Uma coisa pouco séria

O Presidente da República dispõe de 16 milhões de euros para despesas anuais. É uma quantidade olímpica de dinheiro, como diria o comandante Vicente Moura. Parte dele serve o alto propósito de proporcionar remunerações e salários adequados a pessoal altamente qualificado. A Casa Civil, por exemplo, regista 40 nomes. 40 nomes equivalem, mais coisa menos coisa, a 40 cabeças. Se acreditarmos na sentença que sentencia estarem duas cabeças melhor habilitadas a pensar do que apenas uma, começamos a fazer contas com optimismo calculado. Atenção: para rapidez e simplicidade aritmética, não há necessidade de sair do conjunto “Casa Civil”: 1 presidente + 40 assistentes = 41 coisas, mais cabeça menos cabeça.

Donde, a pergunta: onde vai buscar o Presidente algumas das frases que profere publicamente enquanto Presidente? Tomemos estas:

É preciso uma estratégia muito adequada para que a imagem de país seguro não seja alterada.

A onda de crimes aumentou significativamente.

Não há dias sem assaltos.

Deixo a matéria da concretização a quem tem essa competência.

A onda de assaltos e crimes violentos é uma coisa muito séria.


Que o CDS e o PCP sejam organizações politicamente irresponsáveis e imbecis, escolhendo aumentar um problema social com alarmismos e acusações torpes, é algo que não chega para interrompermos a contemplação de uma erva a crescer. Mas que o nosso Presidente faça declarações assassinas da sua credibilidade, eis um crime violento de lesa autoridade. Estas afirmações estão ao nível das entrevistas de rua a populares apanhados na esquina. Mesmo que seja verdadeira a dificuldade de comunicação institucional entre o Presidente e o Governo, matéria nebulosa e palaciana, alguém da sua equipa de assistentes já lhe devia ter explicado que ele é, neste momento, um factor de insegurança nacional. Foi essa a lição da comunicação ao País sobre o novo Estatuto Político-Administrativo dos Açores: a dramatização do silêncio pariu um berreiro de reprovação. Quando se começa a desconfiar do bom-senso do Presidente, algo começa a cheirar muito mal; e não é na Dinamarca.

Neste caso das afirmações sobre os crimes, confrange estar perante um registo vácuo, alarmista, incompreensível. Um presidente de um país europeu não pode ignorar noções básicas de psicologia, sociologia, demografia e estatística. Cavaco não pode dizer que há assaltos todos os dias como se tivesse sido registado algum dia sem assaltos desde que ele nasceu. Cavaco não pode dizer que os assaltos aumentaram significativamente se não for capaz de justificar o adjectivo. Cavaco não pode reclamar uma estratégia muito adequada como se não existissem entidades variadas que já a têm e aplicam. No fundo, as suas declarações só exibem desconfiança, ou acinte, face às actuais capacidades das polícias e competências das tutelas.

Os crimes terão várias explicações, sempre a carecer de rigorosa e ponderada investigação — sendo que a explicação última será inevitavelmente de ordem individual. Mas pode avançar-se que há uma previsível dinâmica de emulação associada ao alarmismo social. Peço, pois, que alguém da Casa Civil dê — quando tiver oportunidade, e sem prejuízo das suas outras tantas actividades e afazeres — uma palavrinha ao Presidente sobre esta matéria das declarações ao País. E que fique claro que somos os primeiros a reconhecer a Cavaco, apesar de tudo, o direito à natureza humana. Assim, e nessa trágica condição, terá reagido com emoção ao recente assalto em Boliqueime que deixou um turista alemão baleado entre a vida e a morte. Lá está: quando os crimes acontecem no nosso espaço de proximidade geográfica ou identificação subjectiva, têm sempre muito mais gravidade e levam a maior urgência na sua contenção. Contudo, o que se espera do mais alto magistrado da Nação é que consiga distinguir entre o seu coração e a nossa alma colectiva. Sob pena de vermos a sua presidência tornar-se, cada vez mais, uma coisa pouco séria.

15 thoughts on “Uma coisa pouco séria”

  1. Em cheio, Valupi!
    Cavaco mostra aquilo que sempre foi: treinador de bancada.
    Quando esteve no “banco” deixou tudo por fazer…excepto obra de betão. Era só receber o dinheiro de Bruxelas e passar o cheque ao empreiteiro! Com isto encheu o olho do povo e ganhou fama. Quando é necessário mostrar algo mais, é o que se vê!

