, Vega.
    Não uso corretor, dou as minhas pantufadas ocasionais na gramática, mas tento sempre corrigir. Não me choca nada a aproximação aos Brasileiros e adaptar-me-ei ao acordo dentro do possível, sem stress.
    Só para dar um exemplo do ridículo: Quando procuras informação em Português na internet, qual é o resultado? Sites brasileiros, não é?
    Quanto vale este eucaliptalzinho do cu da Europa em termos de conteúdos científicos, artísticos, etc?
    Com a produtividade de merda destes chauvinistas- que se contentam com uns bitaites nos blogues- é o salazarento espírito do “Orgulhosamente sós” que vai afirmar a nossa pujança cultural?
    O Sócrates já se foi embora, deixem-se de politiquice da treta.

    P.S.- Quero que o Vasco Graça Moura se foda! Só para contrariar essa besta até passo a escrever em Russo.

  17. faz isso, Vieira, e aproveita para tirares os glúteos da boca. :-)

    pega lá mais, e dos mesmos, argumentos – ou bitaites- absolutamente contra o “despudoradamente em orgias de língua”:

    – evolução não natural da língua;

    – tentar resolver um “não-problema”, uma vez que as variantes escritas da língua são perfeitamente compreensíveis por todos os leitores de todos os países da CPLP;

    – desrespeito pela etimologia das palavras;

    – a não correspondência da escrita à oralidade. por exemplo, existem consoantes cuja função é abrir vogais mas que o novo acordo considera mudas – nomeadamente em tecto, passando a escrever-se teto( dever-se-ia ler como teto (de seio)?);

    – processo dispendioso (revisão e nova publicação de todas as obras escritas, os materiais didáticos e dicionários tornar-se-ão obsoletos, reaprendizagem por parte de um grande número de pessoas, inclusivé crianças que estão agora a dar os primeiros passos na escrita);

    – o facto de não haver acordo, facilita o dinamismo da língua – permitindo cada país divergir e evoluir naturalmente pelas próprias pressões evolutivas dos diferentes contextos geo-sócio-culturais, como no caso do Inglês ou do Castelhano;

    – afecto com a grafia actual;

    – falta de consulta de linguistas e estudo do impacto das alterações;

  18. Vieira, usas a palavra corretor no sentido de corrector. É bem possível que o estupor do acordo ortográfico tenha reduzido as duas à mesma ortografia, lamentavelmente.

    Corretor (de seguros, de bolsa, etc), com e fechado, e corrector (de provas, de erros, etc), com e aberto, até agora eram duas palavras completamente diferentes que nada tinham em comum, nem a grafia nem o sentido. Como é que vai ser agora, quando já poucas pessoas conseguiam distinguir e pronunciar correctamente as duas palavras?

  19. Também dou calinadas ortográficas, claro.
    Creio que já deram por isso :)
    Conheço tantos que escrevem magistralmente…grandes merdas.
    Eu cá, sou humilde na forma mas pretencioso no conteúdo. Não quero ser mais um borrego.Tenho a mania que penso nas coisas, questiono e gosto de partilhar as minhas ideias como posso. Com, ou sem, acordo.

  20. Conseguiste entender o meu comentário, Júlio?
    Obrigado pelo esforço.

    Olinda,
    até podes ter razão em vários pontos, e depois?
    Por acaso continuamos a escrever como o Camões?

    Desculpa a teimosia, mas prefiro discutir as impressões, não ligo tanto às expressões (embora às vezes tenham muita piada).
    Manias…

  21. não, não continuamos porque existe esta coisa que se chama evolução natural da língua.

