Um dia de domingo

As figuras públicas – jornalistas, políticos, opinantes – que usam o caso da licenciatura de Sócrates para o atacar servem-se de material obtido em escutas (portanto, relativo a um certo contexto lateral aos factos), o qual interpretam de modo enviesado para poderem continuar e até reforçar o ataque, e adoram repetir a caricatura do “curso tirado num domingo”, esse episódio em que uma qualquer nota terá sido colocada em pauta no fim-de-semana em vez de o ter sido na segunda ou sexta-feira.

Do que estes fariseus nunca falam é do facto de a licenciatura de Sócrates ter sido investigada pelo Ministério Público mais do que uma vez. O que estes calhordas nunca referem é o facto de nada nem ninguém poder impedir a demonstração de algum ilícito ou irregularidade, bastando para tal que as provas sejam exibidas num qualquer pasquim. E onde estão elas?

Obviamente, a ideia de que Sócrates pode ter concluído a licenciatura fazendo algumas cadeiras na desportiva não provoca qualquer tipo de objecção cognitiva. A resposta normal, para quem tenha passado pela academia, será a de admitir a alta probabilidade de tal ter acontecido. Coisas dessas e muito piores preenchem as memórias de todos os licenciados, fazem parte do folclore universitário quer sejam reais ou fruto das inevitáveis teorias da conspiração. Para mais, sendo Sócrates um político de carreira, o seu estilo de vida e estatuto social tornam verosímil a eventualidade de ter sido ajudado a concluir o curso. Contudo, não havendo prova, alimentar a suspeita é preferir a difamação e a calúnia.

Os seus inimigos, dado o prémio altíssimo da sua captura, não estão dispostos a conceder-lhe o benefício da dúvida. Eles nem sequer respeitam a sua condição de inocente, um inocente que já passou o teste da averiguação criminal e sobreviveu à perseguição jornalística. Para sempre, os pulhas e os broncos repetirão que o seu curso foi tirado num domingo. E algo no íntimo dos broncos e dos pulhas se animará, um arroubo de vitalidade atravessará esses farrapos encardidos com que simulam ter uma coluna vertebral.

19 thoughts on “Um dia de domingo”

  1. a primeira coisa que me veio à cabeça quando li isto foi “pela boca morre o peixe”; a segunda foi, como é que os jornalistas, comentadores e outros politicos vão descalçar esta bota ? depois de andarem há meses, mesmo há anos, a usar a licenciatura ao domingo como bandeira ?? :)

  2. O que teremos práí de doutores!

    Por isso há tantos doutores a emigrar.

    É bom que mandem as remessas como faziamos a pedido do Salazar os pedreiros e indiferenciados.

  3. A “licenciatura” da erva daninha é assim tipo uma embalagem de comida pré-cozinhada, mete-se no forno meia hora e está pronta. E já agora não era má ideia começarem a olhar com um pouquinho de atenção para a licenciatura do coelhito. Aquilo também deve ter sido cozinhado à pressão.

  4. Gostei do post.

    Quem não se lembra das “passagens administrativas” em 1975, de que beneficiaram centenas (milhares?) de universitários, entre os quais cito, por serem os mais “famosos”, Durão Barroso e Santana Lopes.

    Alguém pôs em dúvida a legitimidade dos seus canudos?

  5. “Obviamente, a ideia de que Sócrates pode ter concluído a licenciatura fazendo algumas cadeiras na desportiva não provoca qualquer tipo de objecção cognitiva. A resposta normal, para quem tenha passado pela academia, será a de admitir a alta probabilidade de tal ter acontecido. (…) Para mais, sendo Sócrates um político de carreira, o seu estilo de vida e estatuto social tornam verosímil a eventualidade de ter sido ajudado a concluir o curso”

    Como é possível insultar assim a dignidade de figura tão impoluta???!!!… Entre o Sócrates e o Supergrass

    http://lishbuna.blogspot.pt/2012/07/mas-alguem-duvida-que-o-supergrass.html

    não há nada, mas MESMO NADA, de comum!

    http://lishbuna.blogspot.pt/2012/07/nao-soa-curiosamente-familiar_03.html

  6. Uma bofetada dada pelo Público ao Relvas? Espero que não larguem o osso tão cedo.
    Podiam continuar a investigar as licenciaturas dos membros do governo a começar pelo Pedro Coelho.

