Louvor da mediocridade

Soares lançou a moda de malhar nas lideranças europeias, declarando a sua presente mediocridade. Vindo de quem vem, fica-lhe bem. Quem viveu o sonho da construção europeia como adulto logo desde o fim da Segunda Guerra, tendo depois sido protagonista dela durante décadas, tem critérios compreensivelmente exclusivos. Mas para os netos de Soares, aqueles que nasceram nos anos 60, 70, 80 e 90, a repetição da mesma avaliação noutras bocas soa a falso e é perversa.

A verdade é a de que ninguém sabe o que fariam hoje os líderes de ontem. Tal como não sabemos o que teriam feito ontem aqueles que só hoje estão à frente dos grandes países europeus. Apenas uma banalidade pode ser convocada: os problemas económicos e políticos em 2011 não têm comparação com os problemas em 1961, 1971, 1981, 1991 e mesmo 2001. E ainda podemos juntar outra evidência, embora sempre esquecida na superfície da opinião célere: os líderes não existem isolados, antes são os representantes de sucessivos grupos a que pertencem, e que os influenciam decisivamente, pelo que acabam por ser o resultado das condições históricas em que exercem o poder. A suposta mediocridade dos dirigentes, pois, será uma necessidade do devir, não um acaso do destino.

Há uma excelente notícia para dar, porém. A de que tudo, se isto de existir correr pelo melhor, só irá piorar. Porque estes problemas actuais que deixam os europeus ansiosos, o alvoroço provocado pelas austeridades nalguns países onde se vive na abundância máxima se comparados com a maior parte do Mundo, são como uma brisa mais frescote no Paraíso. A magnitude das ameaças ecológicas, com potenciais consequências devastadoras à escala planetária tanto pelas catástrofes e desastres como pela instabilidade social e militar, fazem deste dias um remanso para ociosos e da Europa uma tebaida para nefelibatas. Nessa altura em que a própria produção alimentar global pode sofrer uma redução irreversível e fulminante, continuaremos a ter líderes medíocres, de certeza absoluta. Líderes que não se poderão comparar a tantos outros que, de forma magnífica, deixaram a História coberta de sangue e destruição, horrores e vergonhas. Mas se eles permanecerem como governantes eleitos democraticamente, então nem tudo estará perdido – ou melhor, o essencial está salvo.

44 thoughts on “Louvor da mediocridade”

  1. Uma coisa curiosa sobre a Grécia é o Dr. Soares se referir a eles como «o berço da nossa civilização» mas «estes» gregos de agora, segundo me diz pessoa habilitada a isso, nada têm a ver com os gregos do tempo dos clássicos. São turcos, búlgaros, montenegrinos, arménios, albaneses. Vivem na Grécia – apenas isso.

  2. Não é fácil, mas é assim que acontece nas dores do crescimento, quanto mais custa mais o esqueleto enrijece.

    Foi fácil chegar ao Rubicão, mais difícil ao Tamisa. Mas não tarda e sobre o Volga os dados serão lançados.

  3. A “mediocridade” daqueles que capitulam perante os especuladores e outros inimigos
    (externos e internos) nada tem de louvável.
    É aquilo que pode ser descrito como traição e, em tempos não tão remotos como isso, era
    punida com a pena capital.

  4. Pois eu penso que os horizontes de Mário Soares não são os da sua memória, antes os da sua visão do futuro. Acomodar-nos às comparações, ainda que verdadeiras, não são a atitude certa para o desafio do futuro.
    A não resignação, o inconformismo e a luta contra a passividade social foram os argumentos mais poderosos no discurso, e muitas vezes na acção, de José Sócrates. É nisso que acredito.

