Recordando o socialista que fundou o PSD

O plano da direita partidária era tão fácil de realizar que até os próprios o entendiam com facilidade. Encher a comunicação social de atiradores ao carácter de Sócrates e populistas de diverso calibre. Atacar os socialistas quando estes promoviam o investimento público. Atacar os socialistas quando estes promoviam a redução das despesas do Estado. Atacar os socialistas quando estes conseguiam a diminuição da pobreza e a modernização da economia. Atacar os socialistas quando estes chegavam a acordo com a Europa para evitar um resgate financeiro de emergência. Apostar na política da terra queimada. Mentir, mentir e mentir na campanha eleitoral. Tomar o poder e começar de imediato a empobrecer o País sem outro critério que não fosse o dos interesses da oligarquia. Lançar leis à maluca para ver se passavam no Tribunal Constitucional com o à-vontade com que passavam no Parlamento e na Presidência. Não passando, acusar o Tribunal Constitucional e a Constituição de serem forças de bloqueio. Repetir a dose até serem obrigados a largar o poder.

Não parece o plano mais inteligente do mundo. Talvez por estarmos perante um plano de estúpidos e para estúpidos. A literatura na imprensa e na blogosfera revela que o denominador comum dos apoiantes do Governo reside nisso de conceberem o Estado como se fosse a empresa do pai. E que fariam eles para salvar a empresa do pai? Despediam, cortavam salários e passavam a cobrar aos empregados a utilização da casa-de-banho. É tão simples que eles, pejados de razão e amor filial, até ficam à beira de um ataque de nervos quando ouvem os outros, aqueles que não são filhos do senhor seu pai, a falarem do Estado como sendo uma comunidade regida por um contrato social fundador e inserida num sistema económico com um bocadinho-inho-inho mais de complexidade do que a tal empresa paterna e sua caixa registadora.

Ora, esta direita partidária não esgota o tecido da direita portuguesa. Com outros protagonistas, outras teriam sido as decisões, outra teria sido a História. Por exemplo, em Março de 2011 um outro líder do PSD que igualmente se assumisse liberal poderia ter negociado com Sócrates a viabilização do PEC IV a troco de alterações constitucionais imediatas. Caso o PS as aceitasse, todos sairiam a ganhar – e, por “todos”, entenda-se todos os portugueses, pois se teria evitado a presente humilhação que coarcta a democracia e violenta a população, ao mesmo tempo que o regime teria ficado reforçado por mais uma alteração ao texto constitucional saída da nossa soberania. Caso o PS as recusasse, não seria preciso ter o PSD a mentir de fio a pavio e os eleitores saberiam o que estaria realmente em causa quando fossem votar. Por outro lado, a aprovação do PEC IV em nada impediria que o PSD chumbasse o Orçamento para 2012 e provocasse aí as desejadas eleições. Ou até que deixasse os socialistas levarem a legislatura até ao seu natural ou demissionário fim. Neste cenário alternativo, o PSD apareceria inequivocamente como uma força política responsável e patriótica. E podemos, apesar do enorme esforço, encontrar nomes para preencher a fantasia.

O que nos traz a memória de Sá Carneiro. Com esta figura, não teríamos apenas o aproveitamento da situação política em Março de 2011 para fazer avançar reformas que considerasse decisivas para o nosso futuro comum. Muito provavelmente, Sá Carneiro teria logo aproveitado a situação saída das eleições de Setembro de 2009 para propor uma solução governativa que nos tivesse protegido da destruição levada a cabo pela oposição durante a vigência do Governo socialista minoritário.

Donde vem esta minha retrospectiva convicção? Das suas palavras:

Se se limita a concepção de liberalismo ao campo exclusivamente económico e se tem como liberal aquele que preconiza a abstenção do poder político em relação ao campo económico e ao campo social, nesse sentido não sou liberal.

15-12-1971, (Entrevista dada à “República”)

Um Estado não se governa como uma empresa, e as leis não podem ser encaradas como ordens de serviço por melhores que sejam.

