Para as pessoas que não lidam muito com estas matérias

Marques Mendes já era um importante militante do PSD aos 18 anos de idade, quando exerceu o cargo de secretário do Governador Civil de Braga nos idos de 1975. Filho de um advogado fundador do PSD e presidente da Câmara Municipal de Fafe, o primogénito iria nos 44 anos seguintes provar que merecia usufruir dos privilégios dinásticos. No Cavaquistão foi peça do núcleo duro partidário e governativo, chegou a presidente do PSD em 2005 e foi mantendo ao longo das décadas uma feérica actividade como advogado e administrador de várias empresas. Para o que segue importa fixar o seguinte: o actual Presidente da República escolheu-o para o Conselho do Estado – isto é, Marques Mendes representa no Conselho de Estado os interesses de Marcelo Rebelo de Sousa.

No passado domingo, no seu comentário na SIC, Marques Mendes lançou no espaço público as seguintes declarações:

"Eu não dou muita importância [às violações do segredo de justiça] porque isso é aos pontapés"
– “Já se percebeu que há uma guerra entre este juiz [Carlos Alexandre] e o primeiro-ministro e, portanto, não vale a pena perder... isso é uma questão lateral
– “Há coisas muito estranhas aqui [no caso de Tancos]... Não é do ponto vista criminal, é do ponto de vista político
– “Veja bem, três exemplos para as pessoas perceberem rapidamente: [seguem-se três exercícios de cavilações]
– “Toda a gente no País sabia [do duvidoso "memorando"], menos o Governo
– “E a certa altura viemos a saber o quê? Que Azeredo Lopes acha tudo normal porque vê muitos filmes policiais. Veja bem, é o que lá 'tá dito [em supostas transcrições do interrogatório de Carlos Alexandre a Azeredo Lopes]... e achou qualquer coisa normal porque vê muitos filmes de televisão
– “Veja bem, como é que num assunto gravíssimo, que podia ser de segurança nacional, das coisas mais graves que aconteceram em Portugal, o Governo não tratou de esclarecer coisíssima nenhuma... tratou isto como uma novela policial, veja bem
– “Para as pessoas que não lidam muito com estas matérias [directiva sobre poderes das chefias no MP], e que podem até achar que é uma questão muito jurídica, que não interessa nada, expliquemos rapidamente. O que está em causa, no essencial, é isto: é saber se a ordem de um superior hierárquico a um procurador no Ministério Público deve estar escrita no processo ou não. E isto ressuscita - para as pessoas perceberem a importância disto - o fantasma das ingerências políticas nas investigações.
– “Vi-o [António Ventinhas] a dizer «Isto é o fim do Ministério Público democrático, é um atentado à democracia»... são afirmações algo demagógicas...
– “E, finalmente, insisto no que disse há bocadinho, suscita, justa ou injustamente, o fantasma das ingerências políticas em processos judiciais. Sobretudo nos processos mais delicados. Aí onde Joana Marques Vidal, a anterior procuradora-geral da República, criou, de facto, as condições para haver maior independência, e, agora, levanta-se este novo fantasma.
– “Se a actual procuradora-geral da República, eu acho que se não resolver isto rapidamente, eu acho que ela corre o sério risco de sair chamuscada do processo

Recapitulando, e com “três exemplos para as pessoas perceberem rapidamente”:

– Marques Mendes está-se a cagar para a actividade criminosa da violação do segredo de justiça.
– Marques Mendes caga d’alto na “guerra” que um certo juiz alimenta contra um certo primeiro-ministro.
– Marques Mendes espalha merda da grossa para cima dos magistrados, do PS e da República.

Este peralvilho que se baloiça desasado no poleiro mediático do militante nº1 do PSD seria o mais feroz dos indignados com os crimes de violação do segredo de justiça caso eles visassem preferencial e sistematicamente a sua área política ou as suas relações profissionais e pessoais. Como as vítimas são na sua enorme maioria da sua principal concorrência eleitoral e fáctica, como os crimes cometidos por agentes da Justiça foram e são fundamentais para a estratégia da calúnia e da judicialização da política contra o PS, ele está feliz da vida.

Este passarão do sistema partidário e político desde o final dos anos 70 estaria em pé de guerra caso um juiz, um juiz qualquer badameco sem carência de ser uma vedeta do poderosíssimo Tribunal Central de Instrução Criminal e do populismo justiceiro, abrisse um qualquer tipo de conflito com um primeiro-ministro laranja. Sairia a terreiro armado com grandiloquentes sermões acerca de Montesquieu e da teoria da separação de poderes no liberalismo democrático que não deixariam pedra sobre pedra na temeridade e reputação desse juiz.