  5. “Tebaida para nefelifatas” e tal. Tudo bem. Mas, falando de coisas concretas, por que motivo os líderes de anteontem e de ontem (avós, filhos e netos) entendem que é reprovável que o dinheiro dos impostos de todos continuem a financiar coisas como estas:

    http://lishbuna.blogspot.com/2011/06/que-falta-faz-esta-televisao-publica-i.html

    http://lishbuna.blogspot.com/2011/06/que-falta-faz-esta-televisao-publica-ii.html

    http://lishbuna.blogspot.com/2011/06/que-falta-faz-esta-televisao-publica.html

  6. “os líderes não existem isolados, antes são os representantes de sucessivos grupos a que pertencem, e que os influenciam decisivamente, pelo que acabam por ser o resultado das condições históricas em que exercem o poder. A suposta mediocridade dos dirigentes, pois, será uma necessidade do devir, não um acaso do destino”.

    Muito bem dito, da intenção e falta de pormenores não digo nada. Como precaução vou mandar-te a chave do armazem para ires carregando a mula ou a galera com tremoço de primeira; por nada, apenas pelas tempestades que o devir promete. Raios me partam se já não começaste a pensar duas vezes antes de mandares vir mais uma garrafita de champanhe para a mesa.

    Necessidade a quanto obrigas.

  7. Val,

    Nem sempre os textos saem bem. É a vida!

    Soares fala e muitos outros falam ou têm falado que a Europa, conforme está, não tem futuro. Cada dia que passa esta evidencia torna-se mais visível.

    Um Sarcozi completamente artolas que odeia imigrantes sendo filho de imigrantes , uma Merkel que viveu uma vida sobre o domínio comunista e que até pertencia às estruturas, de repente passa para um partido de direita e governa, um Durão Barroso que perante as dificuldades do seu próprio pais, o abandona em troca dum penacho na europa…

    Ainda te parece que a europa, governada por esta gente tem futuro????

    Eu creio que é uma questão de dias….

  8. א, !
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    jcfrancisco, também falam grego.
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    franciscano, bem observado.
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    Kid Karocho, os portugueses foram dos primeiros a acabar com a pena capital.
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    jrrc, creio todos acreditam nesses argumentos. É esse, e precisamente, o ponto.
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    João Lisboa, sabes escolhê-las, não há dúvidas.
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    V. KALIMATANOS, larga o tintol já que vou ter de largar o champanhe.
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    Carmim, concordo muito contigo quanto ao facto dos textos nem sempre saírem bem. Aliás, diria até que raramente saem bem. Quanto ao resto, não posso discordar mais.

    Vejamos, e pegando nessa imagem catastrófica da Europa estar por dias: de que falas? Como é que imaginas que se resolvem os problemas sem estes políticos que foram todos, sem excepção, democraticamente eleitos? É disso que falo, do facto de termos as pessoas que se ofereceram para governar sujeitando-se ao voto. Quando tal acontece, o essencial está a garantido: a democracia.

  9. Val,

    Por dias, não está com aspas e devia. Mas claro que falo em sentido figurado. A manter-se o actual rumo, a única coisa que a europa tem em comum é o euro, e segundo consta parece que está em risco.

    O democraticamente eleitos significa exactamente o quê???
    Por exemplo:
    O PSD, ganhou as eleições. Muito bem. E as circunstâncias, quais foram????

    1- Uma comunicação social que toda, mas toda fez campanha a favor de PPC e PP.
    2- Divulgação de sondagens manhosas quando tal era absolutamente necessário.
    3-Um governo em exercício que mesmo em desgaste provocado pela situação que vivia andou semanas com um empate técnico nas sondagens .

    A eleição em causa não foi uma eleição democrática. Foi uma eleição manipulada. E esta democracia que se vive aqui, espelha, em minha opinião, todas as outras, nomeadamente a europeia. Tudo é feito da “mesma forma” e com recurso às mesmas habilidades.

    A democracia tornou-se uma “coisa estranha” à qual recorremos sempre que se pretende impor algo. O caso mais recente que me vem à memoria em jeito de exemplo é o Iraque. A quantidade de mentiras e de mortes que já existiram naquele pais à custa de se tentar impor um regime democrático. Resultados: as pessoas daquele pais vivem melhor ??? Dúvido. Contudo, houve uma industria poderosa que ganhou muito dinheiro, como sempre, de resto, a industria do armamento. E mesmo não sabendo tudo, podemos imaginar com que meios mexe a industria do armamento…

    Uma coisa sabemos. o que fez despoletar aquela guerra, não existia e existem senhores, alguns dos quais ocupam os mais altos cargos, democraticamente, e que colaboraram na mentira, difundindo-a.

