Se não podem tapar as sarjetas, distribuam máscaras

O PS é o principal partido do regime, que o mesmo é dizer da democracia portuguesa, e tem um vasto espectro de militantes e simpatizantes, representando com fidelidade o País na sua diversidade e unidade. Contudo, é de uma acabrunhante inércia no que respeita à produção intelectual que sirva para alimentar, desenvolver e remodelar o espaço público. O lançamento do “Laboratório de Ideias”, e vamos esquecer a ofensa de Seguro ao partido ao ter querido entregá-lo a Carrilho, é uma iniciativa ensimesmada, uma desculpa para as células partidárias fazerem mais do mesmo: nada que o cidadão veja.

Um líder socialista interessado em ganhar eleições – ou, pelo menos, em ajudar o próximo líder – estaria neste momento à espera de receber com carácter de urgência um estudo a respeito da manipulação dos órgãos de comunicação social a favor das estratégias e agendas da direita. Esse foi um dos principais factores que explicaram o desfecho tanto das eleições presidenciais como das legislativas em 2011. E constantemente testemunhamos quão obscenos conseguem ser os jornalistas que diariamente produzem peças ao serviço de interesses políticos determinados. O que se passa, nem que fosse só para servir a estudantes universitários, merece mais do que um estudo académico.

Estrela Serrano é das raras personalidades públicas que vem registando e desmontando o forrobodó reinante. Exemplo mais recente: Como certos jornalistas, “magistrados e investigadores” contribuem para a desinformação dos cidadãos mais desprevenidos. Repare-se que o problema não está nos estilos sensacionalista e tabloidista, absolutamente legítimos como oferta no mercado, mas na sistematização do ataque a uma força política e, por inerência e evidência, na defesa de outras.

O Diário de Notícias, pertencendo ao mesmo Grupo e tendo um director que veio do CM, segue uma linha editorial similar, apenas se distinguindo na sofisticação e decoro (mas pouco) por imperativo psicográfico do seu público. Veja-se este exemplo: Políticas de Sócrates levaram país à quase bancarrota. A singela notícia regista perto de 800 comentários, o que será o dobro de todos os comentários recolhidos por todas as notícias do especial BPN (não contei, mas reclamo o direito à hipérbole). Porquê tanta animação? Porque esta notícia tinha os ingredientes “Sócrates”, “bancarrota” e ocupou o destaque principal da edição digital durante umas 12 ou mais horas. E que tem lá dentro? Algo equivalente a dizer-se que os dinossauros levaram o planeta Terra a embater num asteróide há 65 milhões de anos. A notícia vive do título e é apenas o título. Por isso foi escolha editorial, não com o objectivo de informar mas com o fito de propagandear. O DN, tal como o Público do Zé Manel ou a SIC e outros órgãos, é um instrumento ao serviço de uma agenda política partidária indelével.

No lado do PS não existe nenhum, nem um, órgão de comunicação que represente o seu ideário, muito menos que infecte o espaço público com esta cultura da calúnia onde a direita portuguesa, mas também a extrema-esquerda, rebola e chafurda sem parar. Muito provavelmente, seria impossível ao PS ser conivente com tal prática por colidir com as convicções mais profundas dos seus fundadores, dirigentes, militantes e simpatizantes. Mas isso não é razão, bem ao contrário, para deixar as sarjetas a céu aberto continuarem sem oposição a tornar pestilento o ar que se respira na cidade.

12 thoughts on “Se não podem tapar as sarjetas, distribuam máscaras”

  1. Muito certo. E o DN em linha é bem pior do que o DN em papel.
    Ah, e parabéns pelo título. Excelente.

  2. Pois! Muito bem! E como é urgente esse estudo!
    Mas não será que o estado de coisas convém a um frágil Seguro que, não se podendo afirmar no cotejo com o anterior líder, beneficia da sua sistemática destruição por esses esgotos a céu aberto?
    É claro que fica a perder a qualidade da democracia num dos seus mais essenciais pilares, mas isso interessa realmente ao tal vasto espectro de militantes e simpatizantes que escolheram e aceitam um tão inchado e vazio líder (não se questionando sequer sobre a penosa distância a que ele se coloca de um qualquer dos anteriores líderes, em termos intelectuais e políticos, por mais que se possa discordar das respetivas orientações)?

  3. o problema chama-se sócrates, do seguro ao cavaco, passando pelo geróminos e louceiros do nosso descontentamento, todos receiam o futuro do HOMEM que se mantém calado desde que saiu do governo. os jornalecos e as têvês são o espelho dessas frustrações e aquilo que eram crimes do socras são hoje prática corrente nas relações do governo com a oposição. ora vejam lá se o cavacóide já reclamou falta informação do ministro das finanças ou se o houve alguma loção de censura.