    (ora vê o meu resumo) :-)

    as línguas, à semelhança das espécies, naturalmente evoluem e modificam e podem e devem ser consideradas como entidades vivas e, como tal, sujeitas a um processo evolutivo desde os primórdios da comunicação humana – adaptações aos novos usos a que seus usuários (a comunidade falante) as submetem. olha isto dele, fernando pessoa (1999), conhecedor da palavra e da alma portuguesa, “a linguagem fez-se para que nos sirvamos dela, não para que a sirvamos a ela.”

    no campo dos estudos linguísticos, ambas as teorias sobre a evolução das espécies – a de darwin e a de lamarck – podem ajudar a explicar a evolução e a diversidade linguística. uma língua poderá sofrer modificações pelos falantes no sentido de comunicarem e se expressarem melhor porque, afinal, entre outras coisas, é para isso mesmo que ela serve: comunicação, exteriorização de ideias, de desejos, de pensamentos e de sentimentos. se a língua não for capaz de cumprir seu papel, provavelmente ela sofrerá modificações: novas formas sintácticas serão criadas, ou antigas serão modificadas; haverá criações de neologismos e formação de palavras inéditas, empréstimos linguísticos etc. dessa forma, há uma adaptação do idioma, o melhor possível, à sua comunidade linguística e, principalmente, às exigências dos seus falantes. tal como como as espécies de seres vivos, se dois grupos de falantes de uma língua forem separados geograficamente – a língua será modificada, sempre de forma lenta e gradual, de tal forma que, após se passarem muitos anos, poderão ser formadas duas novas línguas.

    (isso aconteceu, por exemplo, com o latim falado na região onde agora é a frança – que, obviamente, deu origem ao francês – e com o latim falado na península ibérica – que originou o espanhol e o português.)

    o sentido natural das coisas, da língua, neste caso, seria – tal como projectei ainda andava no liceu – na viragem do século, talvez, haver definitivamente oito línguas diferentes fruto de usos e usuários diferentes, climas diferentes, geografias diferentes, culturas diferentes em que a única base comum assentaria na língua portuguesa que naturalmente foi absorvida e trabalhada por cada um dos países até originar línguas singulares não obstante a similaridade do português. pensando ainda melhor sobre o assunto, talvez seja este argumento – o da evolução natural – que mais e melhor explica a imbecilidade deste tratado que pretende exaltar, auto-exaltando-se, o brasil, através – não altruístas – de ideais egoístas.

  22. Vega,
    sendo ferramenta, não podes tirar o cabo ao alicate, que assim não te serve para nada ou só serve para gerar incidentes. Eu sei que não dizemos o “c” do espectáculo ou do espectador, mas ele está lá para orientar a fonética e assim todos nos entendemos, que um gajo que espeta o espeto não é o mesmo que vai ver o “espetáculo”. A questão é que no caso brasileiro, as vogais são sempre abertas, e portanto – PARA ELES – não faz sentido. Para mim, este cêzinho faz e continuará a fazer muito sentido.

    Viegas,

    També seria muito interessante estudar a relação da lei com os portugueses…

  23. Os comentarios dos anti-acordo parecem-me assentar numa ma compreensão dos conhecimentos que temos sobre o que é uma lingua e sobre os principios que regem a sua evolução.

    Para pegar apenas no ultimo do Olinda, reparem que, se não houvesse nenhuma intervenção “politico-administrativa” sobre a lingua, o mais provavel seria termos muito mais do que 8 padrões diferentes no espaço da lusofonia. So em Portugal, teriamos o padrão açoreano, o transmontano, o lisboeta, etc.

    Na realidade, a contradição insanavel dessa posição é que ela critica que se imponha um novo padrão, argumentando que não cabe à autoridade politica ou administrativa intervir nessa matéria mas, ao mesmo tempo, não pugna pelo abandono total de um padrão imposto por decisões politico-administrativas, mas antes por manter vigente os padrões actuais, eles proprios fruto de decisões politicas e administrativas (que, no caso dos paises lusofonos, são alias muito recentes).

    De facto, podemos perfeitamente imaginar que não exista padrão ortografico consagrado politicamente (ou pela administração), ou que exista um muitissimo mais maleavel. Quem trabalha, por exemplo, sobre textos do século XVI sabe por experiência que a lingua portuguesa sobreviveu lindamente a periodos em que não existia um padrão ortografico parecido com aquele a que estamos habituados.

