Onde não estavas no 12 de Março?

Não estava na gigantesca manifestação de apoio ao Governo. Reuniu qualquer coisa entre as 300 mil almas e os 10 milhões de espíritos; não contando com os turistas, uma praga nas zonas do evento. Esta mole, dita dura, saiu à rua para gritar bem alto que está com o Governo e que, sem o Governo, não vamos lá nem saímos daqui. Só o Governo importa porque só o Governo tem a solução. É por isso que cada um dos manifestantes, sem excepção, tem a sua concepção própria, e tão própria, do que o Governo deve fazer para dar a volta a isto, para resolver os problemas, para levar a felicidade ao cidadão.

Um dos aspectos mais bonitos do 12 de Março, para além do ambiente de festa e romaria, foi a perda da virgindade política. Muitos nunca tinham participado numa manifestação, fosse porque são adolescentes ou jovens adultos, fosse porque esta foi publicitada como sendo apartidária e sem sindicatos. A experiência de ser parte de uma comunidade que se corporaliza em massa é entusiasmante, como sabe qualquer adepto de futebol que vá ao estádio. É uma poderosa fonte de endorfinas, a qual se multiplica em novas libertações hormonais de cada vez que se revive o episódio através das imagens ou palavras. Nesse sentido, o protesto de rua com bandeirinha na mão e cantoria pode até ser viciante, como igualmente sabe qualquer militante do PCP ou sindicalista afecto. Se acrescentarmos a estes benefícios as vantagens do exercício físico, temos que a política, afinal, pode ser uma fonte de saúde e alegria. Eis nesta faceta medicinal uma inesperada vitória contra o cinismo e o alheamento cívico.

A grandiosa manifestação de apoio ao Governo causou dois pequenos problemas, contudo. No lado dos revolucionários profissionais, há apreensão com a liberdade daquela malta. Se a moda pega, o negócio que mantêm há décadas corre risco de fechar. Porque eles sabem bem que as manifestações profissionais têm de ser paradas militares onde só desfilam as tropas e as armas escolhidas pelos generais. Somente quem sabe para onde se deve dirigir a História está em condições de escolher as palavras de ordem adequadas ao momento dialéctico da implacável luta de classes. Isto de cada um levar o seu cartãozinho, com a sua frasezinha, é uma perigosa cedência democrática que, no fundo, apenas promove a propriedade e a iniciativa privadas. Não é tolerável na verdadeira esquerda, evidentemente. No lado dos espoliados do pote, há frenesim de revolta. Estão prontos para um golpe de Estado, já que têm a perfeita consciência de não conseguirem encher as ruas com a sua boa e honesta gente. E, também, porque a rua serve é para acelerar ou estacionar, eles preferem o interior de casas de inatacável reputação e melhor arquitectura. Uma parte deste beautiful people alinhou sem complexos no apoio ao Governo, aclamando o enorme sucesso daquela tarde garrida e galhofeira. Outra parte não suporta o cheiro do povo, e foi a contragosto que aplaudiu o trânsito de milhares de indivíduos entre o ponto A e o ponto B (e o C, D e E, no après-manif); mas o ódio a Sócrates a tanto obriga, os tempos estão difíceis.

Os organizadores, merecidamente em absoluto estado de graça, criaram o Fórum das Gerações – 12/3 e o Futuro. A parte mais interessante da manifestação de apoio ao Governo começou.

3 thoughts on “Onde não estavas no 12 de Março?”

  1. Fui lá ver. Queixas, queixinhas, queixumes, “eles” são todos isto e aquilo, na Finlândia é que é. Miserável. Mas melhor que nada, suponho.

  2. Ah! :-) Gostei dos «espoliados do pote». Já o pote, quando foi referido pela primeira vez por PPCoelho, me soou muito mal. Falta de gosto. De facto, foi mais uma das suas expressões infelizes (aqui há uns tempos, foi o “partir a espinha”). Não é elegante, por um lado, e, por outro, traduz bem ao que andam, ele e os seus correligionários (e que, realmente, são tudo menos “elegantes”). Mas há mais, dentro da pouca elegância: pote tem por vezes a conotação de «bacio». Biac! Quer este homem ser primeiro-ministro?

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