  4. Leia-se a primeira página da edição digital do DN de hoje com um título “Lucros da Caixa caíram 90% num ano … Governo do PS”, o que leva qualquer mortal a estabelecer uma ligação entre as perdas da CGD e o Governo do PS. No entanto, quando se “abre” a notícia percebe-se que, afinal, se trata de duas notícias (cuja junção também só pode ser entendida no quadro de manipulação, já que se trata de 2 assuntos distintos), uma relativa às perdas da Caixa e outra referente ao alegado plano do Governo do PS de ter querido transformar a BPN numa nova CGD.

  5. A verdade é que a comunicação social – quer jornais, quer tv, quer rádio – continuam a fingir que têm um espectro diversificado de sensibilidades politico-partidárias. Todos conhecemos os exemplos em todos eles. Mas há uns que descaradamente falham até nessa tentativa de fachada.
    Refiro-me, p. ex., à rubrica “Contraditório” da Antena 1, às 6ªs feiras , depois das noticias das 19H ! É um espanto! Ele é um Raúl Vaz – que já declarou expressamente a sua preferência pelo PSD (o que não precisava, dado o cariz acintoso do seu discurso., Ele é um Luis Delgado que todos sabemos qual o seu perfil de opinião (embora no seu enquadramento no grupo até apareça quase como um “soft social-democrata). Ele é uma Inês Serra Lopes, directora do jornal “I”, que – espante-se, se diz de esquerda (!), mas cujos comentários vão sempre na linha da actual maioria parlamentar. Ah, e depois temos o jornalista-coordenador – João Barreiros – que é a cereja no topo do bolo – segue a corrente do grupo, acentuando a parcialidade do discurso dos três comparsas. É uma diversão ouvir tais análises da situação no país e “lá fora”…!!! Onde é que está o contraditório disto??

    Será que não há investidores que ousem – a palavra justa é mesmo esta – ousem criar um instrumento de comunicação independente, digamos, tipo “New York Times”, ou mesmo, tipo “The Guardian”, para sairmos do charco em que a informação pública chafurda?!?

  6. Pois é Val, e mesmo tu que podias dar uma ajuda, passas a vida a atacar a esquerda que ainda vamos tendo, em vez de te concentrares no que é mais importante.

  7. oh dédé! a esquerda que referes é responsável pela direita que governa, ou já esquecestes as moções de censura e dos chumbos pecaminosos que nos levaram para a merda onde flutuamos.

  8. Está bem, Dédé, mas nunca é de mais lembrar que foi essa esquerda que entregou o país a estes “senhores”, na ganância de aproveitar os cacos de um PS desfeito. Tens de concordar que custa muito a engolir, sobretudo depois de estarmos a sofrer todos os dias o que significou a imolação do PS no altar da Direita mais bolorenta de que há memória neste país. Nem Salazar foi tão sacana e disto estou cada vez mais convencido, depois da vergonha das secretas.

  9. O cerne da questão é a liderança actual do PS.
    Seguro é um político muito fraco que passou a vida nas trincheiras do PS e só assomava a cabeça de fora nos períodos de trégua. Seguro não tem capacidade para liderar o PS e isso é uma evidência que só não vê quem não quer.
    Desde o primeiro momento defendi que Seguro iria enterrar o PS com a sua sede de vingança relativamente ao Sócrates. Não assumir o passado, não defender o tributo do PS para o desenvolvimento do país, deixar-se enredar voluntariamente pela falácia de que o culpado de todos os males foi o governo anterior, não foi um tiro no pé, foi um tiro no corpo todo.
    Esta direcção do PS pensou que bastaria lavar as mãos como Pilatos para que toda a gante visse Seguro como alternativa e isso é uma idiotice política além de demonstrar a falta de carácter do actual líder socialista.
    Acresce o facto, tão ou mais importante, que devido a esta escolha o PS foi, é e continuará a ser gozado por uma direita abjecta e que não olha a meios para conseguir os seus fins.
    Tivesse a direcção do PS tido a coragem para defender o seu património e hoje não estaríamos a assistir a este espectáculo degradante que é o secretário geral do PS amuar cada vez que o seu amigo passos o ignora.

  10. Dédé, para além do que já te disseram, só acrescento que é altamente provável que discordemos a respeito do que seja e valha a “esquerda que ainda vamos tendo”.

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