  2. Será que existe mais uma vagazinha, passa a 42… eu também sou capaz de fazer esse serviço…lol
    O nosso PR é um professsor não é…hum.. se desse aulas o que seria… ora meninos 1 1 são 2, certo?!
    Adicionei este Blog na minha lista do Blog Day 2008
    Parabéns pelo trabalho…continuem Por Favor

  3. “Declarações assassinas da sua credibilidade”. “As suas declarações só exibem desconfiança”. “Registo alarmista”.

    Não concordo. Que dirias se o homem tivesse mesmo feito declarações desse tipo, Val? E porque é que o PR não poderia dizer o que disse, durante uma das maiores vagas de assaltos e crimes violentos que houve em Portugal nos últimos anos? Se fosses conselheiro de comunicação do Cavaco, o que é que lhe terias sugerido dizer?

    Não li as declarações dele, nem sei se as seleccionaste bem, mas devem provir duma entrevista dada na soleira duma porta ou a meio duma escadaria. Num discurso preparado, é óbvio que o PR não teria dito as rotineiras banalidades que disse. Continuo a achar o trabalho de Cavaco razoavelmente bom, apesar de ter devolvido a lei do divórcio e outras minudências. Ainda bem que não temos lá o Alegre, o Soares, o Jerónimo ou o bentas de reco da Madeira. Cavaco dá estabilidade à situação política e, directa ou indirectamente, tem apoiado a governação.

  4. Caro Valupi, considerei que tinha tirado férias, ainda bem que imergiu com boas análises deste mundo sem tino, independentemente da hora ou lugar onde nos encontremos, bem-vindo.

    “Uma coisa pouco séria”

    “ Factor de insegurança nacional “? Só por isto? E o potencial inerente do cargo ao serviço de um provável e possível interesse partidário/pessoal?

    Alguém explica a esta pobre gente, onde me incluo, porque andou trinta anos alguém (LFM) a desejar ser presidente do PSD e de um momento para o outro dá “ás de vila Diogo”.
    Está tudo ligado como afirma o humorista?

    Quanto a “cabecinhas pensadoras”, estão à disposição do PR, mais 7 (sete) da casa militar e mais 16 (dezasseis) do conselho de Estado. Uma verdadeira corte.

    Um sistema monárquico sem rei, uma Constituição falhada de há muito.
    Agrada a muitos que assim seja. Era tempo de clarificar o sistema, um PR executivo e ponto final.
    Um PR é um contra-poder, é da sua natureza criar instabilidade, e fantasmas desnecessários.

    Nos USA, “Os republicanos, afinal, pensam como gajas”, como diria o “Z”, ai, ai.

    Que a eleição a presidente de McCain terminou, ninguém tem dúvidas, mas é possível especular com o provável experimentalísmo sociológico do muito grande capital.

    Há muito, que um esquema “tipo Lula da Silva” está em marcha, não esquecer que nem deu “faísca” a campanha para a nomeação republicana.

    As “gajas são oportunistas e superficiais”, sem dúvida que se refere ás mulheres na alta política, com as devidas excepções, ou não?

    Para o lote que começa nas pampas, até à putativa francesa e americanas, passando pela ucraniana estamos de acordo.

    Aqui mais perto, por exemplo, as nossas presidentes de câmara, são umas santas.
    Nem oportunistas, tão pouco superficiais, é tudo da mais elevada classe.
    Quer públicas ou privadas.

    Fica perigoso frequenta-lo, creio que está na red-line, para lá desta, as areias são seguramente movediças, por mim, que não lhe falte ”engenho e arte”.

  5. val,
    podes deitar fora a primeira parte do texto, estão a mais quer o seu conteúdo informativo (escarafunchas a despropósito, pese com razão por inteiro) quer a sua função enquanto fio condutor do raciocínio do post. Sobretudo essa.
    É que erras o alvo que procuras, esquece os 41 que recebem os 16 milhões porque não é remunerada pelo OE a grande influência de Cavaco nessa sua postura de dizer nanices. Refiro-me à nossa Primeira Maria, evidentemente, que sem qualquer ironia ou acinte (muito menos) eu reputo de decisiva na escolha dessa espécie de tom coloquial que supostamente se mostra próximo do povo, esse cotovelar cúmplice sobre uma dor comum, unidos na mesma desgraça – e para isso há que dizer aqulo que o povo diz na cozinha e no café, na sala-de-estar durante a novela e a propósito dela e de tudo e mais alguma coisa. Dizer coisas.
    Cavaco disse coisas, desta vez e sobre o crime. A gente diz coisas, toda a gente diz coisas uns aos outros, é uma bengala do viver em sociedade. Conversa de circunstância, o dia-a-dia, reflexo do telejornal da véspera, a melhor das telenovelas. Dizes e com acerto, mais uma vez: «o que se espera do mais alto magistrado da Nação é que consiga distinguir entre o seu coração e a nossa alma colectiva». Esqueces é a possibilidade, para mim real, da cama de casal da presidência achar que mora no seu coração a nossa alma colectiva. E daí ser infalível o seu sentir.

