Vamos ter saudades dos seus discursos

Saúdo de forma especial neste dia o candidato eleito – e Presidente reeleito – Aníbal Cavaco Silva, a quem desejo um novo mandato à altura dos desafios nacionais.

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Reconfirmado na magistratura de um segundo mandato, é agora V. Exa., de novo, Presidente de todos os portugueses. A magnanimidade da mensagem presidencial será, assim, estou certo, corolário de abrangência e conciliação, traço que completará a década presidencial, e a que se soma já a década governativa, e que fazem de Aníbal Cavaco Silva um político que se torna, pela duração sufragada dos seus mandatos, figura marcante da nossa vida política contemporânea.

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Só esforços convergentes muito decisivos no Parlamento e entre o Parlamento, o Governo e o Presidente da República, bem como entre as autoridades nacionais e os responsáveis pelos destinos da União Europeia, poderão gerar adequadas plataformas de solução para a magnitude dos problemas que temos diante de nós.

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O contexto e o desafio do mandato presidencial coincidem assim com preocupações e expectativas dos portugueses a que nem sempre será possível responder com resultados na hora e que exigirão, da parte de V. Exa., Senhor Presidente da República, apuradíssimo sentido de responsabilidade perante o país inteiro e vasto sentido de arbitragem, concertação e impulso orientador, em consonância com o núcleo essencial das propostas programáticas, apresentadas como de magistratura activa, e também com o acrescido grau de autonomia que caracteriza sempre um Presidente, em segundo mandato, agora menos preocupado com os ditames de uma reeleição e mais atento a um lugar no destino histórico.

Vértice do sistema político da Constituição de 76, Comandante Supremo das Forças Armadas, símbolo da representação externa de Portugal, o Presidente da República é o detentor por excelência, no nosso sistema político, de uma magistratura arbitral, em si mesma não residual, mas antes propulsionadora de grandes orientações que respaldem escolhas legislativas e soluções governativas adequadas a resolver os problemas nacionais. Não se substitui ao Governo nem à Oposição, porque se situa claramente acima de ambos. Essa influência torna-se tanto mais necessária quanto o grau de dificuldades exige profunda coesão para que possam ser alcançados com largo apoio os resultados indispensáveis.

Naturalmente preocupado com fracos índices de desempenho na área do crescimento económico e do emprego – a atingir rudemente os jovens – e ainda com continuadas e por vezes dramáticas situações de desigualdade e de exclusão social, o país aguarda uma sábia concertação estratégica entre poderes e responsáveis públicos, respeitadora das respectivas competências, mas convergente no essencial, para que as reformas possam ser concebidas com ampla visão e sólida competência e empreendidas com a seriedade, a persistência e a clareza de rumo que o momento impõe e que não é avisado nem justo adiar.

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A hora presente não dispensa ninguém de fazer acompanhar o inventário das dificuldades com respostas exequíveis e de balancear os desígnios das alternativas, que naturalmente se posicionam no tempo, com o bom senso de viabilizar medidas de alcance prático imprescindíveis para o dia a dia e o imediato.

O sentido de responsabilidade perante o país não isenta ninguém de um contributo próprio para o reforço da credibilidade das instituições e das medidas a adoptar no seu âmbito, seja na Presidência da República, no Parlamento, no Executivo ou no Poder Judicial. Todos não somos demais para as tarefas que temos pela frente. Só com união de esforços alcançaremos um resultado.

Sabemos, na Assembleia da República, que contaremos, no novo mandato, com um Presidente da República atento a este desígnio nacional.

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Jaime Gama, minutos antes de testemunhar o lançamento de mais uma golpada cavaquista cuja cifra foi: Há limites para os sacrifícios que se podem exigir ao comum dos cidadãos.

17 thoughts on “Vamos ter saudades dos seus discursos”

  1. É a diferença entre um Senhor e um homem “vulgar”. O primeiro vai deixar saudades, o segundo vai ‘massacrar-nos’ por mais 5 anos ou … talvez não.

  2. E eu que, a quando da escolha do candidato do PS à Presidência da República, cheguei a admitir que o Jaime Gama seria uma boa aposta! O sentido da verdade impõe limites à diplomacia e às boas maneiras. Isto excede tudo o que imaginar se possa! Como alguém disse, terá sido o filho que lhe preparou o discurso?! Fico sem saber o que pensar quando junto o que aqui foi dito aos celebérrimos elogios à democracia do A.J.Jardim.

  3. ANIPER, tens de ler com mais calma as palavras do Gama. Ele está a defender-te. Ora compara as suas considerações do que deve ser um Presidente da República com o que Cavaco fez logo a seguir a este discurso.

  4. Também vou ter saudades dos discursos profundos de Jaime Gama. Lamento o seu afastamento da vida política.

  5. Para mim, sempre foi um personagem enigmático. Creio que a sua insularidade se sobrepôs algumas vezes à coerência – o coração tem suas razões, que a própria razão desconhece – prejudicando de algum modo (comprometendo) o brilho que poderia ter alcançado.
    A sua aparente bonomia, escondia uma férrea vontade e uma melíflua habilidade para a diplomacia. Sabia ser duro como o aço apresentando-se porém suave como o veludo.
    Homem com letra grande, sai pela porta da frente ao fim de 35 anos dedicados à causa pública.
    Raros são o que o podem fazer, e, mais raros ainda serão, os que terão reservada tal felicidade.

  6. pelos vistos foi-se e ninguém deu por ele, tirando ele próprio. um burocrata que será lembrado pelas birras parlamentares e discursos tão profundos que nem o costeau lá ia.

  7. Um falhado. Simboliza o clamoroso falhanço de toda uma geração de democratas retóricos e gongóricos, no pior sentido primo-republicano do termo, que não soube, ou não quis, apresentar uma alternativa honrada a Cavaco Silva em 2006. Obrigadinho ó Gama, pelo “Latim”, mas o que eu queria ver eram as “obras”. Continuo sentado…

  8. Dúvida soberana

    “A crise política começou e Cavaco não disse nada.
    O Sócrates ameaçou demitir-se e Cavaco nada disse.
    O Sócrates demitiu-se mesmo e Cavaco continua sem nada dizer.
    Pergunto eu, não será melhor alguém passar lá em casa a ver se está tudo bem?
    Nos dias de hoje todo o cuidado é pouco com idosos sózinhos em casa.”

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