Presunção de inteligência

Presumo que Nuno Ramos de Almeida seja uma das pessoas em Portugal que mais e melhor informação reuniu acerca do caso Freeport, se excluirmos os implicados e os investigadores do Ministério Público, obviamente. Esse conhecimento resulta de trabalhar na TVI como jornalista, por um lado, e, por outro, de ter interesse em que o maior número possível de figuras relacionadas com o PS seja envolvido no caso, de preferência acabando todos acusados e considerados culpados, com Sócrates à cabeça do pelotão. É ele que partilha publicamente esta duplicidade, onde se alia a profissão e o combate político. E não tem mal algum ser assim, os jornalistas são cidadãos, podem respeitar uma deontologia e manterem intacta uma ideologia, uma crença, uma opinião. Tal como é apanágio de qualquer outro profissional, aqui deixo o zelo esclarecedor. Entretanto, para uma parte dos eleitores, o caso Freeport é um dos factores mais importantes para a decisão de voto, pelas suas associações negativas. Se existirem indícios de crime, ou mera ilegalidade, que tenha ligação com Sócrates ou algum outro ministro ou secretário de Estado socialista, a penalização nas urnas será brutal. E a investigação nem precisaria de estar fechada a 27 de Setembro para condicionar os resultados eleitorais, bastaria a notícia de que responsáveis governativos ao tempo tinham sido constituídos arguidos. Aliás, bastaria a notícia da proximidade desse desfecho, até a notícia da sua probabilidade. Estamos de acordo quanto à inevitabilidade destas consequências, não estamos?


Então, temos a perfeita consciência da magnitude do que está em jogo, o qual pode afectar a distribuição do poder político em Portugal para a próxima legislatura, e ainda para as eleições autárquicas. Por exemplo, Sócrates poderia ser constituído arguido nos próximos dias ou semanas, e nesse estatuto levar o PS a perder as eleições. Mais tarde, a investigação poderia concluir pela ausência de provas para o acusar. Ainda mais: a investigação poderia ilibá-lo sem margem para dúvidas. Neste exemplo, alguém, ou algo, teria penalizado perversamente um partido por causa da morosidade e calendário de um processo judicial. Seria esta eventual injustiça um cenário que incomodasse o Nuno? Talvez, mas estaremos a falar do mesmo incómodo que uma folha de papel com tinta causaria ao avanço de um tanque IS-3. Pelo menos, a avaliar pelo que escreveu: Mostrar serviço.

O que ele diz é escabroso. Atente-se:

A doutora Cândida Almeida tem se desdobrado em comunicados e notícias cirúrgicas para tentar fazer passar a ideia que a investigação do Freeport não vai investigar José Sócrates. Que a investigação do Freeeport já terminou e que não apurou nada. As suas prioridades estão invertidas, em vez de tutelar e dar força à investigação judicial, a sua maior preocupação parece ser de servir de assessora mirim do primeiro-ministro.

Aqui diz-se que Cândida Almeida poderá estar a obstruir a Justiça e a interferir politicamente a mando de Sócrates.

Para os anais, vão ficar a sua condução muito original do processo do diploma do primeiro-ministro e as várias declarações que produziu sobre o caso Freeport.

Aqui insinua-se que Cândida Almeida mostrou algum tipo de incompetência ou de irregularidades na investigação ao caso da licenciatura.

Infelizmente, para ela, a verdade é o que é.

Aqui afirma-se, à boca cheia, que Cândida Almeida é mentirosa ou cúmplice de mentiras.

Ninguém acredita que a investigação esteja terminada: há testemunhas novas para ouvir, por exemplo o ministro Silva Pereira, e não passa pela cabeça de ninguém, com mais de dois neurónios, que anteriores arguidos e testemunhas não sejam novamente ouvidos para aclarar contradições.

Aqui exibe-se um conhecimento interno da investigação, suficiente para antecipar uma sequência de eventos legalmente necessária.

Isto sem falar que se os documentos vindos do Reino Unido tiverem dados novos, poderá haver mais gente para ouvir.

Aqui alude-se a documentos que não são do conhecimento público quanto aos seus conteúdos.

Mas uma coisa é certa: até às eleições há gente que vai tentar sufocar a investigação num mar de conveniências.

Aqui, explicitamente, acusa-se de prevaricação os magistrados que superintendem a investigação, ou, quiçá, todo o Ministério Público.

O Nuno não é tímido no desenho conspirativo. Nestes meses longos, tem prometido futuras revelações que irão garantir-lhe a gargalhada final. Como o bandido do Sócrates continua à solta, temos de ter um bocadinho mais de paciência. E podemos aproveitar o pouco tempo que resta para perguntar: como é que se concilia, nesses que têm cabeças com mais de dois neurónios, a coexistência no mesmo órgão de procuradores que não admitem sequer certas conversas ao telefone com uma procuradora que admite corromper a Justiça mesmo na cara dos Nunos Ramos de Almeida deste e doutros mundos? Será que o sindicato do Ministério Público precisa de ajuda para meter a Cândida na choldra?

19 thoughts on “Presunção de inteligência”

  1. Esse Nuno é um bom pulha – ao mesmo tempo que basculhava às escondidas em tudo o que mexia, apenas e só com o propósito de construir “noticias” que pudessem tramar Sócrates, partilhava o blogue com a namorada daquele. Cuidado com esse Nuno: é traiçoeiro até dizer chega.