  10. Acredita que falo assim de democracia, com angustia. Eu crescia a ouvir dizer que a democracia era algo muito bom. Hoje verifico que é o que é !

  11. Carmen, divergimos no entendimento do que seja a democracia. Para mim, é o sistema que elege representantes através do voto. Só quando há irregularidade ou ilegalidades nas eleições é que a democracia não está a funcionar como devia. Quanto ao que fazem os governantes democraticamente eleitos ou mandatados, isso é outro assunto, o qual remete para o regime de Estado de direito e suas modalidades de fiscalização da acção política – já para não falar na opinião pública e demais agentes sociais. Se não se provarem ilegalidades no exercício governativo, eles poderão fazer o que bem entenderem dentro dos limites, e direitos, consagrados na Constituição.

    As circunstâncias em que o PSD ganha as eleições só interessam para quem se interessa por elas. Quanto ao resto, são legítimas todas as formas de desgaste, até boicote, ao Governo que não desrespeitem as leis, porque esse é o meio mais comum pelo qual se chega ao poder.

  12. eu acho é que devias ler o poulantzas. e umas coisas sobre legitimidade e efectividade dos regimes. ainda não percebo como é que um regime tão pouco efectivo , ainda que grávido de 10 meses de pais legitimos , se aguenta. suponho que na grécia nascerá qualquer coisa de bom.. irão exigir efectividade a governos de mediocres ? pedir maçãs a pereiras? ui , acho que a democracia representativa está por um fio. graças a zeus , textualmente.

  13. Valupi

    Estou mais com a Carmim do que contigo nesta coisa da democracia.
    Tenho consciência, e idade para isso, de que não se pode exigir uma democracia 100%. Pode-se até ficar pelos 50% ou um número ainda mais mediocre. Penso, como a Carmim, que já estamos muito abaixo desse patamar e o número real de eleitores que vão às urnas tende para a mediocridade, denunciando um fracasso ou, se gostares mais, exigindo um novo começo na dialética da história humana.
    Se não te conhecesse daquilo que escreves no Aspirina, ficava a pensar mal de ti, quando afirmas que se pode ir “até ao boicote” no combate politico da democracia. Poder pode, numa democracia para o retrocesso civilizacional. Tu sabes bem, e a Carmim deixou em destaque, que as democracias (onde o combate politico pode ir até ao boicote) “fizeram” o Iraque, enforcaram Sadam e têm um TPI para calar a consciência dos mandantes de todas as guerras e crimes hediondos contra a humanidade. Toda a gente sabe porque ‘e que Durão Barroso é o reeleito presidente da Comissão Europeia e porque Soares foi em tempos o “special friend” de Ronald Reagan.
    Também concordo com a Carmim quando ela sugere que estas eleições foram um “golpe de estado” urdido com todos os meios de uma democracia formal. Isto acontece quando se aceita que se pode ir “até ao boicote”, democraticamente.
    Nunca tive tendencias anarquistas, fui sempre cumpridor “em todas as tarefas que me foram confiadas”, votei sempre religiosa e efectivamente (nunca em branco), nem exigi a perfeiçâo em mim ou nos outros.
    Sou amigo de conservadores até à medula e de progressistas até negarem a paternidade.
    Mas chegou o momento em que me convenci que “isto já lá não vai assim”. E para este meu convencimento contribuiu decisivamente ter assistido, “aqui e agora” ao colapso da ética e da moral na justiça, no jornalismo, no poder económico e no poder politico. As instituições ditas democraticas ou os seus agentes, o que vem a dar no mesmo, promoveram e executaram durante seis anos o linchamento da pessoa do PM José Sócrates “E NINGUEM FEZ NADA”.
    Noronha do Nascimento não terá sido tão abrangente quando pronunciou estas palavras de uma litania dolorosa e de impotência.
    Claro que ele podia ser herói, mas a tanto não era obrigado. Digamos que não teve coragem ou não lhe pareceu oportuno desmascarar o rotundo fracasso das instituições democraticas: a Presidencia da República, a AR e os Tribunais.
    Muito oportunamente, a crise (que agora já vem de fora e agora já se podem pedir os maiores sacrificios aos portugueses) disfarçou a golpada.
    Alguém pensa que em causa esteve apenas o cidadão Sócrates ou um partido político?
    Lembrem-se do Iraque! As instituições interiorizaram a mentira como arma legítima do combate politico e outros combates. Aliás, sempre foi assim. Alguns, ou muitos, é que pensaram que tinhamos evoluido para a democracia da verdade…

