Poiares Maduro e a conversa de merda

A Lusa resume assim uma intervenção de Poiares Maduro. Trata-se de um relato que adulterará parte da intervenção, posto que corresponde à selecção do jornalista; logo, nascendo das suas preferências. Porém, presumindo que capta o essencial do discurso, o que temos é um microcosmo do que é o actual Governo e a direita que exerce o poder.

“Hoje vivemos um tempo que para muitos é de pessimismo e descrença no futuro. Que contrasta com o entusiasmo dos anos que precederam a crise financeira”, começou por dizer o ministro, na ‘Grande Conferência JN’, no Porto, nesta segunda-feira, acrescentando que “a euforia em que vivemos era errada”, tal “como estão errados hoje os que se entregam ao pessimismo e à descrença”.

De que anos fala? Três anos antes? Trinta? E de que entusiasmo? E o entusiasmo é sinónimo de euforia? Mas de que euforia fala? E tudo isto, que não sabemos o que seja, estava errado segundo que critérios? Já agora, como explica Poiares Maduro a crise financeira? É obra dos gregos, irlandeses e portugueses que, com os seus endémicos baixos salários e loucura consumista, derrubaram as grandes economias mundiais?

“O pessimismo e a descrença actuais participam do mesmo problema da euforia passada: um desencontro com a realidade, que só pode distorcer a forma como olhamos para o futuro, talvez prejudicando-o”, sustentou Miguel Poiares Maduro.

De que pessimismo fala? Descrença em quê, de quem? Se alguém é despedido, ou vê o seu negócio ir à falência, se alguém deixa de conseguir pagar as suas despesas de saúde, já para não falar de roupa, transportes e bens de lazer, ou mesmo a comida suficiente para uma alimentação minimamente saudável, esse alguém passa então para o grupo dos pessimistas e descrentes que deixaram de se encontrar com a realidade? Mas qual realidade? É Poiares Maduro quem define o que é a realidade para os cidadãos portugueses? Se sim, que Poiares Maduro se dirija aos desempregados, pobres e miseráveis e lhes diga o que devem fazer para evitarem a tal distorção do seu olhar sobre o futuro, esse tal olhar que ameaça prejudicar o futuro que Poiares Maduro contempla tranquilo, confortável, seguro.

Para o ministro, “se o optimismo descuidado dos anos que precederam a crise não tinha razão de ser e foi mesmo pernicioso (…), o mesmo se pode dizer do pessimismo de hoje”.

Presumimos que Poiares Maduro terá ao tempo alertado os agentes políticos para o problema do “optimismo descuidado”. Simetricamente, talvez o problema actual se defina nos seus neurónios como sendo uma questão de “pessimismo descuidado”. Indubitavelmente, este homem exibe-se como um grande psicólogo do cuidado. Cuidado com ele, muito cuidadinho.

Poiares Maduro apelou ao debate “com base nos factos, antes de os substituir por supostos argumentos”, defendendo haver “razão para acreditar no futuro”, uma vez que “muito já foi feito”.

Os factos, bem lembrado. Mas pessimamente recordado. Onde estão eles? Basta um, ou até metade de um. Já quanto a “supostos argumentos” é uma festa, um maná. Olha-se para uma qualquer citação do que disse e lá estão eles, encavalitados uns nos outros. Por exemplo, admitindo que “muito já foi feito” pode ser considerado como um facto, e que nisso que foi feito temos a sucessão de falhas orçamentais, violações da Constituição e agravamento de todas as metas acordadas no Memorando levando Portugal para a maior crise social e económica depois do 25 de Abril, então é deveras um facto que a única razão para acreditar no futuro consiste na esperança de que este Governo seja substituído o mais cedo possível.

“Negá-lo (…) é desencontrarmo-nos outra vez com o presente e perder uma vez mais de vista o futuro, é miopia de sinal contrário à euforia injustificada do passado”, criticou.

A miopia impedirá a visão do futuro, posto que o futuro está distante, ao longe. Isto faz sentido. Pode afectar tanto os actuais pessimistas como os antigos optimistas, ambos a falharem o encontro com esse presente imóvel de que nos fala Poiares Maduro sem um frémito de dúvida. Essa confiança, porém, também se explica opticamente: trata-se de um agudo caso de presbiopia. Como Poiares Maduro não faz ideia do que esteja a acontecer mesmo à frente dos seus olhos, compensa recorrendo à imaginação. Na sua imaginação, o presente é lindo e está prenhe de futuro. Um futuro que vai nascer gordinho, risonho e com a sua cara chapada.

Para o governante, é necessário também melhorar a “cultura política” e a qualidade do espaço público, sublinhando que há que “discutir mais políticas públicas e menos táctica política” e que o Governo deve “contribuir para um debate público mais informado e com maior substância”.

Ora cá está, finalmente um governante com a coragem para morigerar a classe política. E a sua generosidade é tão grande que ele se entrega voluntariamente em sacrifício. Sendo um rematado especialista em táctica política como as suas próprias palavras comprovam, e sendo incapaz de introduzir substância no debate público, Poiares Maduro exorta a sociedade a não seguir o seu exemplo. Será quanto baste para melhorar a cultura política. E isso em questão de minutos.

Poiares Maduro defendeu também que “nenhum actor político responsável pode excluir a procura de consenso, sob pena de eliminar uma dimensão fundamental da política”.

O consenso é uma dimensão fundamental da política. Lapidar evidência para regimes democráticos e Estados de direito. Haja, pois, quem pergunte ao Poiares Maduro se aprova o boicote sistemático ao consenso que, desde Setembro de 2009 até Março de 2011, arrastou Portugal para a desgraça actual.

3 thoughts on “Poiares Maduro e a conversa de merda”

  1. Pois.

    Algo de estranho e de incongruente acontece quando este rapaz Maduro aparece na fente dos púlpitos mediáticos para perorar. É que o rapaz não é de cá, não compreende o mundo para onde se deixou seduzir. O que ele diz, nem para ele é capaz de fazer muito sentido.

    O homem foi escolhido apenas para comprazimento de alguma ganga comentadora e jornalística que lhe incensou o admirável curriculo e, quiçá, o génio.

    E o que acrescentam estes génios académicos à política? 0,00

  2. parece-me que o poiares foi um pretexto para a dissertação , brilhante, aliás, do Valupi. Não é o poiares que merece, são os leitores do aspirina e os leitores dos leitores do aspirina. Nunca é demais, embora por vezes pareça cansativo, desmontar a boçalidade política que tomou conta do país. Nunca é demais, até porque não é prática corrente.

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