  6. Rui, esse aspecto é fascinante, e foi muito bem lembrado. É que realmente, no casal, é a Maria a figura que parece mais interessante – e por díspares razões. Sim senhor, bem esgalhado.

  7. Mario, faço minhas as tuas palavras.
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    Paula, vou contigo, ficam 43.

    Em nome do Aspirina, curvo-me perante a honrosa escolha para Blog Day.
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    Sofia e Bang Bang, não posso concordar mais com vocês.
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    José Domingos Costa, em nome do Aspirina, curvo-me perante a honrosa escolha para Blog Day.
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    Nik, primeiro tratar da tralha:

    – Devias começar por conhecer as declarações, as quais demoram 2,7 segundos a encontrar.
    – Não se está aqui a julgar a sua prestação geral, só a que remete para o caso.
    – Pouco importa o modo como ele se relaciona com o Governo, pois antes disso está a sua relação com os cidadãos.

    Posto isto, digo que:

    – O Presidente fala sempre como Presidente quando fala como Presidente. Este pleonasmo explicita-se à luz do exemplo da sua declaração sobre os Açores, onde a dramatização e solenidade não impediu o falhanço da comunicação, tendo o povo ficado sem perceber patavina do que se quis transmitir. De igual modo, se ele é apanhado na rua e larga umas bocas, isso pode até fazer com que caia o Governo. Isto é óbvio.

    – Eu aconselho Cavaco a pensar antes de falar. Não é o que temos visto, sendo ele muito fraco, até tonto (a boca sobre a ASAE, por exemplo), na espontaneidade. Acima de tudo, está em causa que o Presidente consiga unir os portugueses, pois é essa a sua missão e – atenção! – a sua profissão. No caso da criminalidade, a última escolha deveria ser a do alarmismo inseguro. As suas palavras em nada de nada contribuíram para a racionalidade exigida na situação. O que o Presidente deveria ter dito aos portugueses, e nem importaria a forma, era algo que lhes desse uma esperança e uma direcção. Por exemplo, Cavaco deveria ter apelado à vigilância, à prudência e à colaboração com as autoridades. Há muito – e decisivo – a fazer nessa área.
    __

    ramalho santos, perigoso frequentar-me? A tua fantasia é lisonjeira, mas nada mais. Há correntes de ar mais perigosas. Quanto à insegurança, é factual: este país entrou em estado-de-choque com o silêncio que precedeu a comunicação sobre o Estatuto dos Açores. Assistiu-se a um coro gigante de protestos contra o que a presidência fez e deixou acontecer.

    Também deixei implícita a extensão dos conselheiros, que ultrapassam os da Casa Civil, e até os do Conselho de Estado. Deverão existir muitos conselheiros informais, mas activos, suponho.

  8. Valupi, não lhe chamaria fantasia (é depreciativo), mas sim ironia, a lisonja (é pouco digna de si) não é verdadeira, mais acertado seria admiração.

    Tem razão na implícita corte, a que está à vista é seguramente menos perniciosa do que a que está na sombra.

    Como nas mensagens religiosas, os livres-pensadores devem fazer simples e constante.

    Sobre o PR, as minhas opiniões são mais deprimentes e indizíveis.

    Para os pobres de espírito que acreditam em tiques da “autoridade suprema” ou na “banha da cobra”, é essa a verdadeira insegurança.

    A coragem dos vivos é bonita e útil, nos mortos nem tanto.

  9. Ah, pela lógica do post percebe-se a quantidade de assessores do Sócrates e do Governo. Devem ser às centenas, incluindo algumas dezenas de criativos publicitários que fazem o chefe do governo dizer coisas como “já criámos 130 e tal mil empregos”.

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