  14. Não adianta, Val, vires dizer-me que boicote e mentira não são a mesma coisa. Nâo é vincada nem ténue a linha que os separa, quando estamos a falar da vida das pessoas. Ou a politica trata de quê?
    Mas se me perguntares, e bem, “o que fazer”, respondo-te que podemos começar por denunciar a mentira que capturou o nosso sonho de democracia. Passar uma esponja sobre os crimes e os responsáveis por eles é que não vai levar-nos a lado nenhum. Estava a ler-te e parecia-me perceber o que não escrevias: o que lá vai, lá vai.

  15. Parece-me haver por aqui alguma confusão: criticar os governantes europeus actuais, chamar-lhes mesmo medíocres, não é criticar a Democracia europeia, muito menos considerá-la medíocre. De todo!

    A qualidade dos governantes não está diretamente relacionada com a qualidade dos sistemas em que governam! Hom’essa, então, nunca ouviram falar de um tipo chamado Oliveira Salazar? Já para não falar no Fidel…

  16. boa discussão a partir de um bom texto que a permitiu e potenciou..
    assim vale duplamente a pena aqui vir…
    abraço todos

  17. 1« x militantes, what?
    __

    Mario, és capaz de descrever, mesmo que seja só nos seus traços principais, o que seja uma “democracia a 100%”? Se conseguires, tens aqui um leitor muito interessado em aprender contigo.

    Quanto à semântica da palavra “boicote”, esclareço que a estou a usar no sentido concretizado pelas coligações negativas que marcaram a anterior legislatura. Por exemplo, o que tentaram fazer à avaliação, logo após a demissão do Governo. Mas peço-te que imagines uma situação em que um Governo minoritário tenta levar avante uma lei que tu consideres injusta. Nesse caso, verias o boicote parlamentar a essa lei, ou a esse Governo, como algo não só politicamente legítimo como moralmente necessário.
    __

    Odisseus, não é directamente, óbvio, mas é indirectamente. Porque esses dirigentes foram aqueles que as respectivas populações escolheram para resolver os seus problemas.

    Quanto a Salazar e Fidel, não entendo a referência, posto que não governaram em regimes democráticos.
    __

    aires, sábias palavras.

  18. Queria sublinhar apenas, com esses exemplos, que Salazar e Fidel, apesar de não governarem em sistemas democráticos, não deixaram por isso de ser governantes de superlativa capacidade. Ou como também o Pres. Botha da Rep. Sul-africana, que liquidou o “Apartheid”. Exemplos históricos não faltam.

    O inverso se passa na Europa de hoje, como talvez na de N. Chamberlain e de T. Masaryk: apesar de eleitos democráticamente, os líderes dos Países democráticos nem sempre demonstram, objectivamente, estar à altura das extraordinárias exigências do seu tempo. Hoje, como nos anos trinta.

  19. há um tremendo simbolismo nisto de ser na mesma grécia que se constata claramente a falha da democracia. porque deixa de ser um regime democrático aquele em que as decisões são tomadas sabendo-se que 80% da população está contra elas. é um regime paternalista aquele que determina que um grupo de eleitos ‘sabe o que é melhor para o país’ sem sujeitar as decisões ao escrutíneo da população perante a catástrofe. até agora não li um único economista que dissesse que a grécia irá sair do buraco, antes que irá agravá-lo. e que não se trata de uma saída da crise, mas do pagamento aos agiotas que dominam a economia mundial. costumam dizer, ainda, que portugal vem a seguir.

