Serviço público

Em que crê uma igreja que abusa de crianças?

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ADENDA

Não consigo precisar qual a data em que primeiro dei atenção às notícias dos abusos sexuais cometidos por membros do clero ou em instituições da Igreja Católica e a ela ligadas. Aponto para os anos 80, mas poderá ter sido no começo dos 90. O que interessa é isto: o assunto está há décadas no espaço mediático e só temos visto crescer o volume das denúncias ao longo do tempo sem que do Vaticano tenham vindo soluções, sequer explicações.

Tal como a Fernanda Câncio também questiona, podemos multiplicar por 10 (por 100 ou 1000? mais?) cada caso que se conhece se quisermos calcular toscamente o tamanho do icebergue. O estigma e as pressões serão tantas que, especialmente no caso dos abusos cometidos por homens sobre rapazes jovens e crianças, é inevitável existir uma quantidade gigante de crimes e episódios que não foram nem nunca serão relatados. Sabemos que eles existem, porém, porque é logicamente estatístico esse resultado perante as amostras registadas em diferentes países.

Acontece que este fenómeno não se limita à dimensão criminal e de saúde onde primeiro temos de colocá-lo para acudir às vítimas, há também nele uma fascinante problemática moral e teológica – podemos até ir mais longe e falar numa radical contradição espiritual. O título do artigo aponta precisamente para aí, e é com esse repto que termina: como é que os crentes conciliam o edifício mitológico e moralista onde encontram a sua identidade com o conhecimento de uma realidade que, no código que utilizam para darem sentido ao seu mundo, lhes terá de aparecer como substancialmente diabólica? Se Deus deixa os sacerdotes católicos destruírem os fiéis mais inocentes utilizando os templos e os objectos ungidos para o culto, não será isso uma evidência de que a Igreja Católica se tornou num utensílio do Diabo?

Do Vaticano não temos uma leitura antropológica da sexualidade onde estes crimes pudessem começar a ser inseridos como manifestações naturais. E não temos porque o Vaticano exibe dois milénios de perversões cognitivas e morais sobre a sexualidade, o que explica a resposta totalmente ineficaz da instituição ao longo das décadas e dos séculos perante os abusos de poder e o incomensurável sofrimento que geraram em indivíduos e grupos humanos. Pelo que só há uma conclusão: se estes casos que se conhecem são escandalosos, o escândalo da irresponsabilidade das cúpulas dirigentes da Igreja Católica ainda nem sequer começou. Precisam de fazer um concílio exclusivamente dedicado aos seus pecados contra a sexualidade e, portanto, contra a natureza humana.

20 thoughts on “Serviço público”

  1. na mesma coisa em que crê um sistema partidário democrático onde se somam incontáveis casos de corrupção ?? e dos quais vemos só a pont do iceberg ?

    (os muçulmanos , nas madrassas, estão carregados de casos iguais)

    São os homens, Senhor , são os homens, que as freiras não fazem nada disso :) :)

  2. A tentativa de colar comportamentos censuráveis, praticados individualmente, a toda uma instituição, seja abusos sexuais, no caso da Igreja Católica, a corrupção, em relação a determinados partidos, ou mesmo a desonestidade com que alguns tentam caracterizar a participação activa na vida política, faz parte do catálogo de filhadeputices mediáticas que ameaçam a salubridade democrática do Estado de Direito moderno. Ao que tudo indica, é veneno que veio para ficar. Dói um bocado observar a falta de perspicácia dos lugares onde nos habituamos a encontrar espada erguida contra estas vigarices, só porque, neste caso, atende aos seus preconceitos mesquinhos e traumas jacobinos.

  3. sendo que na Igreja a coisa tem fácil solução , é acabar com o celibato dos sacerdotes , já no sistema político a cena é bem mais difícil .

  4. uma hipótese é, assim que nos reformarmos , entramos nos partidos , participação politica activa, e cumprimos o nosso papel de velhos, desestabilizamos o status quo por dentro.

