No meio está a inteligência

A democracia é cara. Por isso precisa de cidades e da classe média. Latifundiários, generais e sacerdotes não precisam da democracia para nada; só os atrapalha, prejudica e ameaça. Escravos, miseráveis e pobres não sabem o que fazer com ela; por isso igualmente a rejeitam, abastardam e destroem. É a classe média, nas cidades, quem precisa da democracia para se proteger dos oligarcas e dos tiranos, dos brutos e dos desesperados.

Mas a democracia também é cara por ser complexa. A democracia precisa de muita gente e que essa gente tenha passado pela escola, pela vida e pela escola da vida. Se a democracia realizasse plenamente o seu ideal, cada cidadão com direito de voto estaria concomitantemente em condições de ser eleito governante. Uma sociedade que não ofereça uma educação de acesso universal e de excelência não estará a formar democratas nem a defender a democracia.

É por esta ser a realidade – no sentido em que esta é uma realidade entre outras, cada uma fazendo parte do real – que o trabalho mais importante numa democracia é o da promoção, desenvolvimento e aplicação do pensamento crítico. O pensamento crítico precede, enforma e avalia cada uma das ideologias possíveis, à direita ou à esquerda, acima ou abaixo. Corresponde a um conjunto de regras e actividades mentais que radicam no instinto de sobrevivência, atravessam a nossa natureza social e conduzem-nos para a procura do sentido último da existência (o qual poderá não passar de uma sempiterna ilusão, dizem alguns ilustres representantes do pensamento crítico).

Os partidos não se preocupam em fazer a pedagogia do pensamento crítico e será justa a consideração de que amiúde dão provas de nem sequer gastarem desse produto. Contudo, precisamos dos partidos caso queiramos continuar a desfrutar de uma democracia tão imperfeita e tão preciosa como cada um de nós. O antídoto contra todos os populismos, todas as demagogias, todos os sensacionalismos e todas as calúnias está numa ginástica e higiene intelectuais que podem ser apanágio dos mais díspares adversários políticos. Porque ser inteligente não é um exclusivo da esquerda ou da direita. Ser inteligente é estar no meio da comunidade.

6 thoughts on “No meio está a inteligência”

  1. acordar e ler uma coisa assim é afrodisíaco, digo-te já. estou com o cérebro a dar pinotes de excitação e tenho a massa crítica em absoluta masturbação. :-)

  2. Acalma lá a passarinha, querida Olinda, que fazer um curso superior não dá cultura por si só. E a democracia resulta, sobretudo, da cultura, que tanto pode vir da escola da vida como da escola estruturada na sociedade que se quer cada vez mais democrática. A este propósito conversava eu, há dias, com uma jovem estudante de filosofia (Universidade do Minho), que se mostrava escandalizada com a luta entre os filósofos “continentais” e os “analíticos”! Pelo meio da conversa fui percebendo que aqueles “guerreiros” eram, de facto, filósofos da treta e revelavam uma cultura do mesmo nível. E se isto anda assim na filosofia…A mesma jovem referiu a “cegueira” dos doutorados que só percebiam do seu “ramo” e a sua “cultura” começava e acabava no “fio do bistori”. Depois, claro, não nos podemos admirar que haja tanto doutor e engeneiro afastados, da “coisa pública” como da mesa de voto. Mas sabem dizer que “a política é uma merda”, quando deviam começar por reconhecer que a sua é que é uma cultura de merda.

  3. ó Maria Abril não sei onde foste buscar a coisa de me associares, ou o que eu disse, ao ensino superior. mas fizeste bem – libertaste-te em tentativa de vires para o meio da comunidade. olha ali a passarinha: é a tua. :-)

  4. “Os partidos não se preocupam em fazer pedagogia do pensamento crítico … e, dão
    provas de nem sequer gastarem desse produto”!
    Com efeito, nos quase 40 anos de democracia está à vista a situação a que a partidocracia
    nos trouxe, por natureza todos os partidos são relapsos no que concerne à mais pequena
    auto-crítica sobre a sua actuação nos desvios às promessas com que conquistam os votos
    e, assim, as cadeiras do poder!
    Mas, uma democracia pode sobreviver e ser mais saudável, sem a exclusividade dos parti-
    dos na Assembleia da República! De eleição em eleição, aumentando a abstenção, veja-se
    a qualidade das direções partidárias no actual momento que, para além, de serem farinha
    do mesmo saco como gosta de dizer o camarada Jerónimo, estamos no mais baixo nível
    político nas principais Instituições da República ( PR, AR e Gov.) !!!

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