  20. acho que não, valupi. mas os governos já sabem que podem não cumprir as promessas eleitorais, que uma metade nem sequer sabe, porque não anda informada, e a outra tá-se a cagar porque já não acredita na democracia, nos políticos, nos governantes. é como se vê agora no despudor do psd ao prolongar a avaliação dos professores (como é óbvio a razão económica da sua existência primeira tem agora muito mais relevância), ou a aumentar as medidas de austeridade que tinha dito serem excessivas. (e o mesmo teria acontecido com sócrates, embora a marcha liberal tivesse que ser mais dissimulada pela imagem socialista que gera votos e apoio público.)

    os governos, como sabes, são reféns do poder económico. vai-se sabendo mais porque esta malta quer continuar a fazer as coisas como dantes mas usa e-mails em vez de correio postal. ainda agora se ficou a saber da campanha do governo britânico para manipular dados, e depois a opinião pública através dos media, para reforçar a confiança da população nas centrais nucleares depois do acidente japonês. a tónica foi colocada na preservação dessa indústria e orquestrada em colaboração estreita com os seus principais agentes (as companhias que a exploram). ou que o governo norte-americano ameaçou a frança com ‘guerra’ se não houvesse pressão francesa sobre a europa para fazer passar um aumento de investimento nos transgénicos, a favor da monsanto, entre outros. tu, grande adepto da diplomacia à antiga e detractor das ferramentas ‘whistle blowing’ da transparência, essa sim democrática, dirás que essa ‘confidencialidade’ que passa por cima dos eleitores e os engana é necessária, porque de outro modo nada se faria. eu não. como li há tempo numa entrevista a um arquitecto, nos países totalitários faz-se ‘mais obra’ (leia-se obras megalómanas) porque não existe o escrutíneo do público. se a vontade expressa da maioria da população grega for o inverso do que foi decidido pelo seu governo, então sim, claro que acho que ali não está a haver democracia, porque não existe a representação inerente ao conceito.

  21. susana, o que defendes é uma modalidade qualquer da democracia directa, sem representantes. Qualquer acto de gestão, do maior ou menor, teria de ser alvo de escrutínio público. Como não custa a calcular, tal modelo é absolutamente inviável, servindo apenas para tiradas demagógicas primárias (mesmo que com as melhores das intenções).

    Aliás, os teus pressupostos estão mais do lado da retórica caricatural do que da racionalidade. Donde vem esta imagem?:

    “mas os governos já sabem que podem não cumprir as promessas eleitorais, que uma metade nem sequer sabe, porque não anda informada, e a outra tá-se a cagar porque já não acredita na democracia, nos políticos, nos governantes.”

    Apenas da tua impotência. É em ti que convivem essa metade que nem sequer sabe (por fastio) com a metade que se está a cagar (por revolta). Contudo, à tua volta as pessoas continuam a ir votar, a assistir a debates políticos, a discutirem umas com as outras – e há milhares e milhares que dão diariamente a sua vida por ideais democráticos e humanistas.

    Dizes que “os governos, como sabes, são reféns do poder económico”. Trata-se de uma concepção irracionalizante do que seja a economia e seus poderes. E só é possível manter este sofisma mais do que 1 segundo na inteligência se sonharmos com uma ditadura que domine essa entidade maligna chamada liberdade.

