Vincent Gallo e as mamadas

As pessoas de quem vale a pena gostar adoram o Vincent Gallo. É de longe o maior bacano da indústria dos movies. E nem sequer precisamos de lembrar a oferta dos seus serviços de gigolô, $50,000.00 por noite, ou de esperma, $1,000,000.00, em que ele se compromete a fornecer a quantidade necessária até se atingir o fim desejado, para lhe oferecer a taça e as medalhas. Sim, podes confirmar. Não, nada destas brincadeiras e nada de convencional, como chapar com a sua biografia de artista completo, desde a composição musical, passando pela performance, pela moda, por isto, por aquilo, por aqueloutro, até à representação e realização. Não, não, não. O que faz dele o rei dos bacanos no cinema é a participação como actor no primeiro filme de Teresa Villaverde, Idade Maior, em 1991.

Ora, este nosso amigo realizou uma fita em 2003 chamada The Brown Bunny. É a sua obra mais popular por causa de uma única cena onde filma Chloë Sevigny a retirar-lhe o tal esperma milionário com o recurso às extremidades dos braços e à abertura anterior do tubo digestivo (queres ver?). Foi um escândalo, claro, mas para alguns o escândalo estava no disparate daquilo, cena e filme. Outros topavam-lhe o número, a fantasia masculina por excelência: ter o seu pénis como protagonista no ecrã e alguém agarrado a ele, concentradíssimo. O que centenas de milhões fizeram, fazem e farão para consumo caseiro, Gallo tinha inventado um pretexto para exibir nos melhores festivais de cinema e salas de espectáculo. Não se tratou de erotismo nem de sexo ao serviço da narrativa, antes do cocktail da vulgaridade: exibicionismo, vaidade, narcisismo. E nada contra, esclareço.

Saltemos para 2010 e entremos no Essential Killing. O seu papel é o de um guerrilheiro afegão em fuga aos militares ocidentais algures no Leste da Europa. A meio do filme há uma cena ridiculamente filmada onde Gallo domina uma jovem mulher que está a amamentar e serve-se da mama disponível para também sacar uma refeição à borla. É algo que nem no circuito pornográfico se ousaria filmar, tanto pelo receio dos efeitos na opinião pública como por essa malta não estar completamente desprovida de tino. Pois Gallo não só alinhou como pediu que se arranjasse uma fêmea que estivesse mesmo lactante (queres ver?). Ars super omnia.

Há, pois, uma ligação incomparável na história da cinematografia entre Vincent Gallo e as mamadas. Não só as filma como se sujeita a elas com generosidade e denodo. E mais: especializou-se num tipo de personagem marcada pela derrelicção, marginalidade, abandono, solidão, desamparo, alucinada presença, cuja mais rigorosa descrição passa pelo uso do vocábulo mamado no seu significado de gíria equivalente a taralhouco, ressacado ou esquisito. Porque é tal e qual assim que ele curte apresentar-se ao público, aos jornalistas e a si próprio: todo mamado.

3 thoughts on “Vincent Gallo e as mamadas”

  1. já vi tudo – mas por curiosidade. agora que já conheço, dispenso. é isso mesmo: não gostem de mim porque eu não valho a pena. :-) esse tipo de ecologia do corpo e do desejo, dos afectos e da capacidade de promessa de, neste caso, compra e venda não me convence nem prende a minha atenção. e não é por ser Mulher nem por me meter varejo a divinização do capital-capital e, neste contexto, do capital-humano: é por ter a certeza que tal advém de uma verdadeira miséria real de formas de vida e de práticas criativas. e se mais ninguém me entender, eu fico com o Lyotard. :-)

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