  5. yo
    Pedofilia não tem nada que ver com casamento, nem com homossexualidade.
    Conheci imensos padres com a sua “paroquiana de estimação”, umas públicas e assumidas e até com filhos, outras mais ou menos clandestinas.
    Pedofilia é uma doença, e de difícil tratamento.
    O pedófilo activo deve ser punido e tratado.
    Interessante seria saber a prevalência da pedofilia na ICAR e na sociedade em geral.
    Esse estudo, por razões óbvias, seria muito difícil de efectuar.

    No caso da ICAR o que foi grave foi o encobrimento que a instituição fez dos padres pedófilos, ao longo dos tempos.

  6. concordo. acontece q nos casos dos padres poucos devem ser pedófilos , é mais uma questão de oportunidade , o que vem “a rede é peixe , uma coisa como os homens na prisão.

  7. “concordo. acontece q nos casos dos padres poucos devem ser pedófilos , é mais uma questão de oportunidade , o que vem “a rede é peixe , uma coisa como os homens na prisão.”

    1 – concordas ponto para logo a seguir discordares e exemplificares que não percebeste puto do que o gajo disse.
    2 – como é que sabes se são poucos ou muitos, contaste-os? e o qual é o critério de adjectivação?
    3 – portanto a pedofilia é uma questão de oportunidade piscatória de homens prisioneiros, o que prova que não fazes a mínima ideia do que é pedofilia, mas não te inibes de botar asneira sobre o assumpto.

    se fosses para o caralho com as tuas opiniões de merda era uma boa ideia e a malta aqui da caixa pagava-te o bilhete de ida.

  8. ok , cromo. concordo com o que duarte disse sobre pedófilos , mas não acredito que todos esses padres, mesmo abusando de crianças, sejam pedófilos , serão violadores ( tal e qual como o al capone q te apanhou no duche na prisa e q pensou q dada a tua vulnerabilidade não ias bufar) q se aproveitam de matéria prima fácil .

  9. e quem não percebe pevide de sexualidade masculina es tu , q serás frígido , suponho. por que razão as prostitutas têm um papel fundamental na prevenção de crimes de natureza sexual, oh cromo me too ?

  10. Não sei se há mais pedófilos na Igreja católica do que nas outras religiões organizadas ou do que entre os ateus, os agnósticos ou os benfiquistas. Mas quando foi do caso Casa Pia, ouvi um democrata cristão, um tal Telmo Correia, a defender que a Igreja é que sabe tratar das crianças, não o Estado. Tá-se a ver, não tá-se? Essas e outras presunções hipócritas é que chateiam. Depois, desencadeiam infalivelmente certos comentários generalizadores e primários.
    Antes, a expressão ‘cultura de morte’ era usada contra quem não segue as normas de vida católicas, mas agora o papa usou-a para visar esses comportamentos de uma parte do clero. E o frei Bento já há 50 anos que fala da Igreja pecadora…

  11. como é que os crentes conciliam o edifício mitológico e moralista onde encontram a sua identidade com o conhecimento de uma realidade que, no código que utilizam para darem sentido ao seu mundo, lhes terá de aparecer como substancialmente diabólica?

    Esta frase é a maior demonstração de ignorância quanto à doutrina da Igreja e de imaturidade intelectual
    Um padre já respondeu a isso com propriedade:
    https://observador.pt/opiniao/os-novos-cataros/

    (para perceber a crónica é necessária alguma plasticidade mental, o que duvido que aconteça por estas bandas)

    Tudo o resto são espirros anti-clericais próprios dos descendentes do mais horroroso período anti-clerical que se viveu neste país.

  12. Pinto: o padre Portocarrero diz no Observador que a Igreja é um “hospital de campanha para todos os pecadores” e não um “condomínio fechado para almas selectas”.

    É bonito, mas não responde à pergunta clara do Val, antes a ilude.

    A Igreja, na linguagem tradicional, tem pastores e ovelhas, assim como os hospitais têm médicos e enfermeiros para tratar dos pacientes. A argumentação do padre Portocarrero assenta toda nessa dualidade, reveladora, aliás, duma concepção eclesial que o último Concílio tentou destronar. Ora o problema enunciado aqui no post não se refere à situação de as ovelhas admitidas no redil católico poderem ser mais ou menos pecadoras — mais ou menos carteiristas, para usar a imagem do padre Portocarrero. Refere-se, sim, à situação de os pastores (ou médicos) fazerem o mal, em vez do bem, às ovelhas (ou pacientes).

