Nós, os estúpidos

A maior parte da comunidade não liga à política. Até foge dela. Daí tantos alimentarem uma larvar ou infecta repulsa por todo e qualquer um que a faça, essa porca e essa puta (pois é, o machismo bronco anda de mão dada com o bronco populismo). Estes infelizes estão cheios de histórias para contar, que relatam de baba a escorrer pelos cantos das beiçolas, daquele e do outro que roubaram, fizeram, aconteceram… e voltaram a roubar. Outros vivem-na como um conflito identitário, mergulhados na infernal defesa do que julgam ameaçado pela alteridade. São os sectários e os fanáticos, e também os oligarcas (os de posses ou os de delírio). Outros não possuem as condições cognitivas, intelectuais ou morais para sequer acederem aos conceitos primeiros inerentes à actividade política – pense-se nos imaturos, nos analfabetos, nos alienados. Finalmente, os doentes, com mais e pior para pensar.

Os partidos, mesmo os que utilizem sofisticadas métricas demográficas, não falam para esta mole tão díspar como ubíqua. E por evidentes razões. Como despertar o interesse a quem não está disposto a ouvir-nos? E ainda antes: que dizer a um conjunto definível pela ausência de mínimos programáticos comuns? Em vez desta missão impossível, os partidos discursam para um eleitor que representa quem eles melhor conhecem: as suas próprias e mui estimadas pessoas mais os respectivos grupos de pertença. Por isso, nesse fatal egocentrismo, os oradores tentam derrotar os adversários através do aumento dos decibéis e da exposição de caras feias, não pela curiosidade que gera confiança, e cuja confiança aumenta a curiosidade pela diferença. Regista-se a mesma disfunção que leva um jogador de futebol a ofender e ameaçar um árbitro para que ele volte atrás no que decidiu, embora não haja notícia de alguma vez isso ter acontecido a não ser em jogos da distrital sem policiamento. Os políticos contentam-se com as palmadinhas nas costas dadas pelas suas claques após os espectáculos, rendidos à evidência de que não se pode remar contra a maré se a ideia for a de querer chegar a algum lado.

Universidades, imprensa de opinião e organizações civis variegadas não oferecem soluções, alternativas ou esperança. Aceita-se fácil e confortavelmente o marasmo por ser previsível, uma constante produção de irrelevâncias. Atenção: não se trata de considerar irrelevante o que os partidos apresentam e o que os políticos defendem ou atacam – irrelevante é o resultado do debate político usual, por ser mecânico, por ser estéril. Estaremos, portanto, condenados à estupidez que consiste em fazer da política uma guerra civil? Sim. Será uma guerra enquanto existirem hierarquias de poder social e financeiro geradoras de desigualdades económicas, algo que não consta estar para acabar nos próximos dez mil anos. Mas poderá ser uma guerra menos estúpida. Se começarmos por tratar de nós. Nós, os estúpidos.

13 thoughts on “Nós, os estúpidos”

  1. que maravilha: combater a puta da estupidez começando pelo portador.

    e viva o populismo bronco, como lhe chamas. eu chamo-lhe apenas palavras por burilar – palavras enfarpadas. :-)

  2. Ia lendo o Valupi e pensando na indiferença generalizada que acompanha as evoluções da classe política. Parece que “não é nada com eles”, apesar de saberem que está em jogo o destino comum. E é isto que me espanta. Esta indiferença pelas coisas sérias. As mais importantes. O destino de cada um e dos seus filhos. E ponho-me a pensar na raiz desta indiferença. E de repente vejo-me a associar esta indiferença à indiferença dos católicos pelas verdades da fé que dizem professar. Todos são católicos e todos se estão borrifando para a sua fé e o clero (dirigente) virou, aqui, o bombo da festa. “Uma cambada”, “só palavras”, “filhos da puta”. Também entre os 10 milhões de católicos existe um punhado de militantes assanhados, alguns bem intensionados, outros meros oportunistas.
    Tal fé, tal política. Como denominador comum, a indiferença, o analfabetismo,a incultura, a alienação face ao mais sagrado que temos: a lucidez humana.
    Vil tristeza, infelizmente bem acesa.

  3. a maior parte da comunidade não liga à politica e como tal não vota,mas não deixam de ser os mais criticos da siutuaçao.outro dia num forum da atena um,um participante fartou-se de debitar criticas a toda a gente,e sem ninguem lhe perguntar disse-nos que só votou uma vez depois de abril. é na minha opinião, urgente tornar o voto obrigatorio,para não acordarmos fora da europa e com outro regime! que os pariu!

  4. a maior parte da comunidade não liga à politica e como tal não vota,mas não deixam de ser os mais criticos.outro dia num forum da atena um,um participante fartou-se de debitar criticas a toda a gente,e sem ninguem lhe perguntar disse-nos que só votou uma vez depois de abril. é na minha opinião urgente alterar o metodo de eleiçao, e tornar o voto obrigatorio,para um dia não acordarmos fora da europa, e com um regime identico ao dos suspeitos do costume!

