Tancos, um assalto à inteligência

- Falou numa concentração deste tipo de instalações. Já está escolhido o sítio?

- Há vários sítios que estão a ser ponderados, é uma questão operacional. Os paióis da Marinha são interessantes porque cumprem os tais requisitos que já referi. Pode ser Santa Margarida ou Alcochete mas isso espero para ver aquilo que o exército e os outros ramos [dizem ou querem], porque é uma ocupação conjunta de paióis que podem pertencer apenas a um ramo. Este é um aspeto premente do ponto de vista de tempo para se seguir adiante quanto a este assunto. Há outro assunto não menos importante que é a identificação daqueles 3 pilares onde se verificam fragilidades de recursos humanos, não necessariamente mais recursos é sobretudo melhor formação. Acabei por saber, ainda vou acabar especialista em paióis, que para a vigilância é preciso uma formação particular, um conjunto de rotinas e aí há melhorias a fazer. Há depois a questão da instalação propriamente dita, da proteção e vigilância e depois há finalmente a questão do sistema de gestão de informação que nos permita saber o que é que está onde, quando, etc., para se evitar que depois se possa discutir se houve ou não furto. No limite, pode não ter havido furto nenhum. Como não temos prova visual nem testemunhal, nem confissão, por absurdo podemos admitir que o material já não existisse e que tivesse sido anunciado... e isto não pode acontecer.


Entrevista a Azeredo Lopes

“Aquilo que é essencial é respeitarmos as autoridades judiciárias que estão seguramente a fazer o seu melhor trabalho, para poderem esclarecer tudo até ao fim, doa a quem doer, como quer o Governo, quer o Presidente da República têm dito ao longo destes anos. O senhor Presidente da República, aliás, não se tem cansado de expressar publicamente a sua ansiedade; e o Governo, naturalmente, deve ser mais contido em expressar a sua ansiedade, mas não é menor. Acho que ninguém compreenderia em Portugal é que, relativamente a este crime, não se chegasse ao final da investigação punindo quem deve ser punido e esclarecendo tudo o que deve ser esclarecido.”


Declarações de António Costa

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O desaparecimento de armamento em Tancos, assim como o seu reaparecimento na Chamusca, transformou-se num dos mais graves episódios a envolver o Exército depois do 25 de Abril. Tal poderia ter sido uma ocasião soberana (pun intended) para se falar politicamente sobre a longa crise das Forças Armadas, instituição pilar do regime que parece viver como órgão insular no corpo da República. Em vez disso, a direita decadente aproveitou para fazer chicana e a esquerda não conseguiu sequer ser patriótica. Mas é do maremoto de imbecilidade na imprensa dita especializada em política que quero falar antes de chegar à pessoa que até agora foi a única a conseguir enfrentar o ubíquo insulto à nossa inteligência com uma atitude exemplar.

Na comunicação social, assim que se tornou público o desaparecimento do armamento, o alvo instantâneo foi o então ministro da Defesa. O móbil da fúria jornaleira era um buraco numa cerca apresentado com prova do suposto roubo. Culpa do ministro? Não tinha mandado reparar a coisa, daí o assalto ao paiol, garantiram fulanos pagos para escrever em jornais ditos de “referência”. Estávamos na crista da onda da “falência do Estado”, a exaltação retórica e eleitoralista que percorreu os títulos e os comentários lançados para o espaço público de forma a usar os mortos de Pedrógão como arma de arremesso político contra o Governo e o PS nas vésperas de eleições autárquicas. Acontece que o ministro tinha mandado reparar essa tal cerca sim senhor, em Maio de 2017, e a dita não tinha qualquer importância para o acontecido. Até podiam ter começado por fatiar e levar para um ferro-velho essa cerca até ao último arame que à mesma não seria por causa disso que ficava explicado o alegado furto – continuaria a existir mais uma cerca e não sei quantos soldados armados em constante vigilância ao perímetro e instalações. Foi isto mesmo que Azeredo Lopes descreveu com minúcia numa entrevista ao DN, após ter competentemente esperado pelas informações das diferentes autoridades militares com responsabilidade no caso. Como se pode ler na citação acima, o seu zelo em ser explícito é tal que, para efeitos de ilustração do ponto da especial complexidade que a segurança do paiol suscita, acaba por cenarizar uma hipótese que tem ainda o acrescido cuidado de carimbar como “absurda”. Azeredo não poderia antecipar que os jornalistas presentes, mais o então director do jornal, iriam criar uma falsidade como título a partir desta e de outra resposta. Se tivesse podido adivinhar o futuro, seguramente que teria preferido criar um futuro alternativo onde tamanha deturpação não tivesse oportunidade de ser lançada como “verdade”. É que a partir daí, num fenómeno de estupidez sectária ou infantilóide que atingiu as melhores inteligências na praça, o fluxo mediático e partidário sobre Tancos não mais ultrapassou o nível do tiro ao ministro até que se conseguiu a sua demissão. Conseguida, continuou-se a disparar para a linha de cima, Costa e Marcelo. A pulsão de abate dos adversários, ou o mero automatismo dos profissionais da baixa política, a sobrepor-se imparável sobre qualquer noção de responsabilidade política, defesa das Forças Armadas e módica salubridade cívica.

