Os Republicanos, afinal, pensam como gajas

Durante 2,7 segundos parece uma escolha inteligente. Repeti a operação várias vezes, sempre com o mesmo resultado: 2,7 segundos. Nesse espaço de tempo, iões de sódio e de potássio agitam-se frenéticos criando belas imagens no meu córtex: vejo o aproveitamento da saída de cena de Hillary, indo lá buscar votos que hesitam em votar Obama, vejo a vantagem dos Republicanos em serem capazes de surpreender e de aparecerem como modernos (até ousados) para um público urbano carente de mudança, e vejo a elevação da condição feminina junto de uma sociologia apoiante conservadora e com largas bolsas arcaicas. Só que ainda estão por inventar os 2,7 segundos que durem 2,8 segundos ou mais, acabando aqueles por acabar. Segue-se uma plácida constatação: os estrategas Republicanos, afinal, pensam como as gajas — são oportunistas e superficiais. Não sabendo o que fazer para vencer Obama, resolveram juntar-se a ele. Viram a oportunidade para um brilharete mediático, finalmente!, com a escolha de uma fêmea, e foi aí que deixaram de pensar. Se a política é apenas mais uma forma de espectáculo, nisto estamos todos de acordo: não poderia haver nada mais espectacular do que ir buscar uma mulher sem os mínimos de experiência política para a função e, como se não bastasse, aparecer coberta de alvos fáceis, muitos. Sarah Palin, para além de não fazer a menor ideia do que implica o cargo para que está a concorrer, tem defendido ideias sobre armas, aborto, mulheres, exploração de petróleo em reservas naturais e ensino do criacionismo nas escolas que deixariam Ronald Reagan corado. Mas mesmo que ela não fosse uma caricatura ambulante da piroseira americana, e tivesse algum mérito digno de atenção, as hillaryanas jamais votariam numa ex-miss que conseguiu chegar a Governadora. Porque há limites para o que uma mulher considera ser justo nesta vida.

Não só esta senhora não vai conseguir retirar votos a Obama, como irá levar à perda de votos para McCain. A eleição terminou.

26 thoughts on “Os Republicanos, afinal, pensam como gajas”

  1. Eu que sou de esquerda, português, e que se fosse americano só votaria Ron Paul, começo a achar que esta “menina” podia ser a candidata Republicana (à presidência) nas próximas eleições que eu arranjava uma naturalização até lá, só para poder votar nela…

  2. “Não só esta senhora não vai conseguir retirar votos a Obama, como irá levar à perda de votos para McCain. A eleição terminou.” Pois…

  3. Valupi,

    Terminas bem, não digas mais nada, entendo, compreendo, na Europa é muito melhor, muito mais velha e de civilizada nem me fales.. Com a Merkel, Sócrates, e o Zapata aqui mesmo ao nosso lado.

    Para facilitares, também poderias ter dito que nos EUA, existem as duas seguintes possibilidades: ou ganha o neocon do Kenia, com um confessado sionista cristão escolhido para vice-presidente (surprise, surprise), ou ou ganha o do Panamá, com uma senhora pro-vida com um rancho (de filhos) muito conhecida no Alaska. No campo das escandaleiras mutualmente cancelatórias – por isso ausentes das páginas dos órgãos de discussão e alimentação da maralha do Oeste Livre – a Barrack Obama nunca ninguém poderá, sem mentir, acusá-lo de se ter “esporrado” quando caiu nas mãos dos Norte Vietnamitas, porque o homem coitado ainda andava na primária quando tudo isso se passou. Por outro lado, seria infame acusar McCain de andar metido em drogas, e outros negócios menos claros, porque o senhor foi sempre um exemplar chefe de família.

    Claro que tudo isto das eleições americanas teria imensa graça se a graça não estivesse a perder o brilho imperialista bem puxado por uma indústria de cinema. O dólar de muletas também não ajuda nada. A China, com uma classe média aí duns 200 ou 300 milhões de privilegiados – para alem de criar muitas dores de cabeças a marxistas que não sabem o que é que hão-de fazer à puta da vida para explicarem o “fenómeno” aos raros neófitos que caiem na rede quando dobram uma esquina – não desiste de aumentar mensalmente a lista de coisas em que se vai tornando o maior produtor mundial. E, claro, o único decente dirigente político da Europa, Vladimir Putin, já nos disse que não vai em jugoslávias nem em georginas. Aos poucos vão-se acabando as graças. No plano interno e externo. No more John Waynes.