15-06-1971, (Entrevista dada ao Jornal “O Tempo”)

No Governo só deve ficar quem estiver, efectivamente, com o Governo e com o cumprimento do seu programa. De outra maneira é impossível governar.

18-11-1975, (Capítulo II – Entrevista a A Capital)

32 thoughts on “Recordando o socialista que fundou o PSD”

  1. ei lá! adoro quando vais ao baú e fazes mixórdias bem boas.:-)

    paradoxalmente isso que Sá Carneiro diz enquadra-se com perfeição na base, matriz de maturidade, daquilo que é governar uma empresa. e tenho a certeza que ele terá lido Crosby – só a partir da certeza há caminho no progresso.

  2. Estas mesmo a dizer que, se os lideres do PSD não fossem tanços, teriam obtido facilmente do PS o que eles sempre quiseram, ou seja uma revisão constitucional que tirasse da lei fundamental o principio de igualdade perante a lei e a proibição dos despedimentos por justa causa, e que o PS teria feito bem em aceitar isso a troco de permanecer no poder ?

    Foda-se…

  3. o primeiro grande parágrafo não existia, joão viegas. e os objectivos progressistas que este governo tem traçado, plenamente ambiciosos e, por isso, exequíveis e concretizáveis talvez a mais de 3650 dias e em sonhos selvagens também não. haveria austeridade de qualidade planeada.

  4. É bom lembrar que Sá Carneiro sempre tentou que o seu PPD entrasse para o clube da Internacional Socialista e que foi Mário Soares quem boicotou essa pretensão. Está tudo no célebre livro do Rui Mateus (Contos Proibidos) e nào vale a pena reescrever a história, com meia-dúzia de frases tiradas do contexto, como faz o Valupi. Isto não faz de Sá Carneiro um socialista, mas mostra como Soares manipulava a IS. Um pouco de honestidade intelectual, já agora…

  5. Bem me parecia, Olinda,

    Mas mudar a constituição por mudar a constituição, ja agora, eu substituia também as eleições por uma call for tender para escolher o partido mais capaz de pôr a execução um programa de “austeridade planeada” e, de caminho, proibia também a existência de partidos politicos que se reclamam da esquerda despesista.

    Por falar nisso, porque é que o Seguro não propõe ao governo actual uma revisão constitucional nos moldes acima descritos. A seguir, o mais certo seria o PS ganhar a call for tender. Isso é que era ter visão, não era ?

    So mesmo neste blogue…

    Boas

  6. Olinda,

    Quem usou o epíteto “socialista”foi o Valupi, não fui eu. O seu a seu dono. Pessoalmente nunca considerei Sá Carneiro um socialista (na tradição “trabalhista” do termo, como Willy Brandt, Olaf Palme, ou Joop Den Uyl, entre outros). De resto, o “estado providencia” já vem da República de Weimar (como saberás) e não consta que fosse uma iniciativa “socialista”.

  7. Mas que salgalhada de post.

    É melhor eu desistir de entender,

    É demais para a minha pobre cabecinha!

    É informação a mais.

  8. ó joão viegas devemos ler com os olhos, não do que já sabemos que vamos escrever, de quem vai descobrir o que dizem os textos.

    eu sei que foi o Valupi que disse. e que bem, rui mota. olha lá, costumas olhar para os rótulos para veres a composição das coisas ou ficas-te pelo nome comercial cujo fundamento do produto passa completamente ao lado?

  9. o sá carneiro foi um bailarino, da estatura do minimendes, que metia baixa nos momentos complicados e virou mito por causa de um cessna que pegava de empurrão. que a direita viva de efabulações históricas e mitificação de grandes líderes, percebe-se por falta de valores morais e humanos, mas poupem a dose a quem tem memória e pago estes devaneios dos mesmos-filhos-da-puta-de-sempre que ora vendem ou compram swaps.

