O trabalho da inteligência

Tirando as aparições de Augusto Santos Silva para malhar nos infelizes que calhem aparecer-lhe à frente, Pedro Marques Lopes e Pedro Adão e Silva protagonizam o único programa de debate político que tenho pleno gosto em ouvir: Bloco Central. Estamos perante dois independentes, cuja bondade cívica e honestidade intelectual é patente, indubitável. Do lado de Marques Lopes, PSD, há essa raríssima capacidade de se assumir contra todas as indecências, morais e intelectuais; venham elas do PSD, de Cavaco ou de figuras públicas da sua família política. Do lado de Adão e Silva, socialista, há uma especial autoridade para ser crítico do PS e do Governo, pois foi membro do Secretariado Nacional do PS na direcção de Ferro Rodrigues e foi convidado por Sócrates para integrar o grupo que redigiu a moção estratégica que o secretário-geral levou ao congresso de Fevereiro de 2009. O resultado do encontro destes perfis é um debate que não ofende, antes celebra, as regras básicas com que se faz uma comunidade – nomeadamente o respeito pelos valores da pluralidade democrática e da honorabilidade dos adversários. Um oásis na paisagem mediática entregue à actual decadência da direita e sectarismo da extrema-esquerda, portanto.

Dito isto, do que mais gosto é de discordar deles. E não por me crer com argumentos melhores, apenas por daí poder nascer uma ocasião de aprendizagem para mim. Como neste caso, tirado da mais recente emissão:

[…] Uma coisa é certa: a partir de Junho sabemos que não teremos um Governo minoritário. Não sei por que razão nem Cavaco Silva nem José Sócrates pensaram nisso há um ano e meio. Não consigo perceber, continua a ser uma coisa que me escapa, o entendimento. Na verdade, há um ano e meio ninguém se empenhou activamente naquilo que era uma necessidade imperiosa que era estabilidade para enfrentarmos este ciclo de austeridade. […] porque José Sócrates, enquanto Primeiro-Ministro, na verdade nunca os promoveu. E, portanto, ninguém vê José Sócrates como um promotor e actor activo da ideia de consensos e entendimentos. […]

PAS

[…] De Sócrates, estes apelos ao consenso… quer dizer… Eu acho que Sócrates ’tá convencido que as pessoas não têm memória, e às vezes parece que anda a brincar! […] Ver Sócrates a apelar ao consenso, quando Sócrates foi o responsável por aquela cena perfeitamente surreal de ter proposto coligações a todos os partidos do espectro parlamentar, quando, quer-se queira quer não, Sócrates é um dos grandes responsáveis pelo clima de crispação que existe na sociedade portuguesa e pelo afastamento, pela incapacidade que parece haver neste momento de fazer pontes, ver Sócrates agora neste papel de cordeirinho incomoda-me porque não bate a bota com a perdigota.

PML

Estes exemplos, precisamente por virem de dois dos nossos mais atentos e arejados comentadores políticos, são da maior relevância. Exibem os limites cognitivos, e suas distorções, a que estamos todos sujeitos. E, caso concordemos que eles falham gravemente na descrição da realidade, podemos aproveitá-los para a nossa auto-correcção.

No caso do PAS, surpreende – e só não escandaliza por se estar no registo oral espontâneo, pois numa análise por escrito tal seria inaceitável – que o Pedro não tenha presente a situação resultante da vitória em minoria do PS em Setembro de 2009: por um lado, o Presidente da República vinha de ter sido cúmplice com uma golpada inominável, a qual visava a perversão das eleições legislativas e autárquicas; por outro, o PSD ia mudar de líder, não tendo condições para celebrar acordos, e ainda esperava pelas consequências de derrube ou desgaste político de uma inacreditável armadilha que envolvia polícias, magistrados e escutas a Sócrates. Como depois se comprovou, com as comissões parlamentares de inquérito e a estratégia de Cavaco antes e depois da reeleição, não podia haver qualquer tipo de entendimento num cenário de guerra suja e sem limites éticos, políticos ou cívicos. Tanto Cavaco como o PSD de Ferreira Leite apostaram tudo na destruição de Sócrates pela calúnia, infâmia e insídia. O cavaquismo nunca aceitou a derrota, por isso tratou logo de assegurar o objectivo seguinte: a conquista de Belém por mais 5 anos. Assim que esta fosse obtida, de imediato o Governo cairia. Quando Passos ganhou, rapidamente se alinhou com o baronato laranja, por isso não derrubou o Governo antes das presidenciais, apesar de ter tido excelentes oportunidades políticas e eleitorais para o fazer. Derrubou-o exactamente na altura em que Cavaco ordenou. Também no plano do esquecimento se encontra o papel de Sócrates como promotor de consensos, de que o caso do aeroporto na Ota é paradigmático, assim como os variados acordos estabelecidos na concertação social. Pura e simplesmente, ele não pode é forçar acordos, e à sua volta os partidos da oposição têm escolhido radicalismos como aposta estratégica de curto e médio prazo.

No caso de PML, não surpreende a visão preconceituosa. É um efeito antropológico inevitável, favorecemos os nossos e denegrimos os estranhos. O que interessa é o modo como o Pedro expressa esse preconceito: de forma opressivamente emocional. Como se pode ouvir na gravação, o seu registo de voz altera-se e deixa ver toda a sua frustração, a qual lhe tolhe o raciocínio. Vejamos, que há de surreal em Sócrates ter proposto conversações a todos os partidos no Parlamento com vista à obtenção de acordos que permitissem governar com estabilidade? Surreal? Mas desde quando é que a democracia ingressou no surrealismo? Muito apropriadamente, o Pedro não explica como chegou àquela conclusão. E aposto que, caso o conseguisse fazer, a sua explicação seria ocasião de vexame para si próprio. Porque se há algo de objectivo para dizer a respeito dessa iniciativa é que nem um desses partidos aceitou sequer iniciar uma negociação. Todos decidiram que era preferível ter o Governo sujeito às coligações negativas. E quanto à ideia de que Sócrates é um dos grandes responsáveis pela crispação na sociedade, isto, sim, é que é brincar com a malta. Um primeiro-ministro que ainda antes de o ser já era atacado com boatos de ser paneleiro, lançados pelo PSD de Santana, e que viu a sua vida toda virada do avesso e exposta na comunicação social, não tendo um dia de descanso a partir do começo da vingança de Belmiro, a que se juntou a estratégia de diabolização do Pacheco, é que está na origem da crispação? Isto quer dizer o quê? Que ele é fonte de crispação por se tentar defender resguardando a sua privacidade e apresentando provas às autoridades que o investigam e investigaram? Ou a crispação que o Pedro lhe atribui é aquela que observa nos debates quinzenais onde responde com indignação e responsabilidade política ao ser constantemente atacado com baldes de má-fé, desonestidade intelectual e pulhice? É absolutamente fantástico, embora típico das situações onde se cria um desprezo pelas vítimas, atribuir a Sócrates responsabilidades por uma crispação que nasce unicamente da decadência do PSD e sua falta de ideias e vontade.

Moral da história: a democracia é, numa sua dimensão essencial, esta capacidade de nos acrescentarmos inteligência – e mesmo sem ter qualquer certeza de aqui o ter feito, muito aprecio a inteligência que estes dois companheiros de paixão política vertem no espaço público.

2 thoughts on “O trabalho da inteligência”

  1. Totalmente de acordo. Gosto dos Pedros mas ,esta clarificação do Val , tem nota máxima, na minha modesta opinião.

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