  22. valupi, por vezes até parece que queres pertencer à primeira metade. a democracia directa pode ter representantes, pode ter uma estrutura. como podes constatar, vivendo na era das redes sociais e das petições públicas, as propostas são discutidas pelos que estão interessados e, do mesmo modo, qualquer um pode ser autorizado a votar, o que até pode ser feito por via informática. vai lá quem está interessado como, aliás, acontece com a participação em eleições. há já empresas de sucesso cujas chefias são eleitas por todos os elementos da empresa, em igualdade de voto. como qualquer pai atento descobre, as competências para o exercício da decisão advêm da atribuição da responsabilidade, não é a responsabilidade que é atribuída em consequência das competências demonstradas.

    de resto, na situação referida, a da grécia, não sei como podes encaixar a disparidade entre a vontade dos constituintes e a expressa pelos seus governantes na tua concepção de viabilidade.

    quanto à dependência dos poderes económicos, podemos ir pegando em detalhes: podes dizer-me para que serve o cartão do cidadão, quanto é que ele custou ao estado português e quanto é que cada uma das entidades envolvidas arrecadou com o processo desde o seu início? é que eu fui consultar todos estes dados e obtive respostas – exceptuando à primeira pergunta, cuja resposta tive que deduzir sozinha.

  23. Começando pelo fim, não faço ideia de quanto custou o cartão do cidadão. Mas tu fazes, acredito, pelo que podes partilhar. Quanto foi? Aposto que também serás capas de avaliar esse custo. Terás aqui um leitor muito interessado na tua análise e conclusões anexas.

    Dizes que na Grécia há uma disparidade entre a vontade dos constituintes e a expressa pelos seus governantes. Qual é a fonte da tua informação? E em que é que tal colidirá com a legitimidade das decisões parlamentares e governativas? Acaso a Constituição grega proíbe medidas impopulares?

    Por fim, o começo. Se bem te leio, o modelo de democracia directa que concebes passa por usar uma rede informática que permitirá recolher a opinião e decisões de toda a gente interessada em participar, independentemente do seu número. Acrescentas dois exemplos, a empresa e a família, onde o modelo comunitário é perfeitamente exequível, quiçá desejável. Acontece que tal solução deixa na mesma o problema que um conceito de democracia directa acarreta para Estados com a dimensão de países, com milhões de habitantes e vasta arquitectónica cívica. Sintomaticamente, ignoras o ponto que te apresentei como dificuldade maior, a questão das decisões menores. É que se é consensual que certos temas – como o aborto e a regionalização, para referir casos concretos – podem e devem ser referendados, já tal não se admitiria para os milhentos actos de gestão corrente e política em cada ministério e no Parlamento. Aliás, a democracia directa acaba com a Assembleia da República, trocada pela “rede informática” na tua versão. Escuso-me de desenvolver as insanáveis disfunções e perversões que tal provocaria, apenas lembrando que é simplesmente absurdo estar a pretender aplicar o modelo da discussão pública em todos os níveis da execução governativa.

  24. valupi, convido-te a descobrires sozinho a resposta a essa pergunta, mas aviso já que dá bastante trabalhinho, terás que passar pelos artigos em diário da república relevantes, relatórios da multicert e da sibs, incm, etc..

    e escudas-te com o que é “consensual” ou de ‘inútil desenvolvimento’, ou “absurdo” para não explicares porque raio o conceito é inviável. ora explica lá.

    pergunto-te também como é que a implementação de medidas como as que acontecem na grécia e começam a acontecer em portugal é remetido para o campo das “decisões menores”, que dispensam referendo.

  25. ah, a grécia: li em vários artigos que referiam sondagens com essa média de resultados. se tiver tempo tentarei fazer o tracking desses artigos. um deles, creio, era do guardian.

  26. O conceito é inviável por uma mera questão de logística. Se não percebes porquê, devemos estar a falar de coisas diferentes.

    O que acontece na Grécia não foi remetido para o campo das decisões menores, mas para o da legitimidade política e constitucional.

    As sondagens não são fonte de soberania. Creio que também é uma evidência que não carece de explicação.

    Não farei essa investigação a respeito do cartão de cidadão, por não ter tempo para tal. Tal como não tenho tempo para investigar as contas da Saúde, da Educação e da Defesa. Se bem te entendo, não te chega a ti ter feito essa investigação e estares agora na posse de uma certa informação obtida pelo teu trabalho, também pretendes que tal processo seja repetido por terceiros (eu, no caso), talvez até por todos os cidadãos portugueses. Qual é o sentido disto?