  10. um azeiteiro desce à capital, deslumbra-se com a política, abre falência, engata uma sueca e vai viver para casa dela, claro que não cumpre os mínimos para aderir à is.

  11. Olinda,

    Leio sempre os rótulos, mas não confundo as marcas. Que o Valupi considere o defunto presidente do PPD um “socialista”, por oposição ao actual PSD, é a sua opinião. Também há quem considere Mário Soares um “socialista” e eu considero-o um aldrabão. So what?

  12. joão viegas, continuas com as tuas proverbias dificuldades de leitura.
    __

    rui mota, o epíteto “socialista” aplicado a Sá Carneiro, que se assumia como liberal, é irónico. No entanto, ele abertamente equiparou a social-democracia com o socialismo democrático.
    __

    Rural, tens de te ficar pelo consumo do Correio da Manhã ou do Pato Donald, para não cansares a cansada cachimónia.

  13. Democrata? A principio, muito pouco. Social-democrata? Duvido, os que havia no PPD foram para a ASDI, em choque ideológico e depois para o PS. Fui um deles.

    ENTREVISTA DADA À «REPÚBLICA» EM 15-12-971. CONDUZIDA POR JAIME GAMA (EXTRACTOS)
    República: A primeira pergunta que lhe queria fazer corresponde a uma questão posta por várias pessoas – é um liberal?
    Sá Carneiro: Se se entende por liberal todo aquele que acha indispensável que qualquer solução política respeite as liberdades e os direitos fundamentais da pessoa humana, sou efectivamente um liberal. Se, por outro lado, se limita a concepção de liberalismo ao campo exclusivamente económico e se tem como liberal aquele que preconiza a abstenção do poder político em relação ao campo económico e ao campo social, nesse sentido não sou liberal.
    Rep.: Disse que não era adepto de partidos de tipo confessional e que tinha grande simpatia pelos partidos sociais democratas. Ora, em Portugal, o socialismo democrático tem sido representado pela corrente política cuja figura preponderante é o advogado Mário Soares. Há entre si e essa corrente política alguma forma de aproximação?
    S. C: Não, neste momento não há nenhuma forma de aproximação. De resto, o Dr. Mário Soares e eu nunca nos encontrámos. Conheço do seu programa e da sua acção aquilo que veio à tona nas últimas eleições. Mas efectivamente não há qualquer aproximação.
    Rep.: Se lhe fosse dada oportunidade para votar a autorização do livre funcionamento de partidos políticos em Portugal, qual seria a sua posição, nomeadamente em relação à legalização do chamado Partido Comunista Português?
    S. C: Não creio que neste momento pudesse ser legalizado o Partido Comunista Português. Acho indispensável que previamente se fizesse um esclarecimento da situação, das actuações, das linhas de cada uma das correntes políticas. Que se começasse por associações de carácter não especificamente partidário; portanto esse problema só viria a pôr-se muito mais tarde. Não sei se o chamado P.C.P. estaria em condições de mais tarde ser admitido como partido político. Tudo dependeria do funcionamento gradual das instituições. E das posições de tal partido.
    Rep.: E em relação a outros partidos políticos?
    S. C: Não iria, para já, para o funcionamento imediato dos partidos políticos. Iria começar por uma tentativa de acção política, de liberdade de expressão, de liberdade de reunião, de associação de carácter político, para depois estudar, em face da evolução da situação, um estatuto dos partidos políticos.?
    ENTREVISTA DADA À «REPÚBLICA» EM 15-12-971. CONDUZIDA POR JAIME GAMA (EXTRACTOS)

    “em Novembro de 1977, Sá Carneiro vê-se obrigado pelas «elites» do partido, ao tempo chefiadas pelo professor da Faculdade de Direito de Lisboa António de Sousa Franco, a uma retirada estratégica e à demissão da liderança.

