Luiz Pacheco, obrigado por teres nascido em Portugal

Voltando à minha missão nesta tribuna: cai-me nas mãos um livro novo ou uma reedição para crítica. Conhecendo o autor e as actividades dele em vinte anos, posso eu (devo) constranger-me a uma imparcialidade impossível por falsa? Dito por outros termos: posso (devo) fazer tábua-rasa da sua conduta, naquilo que nos opusemos e opomos se as atitudes que os vi tomar forçosamente abandalharam as suas obras? reduziram-nas a uma mercadoria congeminada na mentira e na má-consciência? Vos arrenego que tal não farei. DIZE-ME QUEM ÉS E COMO AGES, DIR-TE-EI O QUE ESCREVES. De caras e cara-a-cara. Logo, loguinho. Antes de abrir-vos o livro aposto comigo (se é tipo meu conhecido) e depois vou ver. Lá está! Queriam (convinha-lhes, não era?), então, que ficasse calado? fizesse friamente a dissecação retórica e inútil da polivalência significante, da linearidade de expressão, da libertação metafórica, do gosto pelo conceptual, do esquema rítmico, da intencionalidade fundamental, do teor poético, oh meu Deus! Ná!… Tiro-lhes antes o retrato à la minuta (mas com uma, a minha, memória de elefante) e já ‘stá!… Saiu fotomaton? paciência. Foi do meu mau-humor do momento. Ou da caricatura em que se tornaram. Caricatura de homens, de escribas. A culpa não é minha se o retrato ficou parecido e tresanda a malfeitor procurado pela polícia. A isto chamo crítica de identificação.

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Colhido, ao calhas, em LITERATURA COMESTÍVEL, Editorial Estampa, 1972, p.126

6 thoughts on “Luiz Pacheco, obrigado por teres nascido em Portugal”

  1. Bela entrevista que me deu em 1999 para O MIRANTE. Em Palmela num lar perto do cemitério. Falou das sua passagens por Santarém. E Caldas da Rainha, sempre.

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