    A menos que os neocons e os seus titereiros na sombra arranjem uns pós de pirlimpimpim para porem a Humanidade a dormir dum dia para o outro, não estou a ver muito bem como é que eles se vão ver livres destes complicados assados. Continua porém a não ter graça saber que estes loucos aindas têm as mãos sobre os gatilhos da Democratura.

  4. As gajas que te respondam. Quanto ao resto, é o teu wishful thinking habitual. A escolha da mulher do Alaska é muito boa e acho que pode trazer votos preciosos a McCain, que parecia arrumado nas sondagens, excepto numa recente, mas já desmentida por outras.

    A candidatura de Obama teve medo de ir buscar uma mulher (não precisava de ser a Hillary) para fazer a dupla revolucionária. McCain foi inteligente, aproveitou o facto de nunca os democratas terem candidatado uma mulher. Que terias tu sugerido ao gajo, conselheiro Val?

  5. Apache, e fazes tu muito bem.
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    Paulo F. Silva, se é impressão tua, está em bom estado?
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    Wilson, pois, pois.
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    Z, tenho sempre razão, e nunca a razão toda.
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    SUBSTANTIA, as coisas nunca foram fáceis. Mas tu já devias ter esta lição bem estudada. Quando tiveres tempo, conta-nos um dos teus sonhos.
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    Nik, a escolha é muito boa? Sim, é muito boa, ou foi, mas não serve.

    Eu, como grande conselheiro do McCain, mandava escolher Kay Bailey Hutchison, se queriam mesmo uma mulher, ou Mitt Romney, o vice ideal. E por estes conselhos era menino para cobrar 10 milhões de dólares, só.
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    Primo, desastre completo. Só a total desorientação explica o fenómeno.

  6. “os estrategas Republicanos, afinal, pensam como as gajas — são oportunistas e superficiais.”
    Não sei que gajas é que o Valupi conhece, mas, pronto, o problema é seu.
    Um post tão bom no conteúdo se não fosse esta “ganda” nódoa… Não havia necessidade.

  7. Pronto, então se já nos tratamos por tu, eu tenho a dizer que acho me estás a puxar a perna, que é como quem diz, pulling my leg, para me enquadrar melhor na cena americana.
    Custa-me a aceitar que tu aches mesmo que “as gajas”, as in “TODAS as gajas” “são oportunistas e superficiais” a pensar.
    No entanto, está lá escrito: “os estrategas Republicanos, afinal, pensam como as gajas — são oportunistas e superficiais.”
    Resumindo: eu concordo plenamente contigo quando dizes que “os estrategas Republicanos (…) são oportunistas e superficiais.” agora que isso seja assim por eles pensarem “como as gajas”… Nódoa.

  8. Citadina, sempre nos tratámos por tu, posto que não recordo* o tratamento por você. Sim, começámos a tratar-nos não faz ainda 3 horas, mas isso só confirma a afirmação anterior. Creio também que este imbróglio pode ser apenas semântico. Afinal, o que é uma gaja?

    Quanto a senhoras, mulheres, raparigas, meninas e fêmeas sapiens sapiens em geral, nem todas são oportunistas e superficiais, concedo. Algumas nem oportunistas conseguem ser.

    * Por “não recordo” leia-se “já me esqueci”.

  9. Valupi, deixa lá isso, eu é que comecei com cerimónia a mais, para não ser acusada (again) de achar que lá por sermos todos bloggers já andámos na escola juntos.
    Eu também prefiro o tratamento à espanhola, mas como a maioria dos portugueses com um nível académico acima da escolaridade obrigatória é um bocado parola e fica muito ofendida se faltar o/a Sr(a). Dr(a). no início das perguntas que lhe são feitas, pronto, lá comecei com o “você”.
    Não quero com isto dizer que te considero parte dessa maioria, desculpa lá a estatística em que te meti, o que eu não tenho é pachorra para desconstruções parvas e manobras de evasão, que eu conheço de cor e salteado o argumentário do Schopenhauer naquele livrinho fenomenal cujo título é “Como Vencer um Debate Sem Precisar de Ter Razão”.
    Na verdade estou muito contente por nos… não, por ME ter deixado de merdas, pelo menos no que respeita ao tratamento.
    No entanto, se tu não me vieste com as tais merdas no tratamento, não as evitaste depois nessa do “semântico” e do “o que é uma gaja?”.
    Não te safas, pá. Há aqui uma nódoa do caraças no teu post – e tu sabes bem – mas eu, como tua admiradora blogosférica de há muito tempo, embora, devo admitir, “fêmea sapiens sapiens” das tais que “nem oportunistas conseguem ser”, não vou deixar de te vir aqui ler por isso. E convenhamos, era uma excelente oportunidade.