Um ano depois do exercício ad usum delphini feito no DN, António Costa estava a pronunciar-se pela enésima vez sobre Tancos quando resolveu mostrar que ele e Marcelo queriam com urgência ter o caso resolvido onde ele se pode resolver, ou começar a resolver, de vez: no Ministério Público. Para tal, saiu-lhe um argumento onde usava a palavra “ansiedade” como metáfora da gravidade institucional com que tanto Governo como Presidência lidavam com a sucessão de inacreditáveis e vexantes, inclusive assustadores, desenvolvimentos do caso. Como se pode ler na citação acima, Costa aponta para a “ansiedade” de Marcelo de forma a colocar no Chefe de Estado a origem mais elevada da pressão que é necessário exercer de modo a tentar acelerar ao máximo a chegada a resultados policiais e judiciais. A última frase da citação é à prova de estúpidos, ou assim pensaria quem mais nada soubesse do que se passou a seguir. A seguir, talvez apenas minutos depois, já o Expresso lançava na sua edição digital uma notícia (não uma opinião, atente-se) onde se dava conta de um inventado conflito entre o primeiro-ministro e o Presidente da República à conta de mais uma banal e redundante declaração acerca de Tancos. O Público fez o mesmo e ainda pior. E uma legião de políticos patéticos e patetas comentadores não mais pararam de fustigar Costa por causa do que se quis que ele tivesse dito, não do que realmente disse como quis dizer.

É muita estupidez junta, há muito tempo. E é o contexto de fundo para o momento em que alguém mostrou uma atitude não só razoável como absolutamente sana face à epidemia de imbecilidade. Essa pessoa chama-se Francisca Van Dunem, é mulher, etiópica, nasceu em Luanda e a sua reacção no Parlamento prova que a virilidade não tem género: “Sei zero!” Ministra da Justiça irrita-se com o caso de Tancos

5 thoughts on “Tancos, um assalto à inteligência”

  1. Antigamente bastava um cabo e seis praças e sem qualquer curso especial para guardar paios e os mesmos nao eram assaltados,,,,,,,,,Triste pais com a tropa que tem.

  2. Valupi, tens toda a razão, o tratamento que a CS deu a este episódio ilustra bem como a democracia está mal servida pelo jornalismo ou , hipotese tão “absurda” quanto não ter havido “roubo” em Tancos, como o jornalismo serve bem interesses que não está ao serviço da democracia.

    O jornalismo nunca explorou a “hipotese absurda” que o MD colocou em cima da mesa, e não lhe faltava matéria para isso ( veja-se o que publicou Vasco Lourenço , entre outros ). Da mesma forma que nunca esclareceu como lhe chegou tão prontamente a noticia do “roubo” ou de como a lista do material “roubado” apareceu tão prontamente publicada em periódico espanhol. Também nunca se questionou se é prática corrente que se façam memorandos de operações militares clandestinas para entregar de bandeja ao poder civil a possibilidade de fazer “cativos” os seus autores. Ou seja, não me espantaria se um destes dias se viesse a perceber que o que houve aqui foi uma tentativa de golpe de estado com a cumplicidade de jornalismo dito de referência. Há por aí uma direita capaz disso e de muito mais.

  3. Antigamente,no tempo doce dos fascistas,tudo estava rigorosamente vigiado. Cercas inteiras,rondas constantes, cães fascistas ,de guarda,eficientes, estrategicamente colocados em Tancos, lá mantinham uma segurança total !!!
    Numa noite, num só golpe, destruíram,nos hangares de Tancos, 13 (treze) aviões e helicópteros, Nesse ano de 1973 ninguém foi detido,sequer como suspeito,e nada foi encontrado nos paúis da Chamusca nem em zonas secas ou húmidas deste nosso país.
    Relembra-se o glorioso facto histórico para que a extrema direita saiba que o sonho que mantém de eficiência antiga é mais um logro, como outros em que ainda acredita.

  4. Era eu miúdo e morava em Tancos e um vizinho certo dia para gozar comigo disse-me perguntando: Então pá, fostes às putas? Eu? A partir dali fiquei marcado, Cheio de medo do meu pai bem protestava até que acabei por levar uma sova sem qualquer explicação e com vergonha nem lhe perguntei porque me batia.

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