Quarta-feira de cinzas

Acabou o carnaval em S. Bento. Segue-se a quaresma cavaquista. A maior vergonha, no episódio da falta de quórum na Assembleia da República, ainda não está à vista. Vamos ter de esperar uns dias. Virá dos chefes dos partidos centrais, Sócrates e Marques Mendes. O que eles não serão capazes de assumir fechará um ciclo. Será o apogeu da decadência partidária, a fulguração suprema da vexante cultura política portuguesa.

119 deputados, por razões diversas, tinham coisas mais importantes para fazer do que estar a votar propostas do Governo relativas a espaços marítimos e a indemnizações a vítimas da criminalidade, entre outras trivialidades. Podemos até supor que a grande maioria dos faltosos estaria tão concentrada nos espaços marítimos que se antecipou à votação e partiu para o terreno. Os políticos preferem estar no terreno, é sabido, especialmente quando ele fica situado em frente aos tais espaços marítimos. Mas a viandante decisão destes impacientes deputados também conseguiu, num golpe de génio, abarcar a temática das indemnizações às vítimas da criminalidade. É que estamos perante um caso em que as vítimas da criminalidade parlamentar atingem dez milhões de indivíduos, o que só acrescenta relevância à proposta que ficou por votar.

A Assembleia esconde um laboratório para a investigação da esquizofrenia. O seu Regulamento impõe ao deputado a participação nas votações; já de si, este um dever patológico quando aplicado a pessoas que foram eleitas, e são pagas, para isso mesmo. Porém, o Estatuto dos Deputados considera que toda e qualquer razão é válida para faltar às votações. Nuno Melo, líder parlamentar do CDS-PP, deu-nos um exemplo paradigmático: a propósito de dois dos seus cinco deputados desaparecidos em combate, disse que se ausentaram para actividades que ele, Nuno Melo, considerou importantes. E assim arrumou a questão com um argumento que alia a beleza da simplicidade com o delírio de grandeza.

A dimensão veramente fascinante na ocorrência é do foro manual. Mãos esquerdas e direitas assinaram folhas de presença. Concluído o exercício caligráfico, enfiaram-se nos bolsos ou pegaram em sacos com toalhas de praia, e ala que se faz tarde. Os nomes inscritos foram deixados ao abandono, privados da dignidade que só as cabeças lhes poderiam garantir. A questão que agora temos de resolver é a seguinte: que fazer com esses nomes que levaram com os pés? Como já não representam os seus outrora legítimos proprietários, entretanto rebaptizados na igreja das Sinecuras e Prebendas, tornaram-se nomes inúteis. Devem ser apagados.

6 thoughts on “Quarta-feira de cinzas”

  1. Disciplina? Bah. Respeito? Oh! Exigência? Shhh! Não são virtudes portuguesas. E importa mantermo-nos puros e autênticos. Não é? Por isso, facilita, relaxa, meu. Assinemos o ponto, tiremos férias, fechemos o País.

    Ou há ainda alguém que diz Não?

  2. Pois e’ Valupi. Quebrou o ciclo de criticas aos ” partidos de esquerda” (no qual nao inclui o PS) ou sera’ que nao? E’ que a analisar bem as coisas faltaram ‘a votacao:

    Dois tercos dos deputados do PSD
    Metade dos deputados do CDS-PP
    Um terco dos do PS
    2 deputados do PCP (1 sexto)
    1 deputado do BE (1 oitavo)
    zero deputados dos verdes

    Portanto parece que a esquerda partidaria (a ” verdadeira” , que nao inclui o PS, nao e’?) se poupou deste vexame. Mas esquece-se de referir isto.

  3. Tuga

    Antes de mais, informo que tinhas um comentário bloqueado no post “Preto no branco” por excesso de links (um critério automático para evitarmos spam). Só me apercebi hoje e já foi desbloqueado.

    Quanto ao que dizes aqui, nada tenho para te dizer. Tu já o deixaste dito.

  4. «parece que a esquerda partidaria (a ” verdadeira” , que nao inclui o PS, nao e’?) se poupou deste vexame»
    Caro Tuga: obrigado pela sua estatistica dos faltosos (onde a encontrou?) mas não concordo com a sua desculpabilização.
    Entao tb havia 1 do BE…

  5. O senhor Fernando tem razão. Eu hoje estive de banco e dormi a noite toda. Ganhei para as mini-férias e os outros que se lixem. Tem uma ferida profunda? Dói muito? Eu quero é dormir. Estratégia: tem de ir primeiro fazer exames complementares, raio-x para começar. Três horas de espera. Depois um TA, etc., até ser manhã e acabar o meu truno. Rica vida!

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