Serviço público

«Numa sentença conhecida esta semana, o Tribunal Cível de Lisboa dá como provado que diretores não dirigem e que notícias, títulos e manchetes são "opinião", podendo ser "teorias da conspiração" sem por isso merecerem sanção.

"Insinuam, deixam antever, dizem saber mas, ao cabo e ao resto, não dizem o que sabem. (...) As notícias colam títulos com realidades, nomes com casos, numa quase word salad [salada de palavras], pensamentos desorganizados, pontas soltas, em que muito mais do que dizer se sugere, se dá a entender, no fundo, ao cabo e ao resto, que onde há fumo há fogo, que alguma coisa há, que umas realidades e outras estão todas conexas, que é tudo muito grave, que há muito dinheiro envolvido, que é mais do mesmo, que os políticos são corruptos, que os interesses estão todos conexos numa trama invisível e etc., etc., etc."

Destas notícias, assim, "fica apenas uma amálgama (...), uma autêntica teoria da conspiração em que o Correio da Manhã sabe, não há dúvidas. Os hiatos temporais, os saltos lógicos, são de tal ordem e feitio que não se alcança o que sabe e sobre o que é que o Correio da Manhã não tem dúvidas. Os factos aproveitáveis são desgarrados e não seguem qualquer cronologia".

É assim que uma sentença datada de 3 de dezembro, do Tribunal Cível de Lisboa, assinada pelo juiz 8, descreve várias notícias, títulos e manchetes do diário aludido, respeitantes ao Processo Vistos Gold e publicadas em 2014 e 2015.

Poucas vezes se terá lido uma caracterização tão arrasadora do que nos produtos mediáticos da Cofina passa por jornalismo, mesmo se alguém munido de literacia e decência mínimas não pode deixar de concordar. É a conclusão que o tribunal tira dessa descrição que verdadeiramente espanta.

[...]

Sim, acabaram de ler isto: um tribunal considera que notícias e títulos de notícias são "opiniões". E como opiniões que são, nos termos da jurisprudência do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, que a sentença cita, "não se prestam a demonstração de veracidade". Dentro desta lógica, cabe perguntar por que raio a notícia "Miguel Macedo detido" não pode ser uma opinião. Lá porque é mentira, não é razão para não haver quem acredite ser verdade.»


O jornalismo como “insinuação” e “teoria da conspiração”

2 thoughts on “Serviço público”

  1. Ah e se a cofina tiver porblemas em pagar os 40 mil, que não se preocupe, pelos vistos mais cedo ou mais tarde o contribuinte ajuda. Certo Marcelo?

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.