  27. entrando levianemente no tema, o sentido disto é que se o dinheiro sai de uns lados é porque foi parar a outros, sorvedouros, que não sei quem são mas só podem existir. Ainda por cima o jogo não é de soma nula porque está sempre a ser feito mais dinheiro. Dir-se-ia que há um conflito entre Estados e bancos que está a transformar em estados e Bancos. Tudo isso me interessa pouco, mas interessa-me os cidadãos, a humanidade. A democracia parece encenação sob efeito de forças maiores.

    Susana: vocês vivem mais do que nós e não é por acaso, é para deixar a prole e as coisas mais encaminhadas para o futuro. Vê lá então se não esquecem que Portugal está riquérrimo que eu fartei-me de farejar até encontrar a maior mina de lítio da Europa (somos o 5º produtor mundial do elemento do futuro), que botei aqui algures sob guarda salicílica, e até apanhei uma sinusite radiocoisa porque andei baralhado com um cheirinho a urânio, mas verdade se diga que desde pequenino sempre gostei de um snif de volfrâmio portanto acho que não faz mal.

  28. valupi, pois devemos. fico espantada com o teu conceito de democracia que implica que os governos possam tomar quaisquer decisões, mesmo quando contrárias aos seus programas eleitorais, sem aprovação dos eleitores. vais então ser feliz com passos coelho.

    quanto ao cartão do cidadão, foste tu que há uns anos o mencionaste, se não erro, como uma das conquistas fantásticas do governo sócrates. já na altura te interpelei acerca do assunto, que desviaste para canto. foi nessa altura que fui inquirir e encontrei muitos milhões, com pouca vantagem. até porque um dos princípios, o do cruzamento de dados, foi cancelado passados uns dois anos de (muito) investimento por ter sido declarado inconstitucional. os relatórios de contas da sibs informam que o cartão do cidadão tem elevada responsabilidade nos elevados lucros da empresa. deves saber porque achaste bom. se não sabes, então participa, não fiques pela admissão de que é bom só porque josé sócrates disse que era. encantas-te com a retórica e não inquires o fundamento.

    א, essa é uma das coisas que me surpreendem nas análises daqueles que vêm sempre com a crise internacional para justificar tudo, como se o dinheiro (incluindo o do estado) não tivesse ido parar a algum lado. o lítio não é uma das coisas que os chineses querem daqui? parece-me que têm todas as condições para conseguirem ficar com ele.

  29. ah, (valupi) posso ainda acrescentar que a única coisa interessante no cartão do cidadão é o certificado digital, que até podia ser usado para as votações que referi. gostava que explicitasses qual o problema de tudo ser votado.

  30. susana, se falámos do cartão de cidadão neste blogue, não te será difícil recuperar essa conversa para conferirmos do rigor da tua memória e da relevância da minha opinião ao tempo. Admito que sim, mas não me recordo, e ainda menos consigo ver qual a sua importância para a temática dos Governos estarem reféns do poder económico – motivo pelo qual invocaste ter informação privilegiada acerca dos gastos com o cartão – sem que apresentes o caso com factos e comparações. Até este momento, estás apenas no campo da pura insinuação.

    O problema de tudo ser votado, e vou assumir que por “tudo” nem sequer estás mesmo a referir-te a tudo, é o do tempo. Votar leva tempo. Leva tão mais tempo quão menos informação os eleitores tiverem à partida. Não é possível votar tudo, nem a maior parte, nem uma pequena parte num regime aberto ao voto popular, pois tal implicaria um qualquer processo de discussão prévia, o qual só faz sentido ser usado em questões pontuais, como aquelas que se referendam. Por isso é que existem partidos, os quais representam os eleitores e dispõem de quadros que se especializam na actividade legislativa e executiva a tempo inteiro. Esses quadros, por sua vez, tendem a ser escolhidos de acordo com critérios de valor intelectual e moral que prometem as melhores condições para o exercício do poder.