    Mas esse facto não parece poder ser invocado para sustentar uma posição que, muito longe de criticar a rigidez do padrão do NAO (mais livre que os antecessores, por sinal, sendo que a rigidez destes foi uma das razões que aceleraram a divergência entre o Brasil e Portugal), preconiza apenas que se mantenha o actual, com argumentos que são perfeitamente vazios de sentido, tanto para o jurista como para o linguista.

    E agora caiam-me em cima…

  24. comparar regionalismos de uma unidade, que é um país, a fragmentos é um perfeito disparate quando a louça que eu lavo é exactamente a mesma loiça, linguisticamente lavando, que qualquer outro poderá lavar no sul. qualquer outro dos sete a entende mas se não a entendesse não haveria problema algum – cada língua a seu dono e se em tempos os escravizamos já deixou, para bem, de acontecer: queres ser escravo, pela língua, do Brasil a propósito do quê? Na minha opinião, qual fado qual quê, é a língua que constitui o maior património de um país (ou daqui a nada também um qualquer país lusófono vem dizer que o fado é tão cultura dele como nossa e decide adaptá-lo ao samba, ou à morna, para uniformizar a saudade?).

    ficas a saber que sou defensora aguda e crónica da minha língua e que por nenhuma outra a troco – perceber e ler e falar e escrever uma língua estrangeira é uma coisa, já conhecê-la profundamente e saber dançar com ela é uma outra completamente diferente porque requer tempo e dedicação e amor. Não estou, nunca estive, e voluntariamente nunca estarei, apaixonada e predisposta a amar outra língua que não o português – sou uma portuguesa fiel. ainda recentemente fui entrevistada por um director geral de uma empresa francesa que me exigia a perfeita fluência da sua língua como se francesa fosse. sabes o que lhe disse? que faço questão de adoptar a cultura empresarial da empresa com quem trabalho mas não renuncio nunca as minhas origens e o meu amor e, por isso, o máximo que podia esperar de mim seria um francês técnico e profissional – que estaria disposta a reciclar e a desenvolver – mas nunca me casaria com ele e que visto que se foi em Portugal que a empresa escolheu desenvolver-se, o esforço deveria ser mais dele – do director geral – em portuguesar do que o meu em francisar, meros esforços, sempre superficiais, em vão. ainda não fui recusada mas sei que vou ser e azar o deles que não sabem o que será não terem a produtividade de uma portuguesa apaixonada, e fiel, a trabalhar. isto para te dizer que não admito a nenhum, nem a ninguém, que me queiram usurpar aquilo que de mais valioso, que estimo com muita gana, há no meu país.

  25. Addenda :

    Algumas formas alternativas, não necessariamente menos onerosas(*), mas não necessariamente menos eficazes, eventualmente combinaveis, de alcançar o objectivo prosseguido pelo NAO :

    – Impôr a todas as pessoas investidas de incumbências administrativas que passem aceitar documentos escritos num português conforme ao padrão em uso nos outros PLOPs e obriga-las a conceder todas as facilidades a quem queira escrever de acordo com um qualquer desses padrões.

    – Subsidiar a publicação de dicionarios que registem todas as variantes em uso nos diversos PLOPs, por exemplo mediante a compra de um exemplar por repartição administrativa e de cinco exemplares por bilioteca publica.

    – Abolir todas as regras actuais que impedem os editores de um PLOP de distribuir e vender os seus livros noutro PLOP.

    – Impôr na televisão e nas estações de radio publicas que uma percentagem importante dos programas sejam falados em Português (seja qual fôr a variante). Subsidiar a dobragem de programas noutras linguas, admitindo que a dobragem possa ser feita por actores de outros PLOPs.

    – Impor nos programas de ensino publico de Português o estudo da literatura de outros PLOPs. Favorecer o ensino da historia, da cultura, da geografia economica etc. dos outros PLOPs.

    – Apoiar ou subsidiar os programas de intercâmbio cultural, deportivo, turistico, etc. entre PLOPs.

    – Pedir a um colégio de sabios que tente construir um conceito luso de auto-estima que limite os efeitos dramaticos de uma tradição multisecular de odio e de vergonha em relação às nossas raizes.