  13. “…mas não acredito que todos esses padres, mesmo abusando de crianças, sejam pedófilos…”

    abuso de menores só é pedofilia para “quem não percebe pevide de sexualidade masculina”.

    Nunca te foram ao cu,
    nem nas perninhas, aposto!
    Mas um homem como tu,
    lavadinho, todo nu, gosto!

    Sem ter pentelho nenhum,
    com certeza, não desgosto,
    até gosto!
    Mas… gosto mais de fedelhos.
    Vou-lhes ao cu
    dou-lhes conselhos,
    enfim… gosto!

  14. é , o manuel pastor alivia-se nas ovelhas , não por ser o que há à mão , mas sim por ser um zoofilo perdido, coitado, só se excita com as lãs das ovelhinhas, mulheres nem vê-las.

  15. e a maria mongoloide também é violada por deficientefilicos, tipos que só se excitam com deficiências mentais, não por ser incapaz de se defender , de perceber o que se passa e de o denunciar.

  16. Refere-se, sim, à situação de os pastores (ou médicos) fazerem o mal, em vez do bem, às ovelhas (ou pacientes)

    Júlio, tal como os médicos também necessitam de assistência médica, também os padres necessitam muitas vezes, eles próprios, da assistência do “hospital de campanha”. Ou seja, também eles são pecadores.
    O padre Portocarrero, em parte alguma, faz a separação entre padres e restantes católicos. Pelo contrário, termina a crónica desta forma “Eu, pelo contrário, nunca poderia pertencer a uma Igreja que não recebesse pecadores como eu.”. E cita Santo Agostinho: “Tomemos cuidado em não deixarmos entrar no nosso coração pensamentos presunçosos em não procurarmos destacar-nos dos pecadores, para não nos sujarmos com o seu contacto, em não tentarmos formar como que um rebanho de discípulos puros e santos.

    E é de resto esta a matriz axiológica da doutrina cristã. Jesus de Nazaré não escolheu puros e imaculados para o seu lado. Escolheu assassinos, adúlteras, agiotas. Pedro negou Jesus três vezes. E o que fez Jesus? Afastou-o e escolheu João? Não. Jesus ressuscitado foi ter com ele e pediu-lhe para cuidar das suas ovelhas (João 21:15-17).

    Há padres que abusam de menores? Obviamente que há. Há padres que roubam? Obviamente que há. O que abomino é esta generalização dissimulada (veja o título da crónica do DN). É querer fazer passar a ideia de que em cada padre há um abusador em potência.
    Eu não sei se há muitos ou poucos casos. Sei que a maior parte dos “escândalos” resultam de conclusões de relatórios e de estudos. Relatórios e estudos? Mas é assim que se conclui que existiram crimes? É que eu pensei que fosse nos tribunais. E se tomarmos os resultados saídos dos tribunais vemos que o que se passa nos padres, passa-se nos professores e em muitas outras profissões. Aliás, curioso é que o maior processo de pedofilia que passou pelos nossos tribunais (e um dos maiores processos a nível mundial) não envolveu um único padre. Envolveu políticos, envolveu apresentadores de televisão, mas não envolveu padres. E sabe o que é mais engraçado? É que este blogue era dos que mais se indignava com a não presunção de inocência por parte da população (como se a população tivesse de balizar as suas opiniões a esse princípio jurídico). Este blogue e esta senhora que escreveu a crónica eram as pessoas que mais recordavam essa presunção – mesmo depois de alguns já estarem constituídos arguidos e mesmo preventivamente atrás das grades – e agora são as que tomam as “conclusões” de um relatório como se de uma sentença transitada em julgado se tratasse.

  17. Não são todos? Pois não! Mas qual tem sido, ao longo dos tempos, a atitude de toda a hierarquia dos que não são ou parecem não ser? Calarem, fingirem que não sabem ou pedirem desculpa, e pouco mais. Enfim, continuem a chamar-lhes, Dom isto e Dom aquilo, a beijar-lhes o anel, e a confessarem-lhes os pecadilhos, continuem. E a continuarem a acreditar num Ente que a tudo assiste impávido e sereno.

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