  5. última abstenção registada: 41,97%, portantes (é mesmo açim) continuamos maioritariamente alcoólicos.

  6. Eu acho perfeitamente normal que as pessoas deixem de votar, olha-se para um lado e para o outro e o que vemos é mais do mesmo, mediocridade e desonestidade, e todos com um ar de virgens ofendidas quando se lhes aponta o dedo, há o Relvas com um curso de anedota o problema é que o Seguro tem um curso igual ao do Relvas, temos os Isaltinos desta vida o problema é que também temos tipos como o da câmara de Portimão , do PS , que quando foi catado pela policia se pôs a comer os papeis que o podiam incriminar, como é que se pode discutir uma aposta credivel quando o principal partido da oposição está entregue ao Seguro e ao inenarraevel Zoriinho?

  7. “Eu acho perfeitamente normal que as pessoas deixem de votar…”

    perfeitamente anormais são as pessoas que deixam de votar e passam a vida a reclamar tudo & todos, armados em independentes e honestos. é graças a estes 42% de anormais que o circo da república tem um palhácio em belém e um coelho que tira ilusões da cartola em s. bento.

  8. lat,é por essa razao que no” leste do paraiso” não havia eleiçoes. não valia a pena.faz todo sentido! quando estiver a “irmandade comunista” no poder em portugal é que vai valer a pena votar,só que nessa altura eleiçoes nem vê-las!

  9. O principal problema é que os partidos deixaram de ser projectos ideológicos para se tornarem em agências de emprego. Funcionam, como funcionam todas as instituições a partir de uma certa idade, um bom exemplo é a igreja. A partir de uma certa idade o principal objectivo de uma instituição não é o fim para que foi criada, mas sim o como se fortalecer, e depois, o manter o poder a todo o custo. Todas as energias passam a ser canalizadas para o aumento de poder da instituição, neste processo começa a traição e/ou perversão dos seus princípios, podemos chamar a Faustização. A partir deste patamar, já existem todos os ingredientes para uma linguagem de mentira e de demagogia, que é o que todos os políticos fazem.
    Tinha colegas que diziam que não votavam no Sócrates porque ele era mentiroso. Eu ficava pasmado com tal ingenuidade e, respondia-lhes: qual é o político que não é mentiroso. Nunca ninguém me deu uma resposta.
    Agora têm lá um bandido que é mil vezes mais mentiroso. E que dizia que nunca mais ficava sozinho com o outro. É mesmo o maior bandido que já apareceu.

  10. joaquim rato,concordo com o seu texto,com uma observaçao: é que eu pedia aos meus amigos , conhecidos e “suspeitos do costume “que me referissem uma mentira proferida por socrates. a partir desse momento o silencio era absoluto à espera da resposta.meu amigo, até hoje ainda nada me disseram.isso foi mais uma narrativa da direita,como aquela de que socrates nem sequer comunicou a passos coelho o conteudo do pec 4,quando tinham estado varias horas em s.bento a conversar.a direita é um nojo,e como sabe o que é, vai todos os domingos à missa expiar os seus pecados,ajoelhando-se varias vezes, batendo com a mão no peito, para “carregar as baterias” para as calhandrices a levar a cabo na semana seguinte! veja as semanas que já vivemos depois abril descontando as anteriores vividas da mesma forma pelos seus pais! quem sai aos seus efectivamente não degenera.

  11. A malta já se conformou com o facto de que tem de lidar com essas organizações criminosas chamadas partidos, que enquanto nos dizem o que pensar, o que dizer, o que comprar, vão nos pilhando e violentando, em nome dos nosso donos, os seus empregadores.

  12. Nuno, sinceramente também não me lembro de nenhuma mentira do Sócrates, mas admito que ele possa ter mentido no caso da TVI, ou no caso do Vara. O passos sei eu que já mentiu, e mais que uma vez, assim como o cavaco.
    O que eu sei é que a direita mente descaradamente. O pensamento deles é que o povo é estúpido, portanto, à que usar todos os métodos que possam levar à sua manipulação. De certa forma a “esquerda” já pensa da mesma maneira. Utiliza é mais a demagogia em detrimento da mentira.
    O que eu sei, também, é que o grau de desacreditação dos políticos é muito grande. E eles não parecem preocupados com o facto, o que não era tão grave assim, não fosse a democracia estar em perigo.
    Algo me diz que um político que apareça a dizer a verdade, não a da ferreira leite que estava totalmente coberta de mentira e demagogia, o embuste da asfixia democrática, quase dá vontade de chorar quando nestes dias negros que cobrem Portugal se pensa neste embuste, terá grande sucesso. O que será uma grande surpresa para os tontos políticos que proliferam neste mundo como cogumelos.

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