  10. Lérias, Citadina. O Schopenhauer, para mais, era um misógino do pior – que pode saber esse animal da arte de discutir?

    Acontece que tu ainda não admitiste que o uso de “gaja”, e no contexto, pode ser sarcástico, irónico, retórico e/ou lúdico. E já avançaste demais na pseudo-mini-indignação para largar esse fardo onde as gajas se querem ver como vacas sagradas.

    Mas outra coisinha posso deixar: talvez não seja um acaso a teimosia da Igreja Católica com a proibição da ordenação das mulheres. É que o estrogénio tem razões que a razão sempre teve muita dificuldade em conhecer.

  11. Ah!Ah! Ah! Obrigada pela gargalhada que me provocou a tua resposta, veio descinzentar o meu dia de trabalho. “Vacas sagradas” foi muito engraçado!
    Eu sabia que tu também tinhas andado a ler o Shopenhauer, era óbvio.
    Mas olha, o que tu queres sei eu. Queres que eu me indigne com a pele de lobo que agora decidiste vestir, coroada por uma boçalidade forçada, e me esqueça que me equiparaste a um republicano americano.
    Desiste, tu não me enganas. Nem sequer “ameaçando-me” com a Igreja Católica. Por mais insultos que tentes fazer-me, não há nenhum tão bom como o primeiro.
    Eu estou-me a cagar se sou uma vaca, sagrada ou não. Agora posso-te garantir que não penso como os republicanos. Admite lá tu que é verdade. ;)

  12. Admito. Que remédio. É que para além do Shopenhauer também andei a ler o Pitigrilli. E ele é muito claro nos avisos que deixa quanto a discutir com mulheres.

    Mas admite tu, igualmente, o seguinte: caso estivéssemos na América, e eu tivesse usado “bitch” no lugar de “gaja”, já não te saltaria a tampa (não, não temos exacto equivalente, pois “cabra” não tem a abrangência e camadas semânticas de “bitch”). E faz-me a seguinte justiça: se o tema continha a temática de género como elemento central, então o subtexto de “gaja” poderá ser menos uma tese de antropologia ou psicologia e mais uma óbvia e gozona caricatura.

    (mas pode ser que não admitas aos homens o prazer de gozarem com as mulheres, o que levará a terríveis consequências – por agora omitidas para não tornar mais plúmbeo o teu ambiente laboral)

  13. É, eu também admito, também que remédio.
    Como parece que dizia o Pitigrilli, “Nasce-se incendiário e acaba-se bombeiro.” (acabei de googlar esta pérola, muito adequada, poderás concordar).
    Mas pronto, é o que eu estou a fazer agora, de bombeiro. Quero apagar este fogo porque tenho mesmo que me ir embora, mas amanhã quem sabe eu não volto?
    Admito que se estivéssemos na América e tu dissesses que os republicanos pensam como bitches eu ia achar histericamente engraçado, ainda mais que aquela das vacas sagradas. Não resulta tão bem em português, é pena. Por isso é que não é assim tão evidente para gajas como eu a tal “gozona caricatura”, mas pronto, ó pá, há umas que nos saem pior que outras, qual é o mal?
    Além disso, agora está tudo explicado, tu és o gajo que eu sempre gostei de ler, num dia menos bom ou, pronto, pronto, com uma tirada menos boa, pode ser assim? Qual é o mal, também?
    E goza, goza à vontade (como se precisasses da minha autorização, mas enfim) se isso te dá prazer. O que eu quero é que tu te sintas contente. A sério.

  14. Com esta conversa confirmei a fraquíssima presença Web do Pitigrilli. Mas lá consegui desencantar uma citação para concorrer com a do bombeiro incendiário:

    “Agradecidos são aqueles que ainda têm algo a pedir.”

    Muita sabedoria nas provocações do senhor, pois. E sim, dias maus, tiradas menos boas, umas que nos saem pior que outras. Mas também esta ideia de que as gajas são oportunistas e superficiais. Apesar de tudo. Claro que os gajos são coisa ainda mais ruim.

    O que eu quero é que tu te sintas. Sem te levares a sério.

  15. “Porque há limites para o que uma mulher considera ser justo nesta vida.”

    desde quando é que a valupi fala por todas as mulheres do mundo?

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