  2. um tipo pode achar o que quiser acerca do post. Pode achar que Ramos de Almeida tem material para andar com as notícias, pode achar que não tem. Tudo isso tem nuances que a alguns podem servir para o condenar deontologicamente e a outros que não.

    agora um comentário como o de Paulo Martins é do mais abjecto que enferma o carácter português (e olhe, é vasculhar e não basculhar). No fundo faz a defesa do amiguismo, do nepotismo e do compadrio.
    Não fazer o próprio trabalho porque se pode pôr a nu suspeitas sobre a actuação do namorado de uma “amiga” …
    lembra os que batem com a mão no peito contra a corrupção mas depois apreciam as práticas do estilo Opus Dei.

  3. Um lacrau tem tanto direito à existência como uma amiba. Não sei se foi um lacrau ou uma amiba que escreveu este post. Aliás, nem sei o que é um lacrau nem uma amiba. Existem?
    O que eu não sei mesmo é se o autor desta coisa chamada post tem direito à existência.
    Por mim não teria, nem resposta, nem nada.
    Estaria, nesse caso, a revelar toda a minha pobreza (e, eh pá, já fiz asneira).

  4. Paulo Martins, vasculhar (investigar?) é a missão do jornalista, não parece colidir com a participação num blogue colectivo seja com quem for.
    _

    Carlos Vidal, larga o vinho.

  5. Val,

    Deves andar metido no “Porta da Ravessa”. Larga essa coisa que te turva a mente
    e prova um honrado “Cabeça de Burro”.
    Eu não conheço nenhum dos comentadores, mas tenho Nuno Ramos de Almeida, no rol das pessoas sérias. Tens opinião diferente?
    Vamos lá dar pancada na velha, mas com toda a sobriedade do mundo.
    Vale, Val?

  6. a intolerância e a caça às bruxas não saem do código genético destes bloquistas por mais séculos que passem e por mais muros que caiam (nem que para isso se aliem à direita reaccionária). essa gente ainda vive no tempo dos julgamentos sumários onde a intolerância é a lei, por mais que encham a boca com a palavra liberdade.

  7. O tal de Nuno Ramos de Almeida é um tipo sério?
    E a doutora Cândida Almeida? É muito original diz-se…deveria utilizar a Forquilha do herege, para obrigar o Sócratates a confessar…
    Respondo: O tal de Nuno Ramos de Almeida é um tipo sério? Não mais que a Manuela Moura Guedes….

  8. Está-se sempre a fazer fogo para o alvo errado. Caem os muros, mas não viajam…
    Ficaram na Fonte Luminosa, mandem lá a brigada de perdidos e achados da PSP.

  9. Val,

    Daqui a pouco deixará de ser a família Moniz e será o Pina Moura. Quem é que passou este de padreca a cardeal? Com quem cresceu o Moniz?

  10. A questão não está em saber se há, ou não, material para andar com as notícias. Isso é óbvio para toda a gente que, no caso em apreço, há. A questão é outra, e de índole completamente diferente: trata-se da sacanice de usar um órgão de comunicação social, cuja licença foi atribuída por todos nós, para se defenderem interesses próprios e mover ataques personalizados. Ora, isto em parte nenhuma do mundo é jornalismo. Não são apenas questões deontológicas que aqui estão implícitas. È também a filhadaputice levada ao extremo.

    Mas não é só por Nuno de Almeida participar nessa tramóia que ele é um pulha. É que ao mesmo tempo que participava nesta trama, cujo único propósito era liquidar Sócrates, era também todo prazenteiro para a namorada deste. Não se trata de defender o amiguismo, o nepotismo e o compadrio. Trata-se, isso sim, de denunciar os traiçoeiros que se riem pela frente enquanto pregam uma rasteira por trás. No fundo trata-se denunciar os crápulas.

  11. assis, no caso do Vidal, estamos a falar de um comunista fanático. No caso do Nuno, de um comunista oscilante, passeia entre o BE e o PC.
    __

    jrrc, exacto: como é que se pode pôr em causa, com esta displicência, a honorabilidade de Cândida Almeida? É incrível.
    __

    M da Mata, estás um bocadinho baralhado. Primeiro, fazes perguntas interessantes. Depois, não respondes ao que te perguntam. E, pelo meio, foste passear à Fonte Luminosa. Vê lá isso, ainda te perdes.
    __

    Paulo Martins, quanto à relação entre o Nuno e Fernanda, se é a isso que fazes referência, não tenho nada para dizer. Nem sequer conheço a história, apenas sei do que veio a público aquando da cisão que deu origem ao Jugular. Creio que esse tipo de detalhe não foi tornado público, somente as indirectas.

    Quanto ao sentido do teu protesto, tomado abstractamente, não posso concordar mais.

  12. Val,

    Obrigado pelo troco. Comprei um GPS de boa marca e que me leva sempre aos sítios.
    Não estejas preocupado comigo.
    Como funciono com “cassettes”, a da Fonte Luminosa dá-me algum jeito. Deixa-me usá-la em paz e com proveito.

  13. por falar em chavez, que tristeza anda por lá, e promete piorar,

    esse vidal fez bem em aparecer, já não me lembrava que lá no fundo o pcp continua a admirar a estética das cabeças decepadas, as dos outros claro. Andava com dúvidas se poderia votar CDU, já se foram.

    não conheço o Ramos de Almeida para poder falar dele, mas sim, esses que se sabem vender e trair, são os que continuam a medrar, e a merdar.

    tenho que fixar é aquele ditado do Pacheco: «não sirvas a quem serviu, não peças a quem pediu», espero que seja assim.

  14. esta coisa da ideologia entranha-se. e depois não há nada que a despegue dos neurónios. sobretudo a esquerda radical /comunista: têm um conceito »moderno« de liberdade. das duas, meia de nada. ou vêem pelos olhos deles, ou não existem. não existem não. não deviam ter direito a existir.
    o avô cantigas era mais educativo.

    já podes acrescentar parola e pestilenta ao ranhosa e imbecil para caracterizar a oposição, val.

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