O homem da coisa nenhuma

Na madrugada do dia que antecedeu a sexta-feira dia 6 de Maio de 2016 (acertaste, estou mesmo a referir-me às 00h20m do dia 5 do corrente), João Pedro Henriques publicou (ou seja, publicaram em seu nome, com fotografia e tudo) o texto Passos insiste em atirar o PR para o colo de Costa. Porquê?, de que cito parte:

«Um dos mitos da política portuguesa é aquele que retrata Pedro Passos Coelho como um homem frio e alheio às emoções humanas. O próprio nunca se importou nada com isso - nem ele nem os marqueteiros que o ajudaram a construir a sua imagem pública. Gerir uma situação de rutura como aquela que teve de gerir a partir de 2011 exigia coração de pedra, cabeça fria e nervos de aço.

Parecer hesitante teria sido nessa altura o pior sinal de Passos. Com as devidas (e enormes) distâncias: a Segunda Guerra Mundial poderia ter durado muito mais se no princípio, em 1939, os britânicos - os únicos que então sobreviviam à avalanche nazi - tivessem um líder choramingão. Não sendo imune ao sofrimento humano - "sangue, suor e lágrimas", prometeu ele -, Churchill pediu uma firmeza maior do que a vida. E isso foi decisivo para o seu povo não sucumbir.

Voltando a Passos: a frieza é a sua imagem de marca - mas cada vez mais parece que é mesmo só isso e nada mais do que isso. Basta olhar para a relação do líder do PSD com o Presidente da República para perceber que todo o seu discurso, no que se relaciona com Marcelo, está completamente tolhido pela emoção. [...]»

No dia seguinte, algures no relógio, Passos, com convicção irrepreensível, disse o seguinte para a posteridade:

«Mesmo que eu fosse primeiro-ministro, coisa que hoje não sou, e a obra [túnel do Marão] fosse inaugurada amanhã, eu não estaria lá. Porque nunca estive em nenhuma obra de inauguração enquanto fui primeiro-ministro. Nem de estradas, nem de autoestradas, nem de pontes, nem de coisa nenhuma.»

Segundos depois desta declaração, a Internet era invadida com pedidos de visualização de algumas das variegadas coisas inauguradas pelo Pedro primeiro-ministro. Quando a imprensa pegou no assunto, 24 horas passadas, alguns dos fiéis apoiantes do homem invulgar manifestavam a sua perplexidade com a invulgar estupidez exibida. Que lhe teria passado pelo bestunto para se sair com uma mentira tão bronca? Dias passados, creio que ninguém, a começar pelo próprio, está na posse da resposta. É uma situação que não foi planeada, onde só há prejuízos para o próprio, pelo que temos de sair do campo da racionalidade consciente para o da emotividade insciente. Passos, por causa de um extraordinário buraco, perdeu a cabeça. E isso constitui um facto político.

João Pedro Henriques acertou em cheio na véspera do acontecimento, mas não contou a história toda. O mito da frieza de Passos só nasceu por causa do circense Portas, na crise do irrevogável, e aí as razões para a sua “resiliência” poderão ser explicadas recorrendo à fragilidade da personalidade de Portas e ao puro desespero que o contexto alimentava. Antes, a sua imagem está pejada de anedotas onde a marca é um descontrolo emocional com laivos assustadores. Desde o uso de linguagem chula, que configura uma forma de violência por ser feita a partir de uma posição de poder político máximo, até à manipulação oportunista do eleitorado, como nas mentiras da campanha em 2011 e no famigerado e patético pedido de desculpas por ter viabilizado o PEC de 2010, e passando pelas interacções com populares, como no famoso vídeo onde aparece a confrontar e molestar verbal e fisicamente uma popular ou no famosíssimo vídeo onde mente a uma criança sobre o eventual corte de pensões e do subsídio de Natal calhando o PSD ganhar as eleições de 2011, temos uma colecção de episódios onde a marca de uma emotividade perturbada e perturbante é a constante. Essas características podem ser vistas como típicas de uma postura apropriada às juventudes partidárias à direita e sua cultura de bravata permanente, surgem é completamente deslocadas no plano da política adulta.

Em abono da verdade, diga-se que Passos não foi o único direitola a ficar à beira de um ataque de nervos por causa daqueles que atravessaram o Marão num dia de festa para a Região e para o País. Os maus fígados da nossa decadente direita espalharam muito sofrimento entre esses infelizes, o qual não passa com bicarbonato de sódio.

5 thoughts on “O homem da coisa nenhuma”

  1. Tive oportunidade de comentar este artigo do jornalista do DN na altura e,
    mantenho o que disse, foi a comunicação social que fez o mito do Passoilo,
    perante os problemas a sua acção foi ter-se sentado num canto e esperar
    que a crise passasse! Só não foi ao ar com a demissão irrevogável porque,
    foi o Cavaco que segurou as pontas pois, seria também o seu fim imediato!

  2. O homem é um mentiroso compulsivo e a comunicação social ( os interpretes) tem que ganhar a vida para comer..

  3. ahahahahah… nervos d’aço e frieza na crise do portas. diria antes chantagem e ordinarice, ameaçou o parceiro de coligação com os submarinos e tá feito.

  4. Ao professor ninguém em Portugal o atira para o colo de ninguém.

    O colo de Marcelo Rebelo de Sousa já não precisa de colo há mais de 40 anos.

  5. Valupi, vais comentar o texto da Fernanda Câncio? Referiu-se à conduta do teu ídolo como, “no mínimo, eticamente reprovável”, viste? Os advogados dele já reagiram? Comenta lá, que a gente quer rir.

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