    – Promover a leitura sob todas as suas formas.

    – etc.

    (*) : A questão do “custo financeiro” do acordo atinge quanto a mim os pincaros do absurdo. Contas feitas, os custos directos e indirectos da implementação do novo padrão são COMPLETAMENTE cobertos pelo excedente de IRS advindo dos ganhos que o Vasco Graça Moura aufere a escrever artigos contra o NAO nos jornais.

    Boas !

  26. Bem, espero que o meu anterior comentario tenha ficado registado, porque era comprido e não tenho paciência de o re-escrever…

    Cara Olinda, em que é que o NAO põe em perigo o amor que tens pela lingua portuguesa ? Ou sequer a sua especificidade em relação à brasileira ?

    Boas

  27. o amor é inteiro e querem amputá-lo, fazê-lo cego, fazê-lo surdo, fazê-lo mudo – e até os chapéus românticos que ele tanto gosta de usar querem roubar.:-)

  28. oh bécula! achas que o françiú te ia contratar para passares a manhã a teclar as tuas angústias nas caixas de comentários do aspirinas? quanto muito ias debalde & esfregona censurar comentários das portas das casas de banho do supermercado. olha! a bosch tem aparafusadoras em promoção.

  29. Cara Olinda,

    Amor é fogo que arde sem se ver…

    Percebo o argumento, mas pode ser virado do avesso. Cegueira, não sera antes confundires o amor que tens por Camões, que muito provavelmente descobriste numa grafia que ele nunca utilizou, com o amor que tens pela forma, acidental e transitoria, usada pelos Bascos Mouros Desgraçados deste pais para te dar a conhecê-lo (o que o visado faz relativamente bem, justiça lhe seja feita) ?

    Boas e as minhas desculpas por te ter trocado o gênero (com chapéu)…

  30. não: Camões só via por metade, era cegueta, e o amor é fogo que cresce, alimentando-se de oxigénio, para inflamar a acordar e a adormecer. e não: cegueira é a corrupção da língua, e da oliveira, a troco de falso altruísmo. :-)

  31. Olá! Sou brasileiro e futuro professor de português.

    Como estudante e também interessado em saber a respeito do Acordo Ortográfico – que passa a vigorar sob todas as instâncias no Brasil e não somente nas administrações públicas – digo que, em primeiro lugar: pode sim parecer, mas o Acordo não é uma imposição a Portugal nem muito menos ao restante dos países de língua oficial portuguesa.

    Sei que pode parecer, já que grande parte – com razão – dos portugueses não querem o “AO” e, mesmo assim, o governo insiste em implantá-lo. Claro, não nego que há um grande interesse comercial por trás disso, mas se fosse mesmo uma imposição, como um país, “de terceiro mundo e que possuí em sua carta magna o lema de ‘respeitar a soberania de outros Estados’ ‘influenciaria’ outro, de primeiro mundo, soberano e membro da União Europeia?”

    Ah! Antes que digam que sou completamente a favor dele, digo: NÃO! E é por pura convicção política – afinal, são mais de 500 anos tentando se desvincular totalmente dos traços deixados pelos colonizadores europeus.

    A língua portuguesa falada no Brasil é única! Tão única que, em Portugal dizem que por aqui se fala brasileiro e não português – e não estão de todo errado.

    Estou com aqueles que são contra, mas já escrevo conforme os que são a favor – afinal, “em Roma, faça como os romanos”. Mas gostaria realmente que o Brasil deixasse de dizer que fala português para começar a dizer que fala brasileiro: “uma língua derivada do português e que teve sua origem na absorção de outras palavras vindos de idiomas como o tupi, espanhol, o inglês…”. Isto nos valorizaria e respeitaria a vontade de ambos os povos. Contudo, é um sonho ainda distante, já que meche com muitos interesses internacionais.

    Por fim, quero concluir que a causa é justa, mas acusar o Brasil não! Assim como espero que realmente que algum governante, de algum dos lados, acorde e veja a idiotice que estão a cometer.