    No V Congresso, realizado em Janeiro de 1978, Sousa Franco é eleito presidente do PSD. Dias antes, numa entrevista à comunicação social, dividira o partido em duas tendências: a «ala rural», conservadora e direitista, obviamente liderada por Sá Carneiro, e a «ala urbana», verdadeiramente social-democrata, urbana, letrada, esclarecida e, obviamente, liderada por ele mesmo.”

    Tirado daqui: http://www.vidaslusofonas.pt/sa_carneiro.htm
    e daqui : http://portugalcontemporaneo.blogspot.pt/2007/08/as-elites-do-psd.html

  14. “Caso o PS as aceitasse, todos sairiam a ganhar – e, por “todos”, entenda-se todos os portugueses, pois se teria evitado a presente humilhação que coarcta a democracia e violenta a população, ao mesmo tempo que o regime teria ficado reforçado por mais uma alteração ao texto constitucional saída da nossa soberania.”

  15. O Carneiro não é mais que um dom sebastião de saltos altos. É celebrado não por aquilo que fez, mas por aquilo que havia de fazer, se não tivesse morrido.

  16. sa´carneiro,não era socialista nem social democrata,mas como andava borrado de medo até o socialismo defendeu em determinadas alturas.tenho memoria!

  17. O único pensamento político de Sá Carneiro que, se concretizou prende-se com
    a necessidade da maioria na A.R. e de um P.R. da mesma cor aliás, foi perseguindo
    esse objectivo que morreu, ao voar para o Porto em apoio do seu candidato presidencial!
    Pelo que se tem passado nestes dois últimos anos, bem se pode ver quanto errado
    era o princípio que, está em vias de nos colocar nos anos do pós guerra do século
    passado … chama-se a isto o progresso regressivo do desenvolvimento!!!

  18. A propósito de mais este excelente post de Valupi ocorreu-me deixar aqui esta deliciosa “parábola” que há dias um amigo me enviou e que deve andar por aí a passear na NET.

    “Enquanto suturava um ferimento na mão do Prof. Adriano Moreira, golpe causado por um caco de vidro indevidamente deitado no lixo, o médico e o paciente começaram a conversar sobre o país, o governo e, fatalmente, sobre o Passos Coelho.
    O Professor disse:
    – Bom, o senhor sabe… o Passos Coelho é como uma tartaruga em cima do poste…
    Sem saber o que o Adriano Moreira quis dizer, o médico perguntou o que significava uma tartaruga num poste.
    O professor respondeu:
    – É quando o senhor vai seguindo por uma estrada, vê um poste e lá em cima tem uma tartaruga a tentar equilibrar-se. Isso é uma tartaruga num poste”.

    Perante a cara de interrogação do médico, o velho professor acrescentou:

    Você não entende como é que ela chegou lá;
    Você não acredita que ela esteja lá;
    Você sabe que ela não subiu para lá sozinha;
    Você sabe que ela não deveria nem poderia estar lá;
    Você sabe que ela não vai fazer absolutamente nada enquanto estiver lá;
    Você não entende porque a colocaram lá;
    Então tudo o que temos a fazer é ajudá-la a descer de lá, e providenciar para que nunca mais suba, pois lá em cima, definitivamente, não é o lugar dela.”

    Como se vê, vem a deliciosa história atribuida ao Professor Adriano Moreira. A Isabel Moreira, melhor do que ninguém, poderá apurar disso a autenticidade.

    De qualquer forma e porque isso vem na linha das ideias expressas por Valupi, queria dizer que Adriano Moreira é, com Roberto Carneiro, Lucas Pires, Sá Carneiro e alguns outros, é daqueles homens da Direita que sempre me habituei a respeitar. Eles fazem parte da Direita das Ideias em oposição à Direita dos Interesses e do Dinheiro que infelizmente é a que tem predominado no nosso país e tem o seu expoente máximo na escória política que neste momento usa em seu proveito o poder que os portugueses desgraçadamente lhe entregaram.

  19. o socialista, que fundou o psd foi socrates e mais nenhum.em castelo branco ou na covilhã.depois pirou-se, antes que fosse atacado pelo “direitovirus”

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.