Perguntas simples – Edição especial

«Livro de recitações

“Há mais políticos com contratos permanentes nos media do que lugares na maior bancada parlamentar da Assembleia da República”
Rosa Pedroso Lima, in Expresso, 2/3/2019

Estes números confirmam a existência de uma nova classe que, na linguagem dos seus detractores, é a classe político-mediática. Evidentemente, ela também supõe a reversibilidade: a classe mediático-política. Quando já não houver mais nada para além da lei deste hífen, teremos atingido um estado homogéneo que se configura como uma nova versão do fim da História, isto é, do fim da política e do fim do jornalismo. O processo não se deu por invasão, mas por hospitalidade, o que o tornou mais sereno e eficaz. A pouco e pouco, os media transformaram-se em rampas de lançamento para políticos voadores, ou em estâncias de retiro para engordar reformas e cultivar prestígios de políticos opulentos. O espaço público mediático povoado por uma tagarelice política que funciona em circuito fechado, eis o nosso destino. A esta classe hifenizada devemos fazer a pergunta: quem são os políticos e quem são os jornalistas?»


António Guerreiro

8 thoughts on “Perguntas simples – Edição especial”

  1. A pergunta”quem são os políticos quem são os jornalistas” é meramente retorica, a indistinção já existente faz cair o hífen (ou o himen, a suposta castidade que só é mantida pela rigida separação). A pergunta , neste caso, surge depois da resposta.

  2. Não sei se ha indiferenciação entre politicos e jornalistas em Portugal, ou se não ha.

    O que sei é que tal so pode suceder se o publico, portanto se os cidadãos, se nos, formos suficientemente burros e imaturos para confundir opinadores com pessoas que têm uma verdadeira responsabilidade politica. Tal não me espanta num pais onde a posição de um inutil que manda bocas no café (ou nos jornais) sem nunca ter mexido uma palha nem ter contribuido para a construção de um projecto ou de uma iniciativa concreta – os pulidos valentes, os pachecos pereira, os boaventuras sousa santos e tantos outros – é mais invejavel e tem mais prestigio, do que a posição de quem exerce verdadeiras responsabilidades com consequências. Um pais onde um ministro, se não tem o curso superior que acredita as suas bocas no café central, sera visto para todo o sempre como um labrego. Um pais onde quem esta encostado à parede a dizer como é que se faz, tera sempre prevalência sobre quem tem a experiência concreta de fazer.

    Se as coisas não fossem assim, então teriamos provavelmente mais exigência, mesmo para com os jornalistas, a quem pediriamos informações e não bojardas. Logo, o problema não assumiria as dimensões que parecem amedrontar os autores da peça.

    Boas

  3. Além da mistura entre políticos e jornalistas, há também a mistura entre o jornalista que dá notícias e o “jornalista” que emite opiniões.
    No passado, a função dos jornais era dar notícias, dar a conhecer factos. Hoje em dia, grande parte do volume dos jornais está ocupada por opiniões, comentários.

  4. “No passado, a função dos jornais era dar notícias, dar a conhecer factos.”

    qual passado? do lápis azul e do palácio foz? dass ké burro e reaça.

  5. Que parvoice. Por muitas discordâncias que eu tenha com o Luis Lavoura, o que ele diz neste caso parece-me completamente acertado : a confusão politico/opinador tem a mesma raiz do que a confusão opinador/jornalista. Um publico com cultura civica, sentido critico e capacidade de pensar pela propria cabeça sabe hierarquizar. A primeira coisa que se pede a um jornal é que informe, que dê conhecimento em relação a factos. Pode depois ser interessante confrontar opiniões sobre factos, ou mesmo ler opiniões que alertem para factos menos conhecidos ou menos evidentes. No entanto isto é secundario e quem confunde opinião e informação esta, em rigor, à procura no jornal de quem pense por ele, uma variante do circo que nada tem a ver com informação.

    Por isso as declarações fracturantes no estilo das do post parecem-me sempre uma forma idiota de cuspir para o ar.

    Boas

  6. A análise que o texto faz é independente da qualidade do que é produzido e consumido, isso é só consequência, e não me parece que a tarefa prioritária de quem consome seja “descubra as diferenças”, para isso existem os reguladores, que nunca atuam. O produto só é mau porque se perdeu a adversativa entre a politica e o jornalismo e é essa adversativa distintiva, e não a simbiose, a amalgama, que sustenta os dois poderes.
    A sobre-representatividade dos políticos e do futebol representa também uma absolutização em torno do trabalho, uma visão quase totalitária da vida, com um fim meramente produtivo.

  7. A pergunta de António Guerreiro não tem razão de ser. Todos temos uma atitude política, como todos temos uma atitude religiosa, como todos temos uma atitude gastronómica, por exemplo. São dimensões onde não existe um branco padrão. Em vez de reprimi-las, o desejável é promover a sua expressão plural e contraditória, seja mais como jornalista investigativo, opinador ou, numa postura mais nobre, oferecendo o corpo às balas, nas urnas. O que é batota é tentar diminuir os adversários atribuindo-lhes menos independencia ou isenção. Ou até dizer que são os outros que fazem aquilo que os próprios praticam como, por exemplo, os inimigos de Sócrates que ocuparam o palco mediático alegando que ele queria controlar o palco mediático.

  8. O que se passa no panorama mediatipolitico português é totalmente anomalo, não acontece em mais lugar nenhum. A isto não será estranho o facto de termos sido Berlusconizados há muito tempo, ainda hoje Balsemão tem presença no Conselho de Estado, porquê? Vejamos também a nova direcçao da RTP, a MFlor Pedroso (que espero não tenha nada a ver familiarmente com a Rosa Pedroso Lima estamos a falar da area com maior consanguinidade e amiguismo do pais) não se sentiu confortável sem chamar para a coadjuvar duas jornalistas, representantes da Impresa e do sector económico, as 3 irmãs ( por senelhança com as 7 irmãs petroliferas) que representam o cartel do poder politicomediatico. A partidarização da vida publica vê-se por todo o lado, com quem negoceia o governo na concertação social?ora com os mesmos partidos que estão na AR com mascaras de sindicatos ou associações. A dupla representatividade (com quotas e tudo !) dos partidos por tudo o que mexe e onde haja um.lugarzinho à espera conduzirá inevitavelmente à saturação por parte do eleitorado. Uma forma de aceitação desta deformidade é a transformação da politica num jogo ludico e passivo onde ao espetador (não so no sentido mediatico) é-lhe dado a escolher num tabuleiro entre brancas e pretas, esquerda e direita e depois desenvolver raciocínios mimetizados e fornecidos pelo comentariato nacional. Só começamos a fazer politica quando questionarmos o tabuleiro.

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