    Eficiente este Relvas, uma licenciatura apenas com uma cadeira com 10 valores e o resto em experiência profissional. Será que a filha dele se orgulha desta licenciatura a jacto?

  7. não percam tempo com merdas que a provarem-se não configuram crime, peguem-lhe pela finertec e facilitador cimpor, isso é que era serviço.

  8. Utilizando a mesma argumentação do próprio, que pensará a filha do Relvas ao saber da forma como o pai obteve o seu canudo? Sentir-se-á envergonhada perante as (os) colegas, ou pura e simplesmente quererá seguir o “exemplo” do pai?

  9. Para mim, o pior nesta história, é ver o Relvas a servir-se dos mesmos argumentos que seriviam no Novas Oportunidades para potenciar a certificação académica – as experiências de vida acumuladas. Que um ministro que tanto criticou o N.O. venha agora servir-se de uma de suas bases operacionais – a experiência de vida como passível de crédito para certificação académica – é no mínimo de embrulhar o estômago.

  10. Ora leiam toda esta reveladora conversa ácerca das “licenciaturas” de A e de B à luz disto que há pouco recebi e digam-me que país é este!

    A DIFERENÇA ENTRE ASSESSOR E COVEIRO!!!!

    EXEMPLO 1

    Ora atentem lá nesta coisa vinda no Diário da República nº 255 de 6 de Novembro:

    No aviso nº —- (2ª Série), declara-se aberto concurso no I.P.J.
    Para um cargo de “ASSESSOR”, cujo vencimento anda à roda de 3500 euros).
    Na alínea 7:… “Método de selecção a utilizar é o concurso de prova pública que consiste na
    “… Apreciação e discussão do currículo profissional do candidato.”

    EXEMPLO 2

    Já no aviso simples da pág. 26922, a Câmara Municipal de Lisboa lança concurso externo de ingresso para COVEIRO, cujo vencimento anda à roda de 450 EUR mensais.

    Método de selecção:

    Prova de conhecimentos globais de natureza teórica e escrita com a duração de 90 minutos.
    A prova consiste no seguinte:

    1. – Direitos e Deveres da Função Pública e Deontologia Profissional;
    2. – Regime de Férias, Faltas e Licenças;
    3. – Estatuto Disciplinar dos Funcionários Públicos.
    4. – Depois vem a prova de conhecimentos técnicos:Inumações, cremações, exumações, trasladações, ossários, jazigos, columbários ou cendrários.
    5. -Por fim, o homem tem que perceber de transporte e remoção de restos mortais.
    6. – Os cemitérios fornecem documentação para estudo.
    Para rematar, se o candidato tiver:
    – A escolaridade obrigatória somará + 16 valores;
    – O 11º ano de escolaridade somará + 18 valores;
    – O 12º ano de escolaridade somará + 20 valores.
    7. – No final haverá um exame médico para aferimento das capacidades físicas e psíquicas do candidato.

    ISTO TUDO PARA UM VENCIMENTO DE 450 ? MENSAIS!
    Enquanto o outro, com 3.500? só precisa de uma cunha…!!!
    Vale a pena dizer mais alguma coisa…?!
    DIVULGUEM!!!Urge que se mostre indignação. Basta de cinismo e de hipocrisia!

    Por estas e por outras, é que em Portugal existem COVEIROS LICENCIADOS (sei lá) e ASSESSORES DE MERDA!

  11. Sócrates e Relvas a mesma gente, a mesma luta o mesmo ideal, ou seja f—r Portugal.
    Mas a carneirada gosta é destes espertos.
    É os tachos a quanto obrigam, vão trabalhar malandros.

  12. oh ratax! cuidado com as misturas, o socras tem um curso de engenharia e andou lá 4 anos, o relvas matriculou-se em tudo e fez nada, o pintas do catedrático gerómino anda na malandragem desde que saiu da primária.

  13. oh ratax! nunca ouviste falar dos tintins do padre ignácio ou os créditos dessa cadeira estavam esgotados quando te licenciaste em comunista?

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.