  32. se eu acuso de alguma coisa o Brasil, Lucas, é de saber levar a bom cabo os seus interesses e de conseguir persuadir todos os envolvidos a beberem, com ele, os seus intentos desde quando o presidente José Sarney deu o grito na assembleia da república dizendo que, apesar das intenções do Acordo Ortográfico, este serve “interesses geopolíticos e empresariais brasileiros, em detrimento de interesses inalienáveis dos demais falantes de português no mundo”, em especial de Portugal, e representa “uma lesão inaceitável de um capital simbólico acumulado e de projeção planetária”. e enviou emissários para os PALOP para tentar resolver a pura questão de mercado – de forma realista e pragmática. e conseguiu. está, por isso, de parabéns.

    (os portugueses são umas marias que vão com todos, está visto.) :-)

  33. « meche com muitos interesses internacionais».

    O «meche» já deve ser língua …brasileira! E já agora, quando é que os brasileiros se vão calar com a colonização portuguesa etc.etc. e assumem que se não fosse Portugal, seria outro país.Ainda assim, «bota» aí respeito, rapaz, que por aqui, fala-se bem e não se é adepto de legenda.

  34. ibuprofeno duplo, perdão, não quis bancar o “troll” nem muito menos ser desrespeitoso com Portugal ou com os portugueses – país que tenho certa admiração.

    Concordo que acabei nacionalista, mas a questão foi a de que defendo a soberania de ambos os países; o que me doeu foi a acusação que fazem ao Brasil de que o Acordo foi uma imposição – o que, aqui dentro, não parece, visto que na imprensa, nas escolas e nas universidades dizem apenas que “foi um acordo internacional para tentar unificar a língua de forma que todos os países escrevam da mesma maneira”.

    Mais uma vez perdão se alguém se sentiu ofendido com meu comentário anterior assim como deixo claro que tenho esperanças desse (des)acordo acabe engavetado.

    P.s.: “mexe” ainda é, de fato, com X… Quando fiz a revisão do meu comentário não consegui vê-lo =(

  35. Ainda ha gente por aqui ?

    Concordo que a questão da imposição é uma falsa questão (e numa vasta medida um absurdo do ponto de vista juridico).

    Gostei de ler o ponto de vista do Lucas, de quem discordo.

    A unica questão que interessa, a meu ver, é mesmo a que ele levanta : queremos acentuar a distância que se vai instalando entre as duas praticas lingusiticas, ou queremos antes aproxima-las, não para que elas percam as suas especificidades proprias, mas para que continuem o mais possivel a evoluir em conjunto, nutrindo-se uma da outra (digo eu) ?

    Eu revejo-me na lingua “brasileira”, gosto de ler (também) o português falado e escrito assim. Acho que seria uma perda apartarmo-nos dele ainda mais. E também um crime contra a preservação do nosso proprio patrimonio linguistico. Com efeito, revejo no português do Brasil, traços completamente caracteristicos dos sertões portugueses, que a moda e o enfraquecimento permanente em relação ao litoral, bem à maneira do nosso provincianmismo, têm tendência para abafar.

    Muito francamente, acho que o “não sei nada, mas desconfio de muita coisa” esta ao nivel do “não querer mais do que bem querer”. Considero que se “me” tirarem o Machado de Assis, dizendo que afinal é um Sterne, vou me sentir tão orfao como se me tirassem o Camilo, ou o Aquilino (aquilo é a lingua da beira trasmontana, não se consegue ler sem o dicionario ao pé, dizia, em tom de admiração, a minha professora de português).

    Por isso sou favoravel ao AO, contrariamente ao Lucas.

    Entristece-me a posição dele, mais ainda sabendo que se trata de um futuro professor de português. O que ele diz, e que até não esta incorrecto (infelizmente), é que os livros do Paul Auster não são vertidos na mesma lingua consoante estamos nos cafés de São Paulo, ou nos bares do Bairro alto de Lisboa.

    Pois acho pena !

    E sou a favor do NAO como uma (pequena) medida para tentar lutar contre esta tendência.

    Boas

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