Este Conselheiro de Estado, escolhido pelo Presidente da República para um órgão de consulta a respeito das mais criticamente graves questões nacionais, deleita-se na política-espectáculo a ameaçar a procuradora-geral da República, a atacar o Governo e o PS com chicana debochada, a achincalhar indecentemente um ex-ministro a partir da violação dos direitos e da dignidade de um cidadão, e a espalhar sórdidas e dementes teorias da conspiração em que um número indeterminado de magistrados (procuradores e juízes), a que se acrescentam todos os órgãos soberanos (da Assembleia da República aos conselhos superiores das magistraturas, e ainda os tribunais no seu todo, já para não falar de Cavaco Silva então Presidente da República), teriam sido cúmplices de dois indivíduos (Pinto Monteiro comandado por José Sócrates) para se cometerem espantosos crimes no Ministério Público sem que o próprio SMMP os tivesse conseguido denunciar às autoridades.

Estará Marques Mendes maluco? Nada disso. Ele apenas aproveita a vantagem da sua posição de poder, um poder que conseguiu ilegalmente espiar um primeiro-ministro em funções, e que irregularmente (quiçá também ilegalmente, a História o verificará) conseguiu o troféu supremo da prisão do inimigo mais temido, por isso mais odiado. Esse poder, Marques Mendes – em nome de Marcelo Rebelo de Sousa e do que ambos representam, estabelecem e influenciam no regime – não quer perder.

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Pedro Lains fez, há um ano, um interessante retrato deste pulha: Compreender Marques Mendes

8 thoughts on “Para as pessoas que não lidam muito com estas matérias”

  1. É sabido que, o criador de “factos” políticos e o comentador de tudo e mais
    alguma coisa, que foi o prof. M. R. de Sousa, hoje Presidente da República
    escolheu o Ganda Nóia para o Conselho de Estado, para o ter mais à mão e
    de algum modo, dizer aquilo que o Presidente pode pensar mas, não dizer!
    Por outro lado, um conselheiro goza de certas comodidades e imunidades
    que, os normais e profissionais comentadores não têm … lembram-se de
    um telefonema interceptado durante a “operação dos vistos gold” para
    uma “cunha” para alguém amigo ? Pois, foi facilmente “apagado” do proces-
    so ou melhor não chegou a entrar para o mesmo … nessa altura os procura-
    dores não tiveram a coragem e empenho dos actuais que até querem chegar
    ao topo da hierarquia do Estado … só para fazer umas perguntas!!!

  2. Uma coisa sei: há peralvilhos cujos nomes têm surgido frequentemente (mas acredito que inadvertidamente) em várias das gloriosas mega-“investigações” paridas nos últimos dez ou 15 anos, e não apenas no “telefonema interceptado durante a operação dos vistos gold”. Umas vezes ligados a uma qualquer agremiação de advogados (a que pertenceram mas obviamente já deixaram de pertencer ou estão em vias disso) que representa interesses económicos assim e assado rebeubéu pardais ao ninho; outras como administradores, sócios ou accionistas (que já foram mas obviamente já deixaram de ser, ou em vias disso estão) de empresas especializadas em negócios de pardais sem ninho, ou à procura de ninho, ou que caíram do ninho; outras ainda em ternurentas ligações de “amizade”, familiares ou afins a fenómenos de lana caprina como a multiplicação dos pães ou a transformação da água em vinho.

    Mas tudo isto “inadvertidamente”, sublinho, porque, embora haja quem não acredite em milagres, a verdade é que, tal como las brujas, cierto que los hay, coño! E o milagre a que então se assiste é o milagre da peneira. Em verdade vos digo que, ainda que a sabedoria popular garanta não ser possível tapar o Sol com uma peneira, a verdade é que tudo depende da peneira. Se uma peneira mais grosseira deixou (inadvertidamente) passar o nome da rameira, o que há a fazer, e rapidamente é feito, é substituí-la por outra, de malha mais fina, mais faceira, que deixe passar apenas os nomes que a boa gente pretende lançar para a fritadeira. Elementar… ou elementeira, como queira! Para quem descobrir se isto se aplica ao bitoque em apreço, o prémio é um penico de plástico… ou uma arrastadeira.

    Queridas massas populares, há chihuahuas com uma missão e Madame Impunidade dar-lhes-á rédea solta enquanto a cumprirem. Portantes, cumprem-na!

  3. Marques Mentes no Conselho de Estado, é? E a Manela Moira Guedes, não?
    Tudo tem limites, ó sô Marcelo…

  4. Caríssimo Duas Braças, não sei se andas por cá, ainda incógnito, ou foste matar saudades ao Mississípi, mas gostaria de te informar que o suplemento do Público de hoje fala de ti.

    Um abraço

  5. Obrigado, leal Camacho !
    Essa imprensa ordinária gosta de noticiar a minha morte!
    Tudo bem, mais os assusto,quando apareço .
    Um forte abraço.

  6. Amigo Duas Braças, o artigo até está bem feito, refere os teus trabalhos disponíveis em português e outros (ainda) não traduzidos, destaca o humor que usas como ferramenta, e não esquece o modo como alguma Amérdica do politicamente correcto burrificado e burrificante do presente tenta enterrar, sabe-se lá se um dia queimar, a América contraditória e estimulante que amas, descreves e te moldou a alma.

    Um abraço para ti também.

  7. Sempre a tentar conspurcar a conversa de quem apenas quer conversar, a carraça de merda! Ainda se afoga na mistura de fel e mijo em que chafurda o dia inteiro!

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