    Ligada com esta problemática acima está a tua seguinte frase:

    “fico espantada com o teu conceito de democracia que implica que os governos possam tomar quaisquer decisões, mesmo quando contrárias aos seus programas eleitorais, sem aprovação dos eleitores”

    Gostava que me indicasses algum preceito constitucional que obrigue os partidos a cumprirem os programas eleitorais. Se não encontrares, e não vais encontrar, isso implicará que a Constituição deve ser revista nesse sentido? Aguardo a tua resposta para continuar a desenvolver o raciocínio.

  31. valupi, claro que será muito difícil, pois já não recordo a data nem o contexto. não me importo nada com a tua impressão de insinuação; deu bastante trabalho aceder a toda essa informação, mas já não recordo o percurso, nem os totais (que não apontei), apenas que os milhões, muitos, se iam acrescentando ano a ano. se houvesse algum problema com as insinuações, no entanto, irias começar a pôr em causa aí metade dos comentários no blogue, até teus, suponho.

    a discussão prévia não tem problema nenhum, podes até dar um tempo proporcional à relevância da medida (que pode ser medida em função de quantias de investimento, número de pessoas afectadas, etc.), e depois vota-se. podes também ter uma organização piramidal. podes ter abertas ao voto público as matérias discutidas pelos parlamentares, cuja discussão pública é acessível a quem estiver interessada e ter discussões paralelas em redes sociais com streams de assuntos encadeados para um acréscimo de pontos de vista. you name it. assim é que não, pois está a funcionar mal num mundo em que o paternalismo está a ser combatido.

    “Por isso é que existem partidos, os quais representam os eleitores” parece-me pouco compatível com a noção de que a partir do momento em que estão no poder esses partidos podem deixar de os representar. vejamos, só um programa eleitoral tem legitimidade plena na persuasão dos eleitores. estando ou não na constituição, se um programa eleitoral não serve para vincular um partido às suas propostas eleitorais, essa será justificação suficiente para demitir os eleitores de votarem. se te faz sentido, muito bem. a mim não.

  32. ainda por cima, se achas que entre 10 milhões de votantes não há tempo para conhecimento das matérias e respectiva votação, como pode então haver essas condições com apenas 130?

  33. A busca por “cartão de cidadão”, no motor de pesquisa do blogue, dá apenas 5 resultados. Em nenhum temos essa conversa que referes ter acontecido, mas num deles fazes referência ao cartão:

    https://aspirinab.com/valupi/dont-fuck-with-mr-zero/#comment-94878

    Isso quer dizer que teríamos discutido, e acesamente de acordo com a tua memória que até me põe a adjectivar como fantástica essa iniciativa, numa caixa de comentários que não teria tido esse tópico à cabeça. Ora, não me lembro nem de uma coisa nem de outra. Não me lembro de discutir contigo esse assunto, nem me lembro de alguma vez me ter referido ao cartão nesses termos ou com esse sentido. Contudo, não nego que tal possa ter acontecido, até porque tenho opinião favorável e poderia ter defendido a iniciativa com entusiasmo sincero ou retórico – só que ao mesmo tempo a minha apreciação é distante, daí a estranheza em relação ao que referes.

    O que dizes ser uma insinuação não é suposto ser importante para ti. Trata-se é de algo importante para mim nesta conversa, pois continuo sem saber do que falas exactamente. E cada vez a coisa me parece mais bizarra – o que também não tem mal algum, apenas registo – pois afirmas que tiveste muito trabalho para chegares a uma conclusão sem números, apenas com a impressão de gastos aos milhões ano após ano. Bom, e daí? Isso que declaras não tem qualquer significado, pois nos está a faltar o contexto e os factos. Assim, qual é a moral da história, afinal?

    Dizes que as discussões para fins legislativos, quiçá executivos (não estás a precisar, pelo que não sei qual o âmbito do que propões), podem ser abertas à participação e voto público. Pois sim, e? É que a questão não se levanta pelo lado da possibilidade. No campo das possibilidades, o céu é o limite. Trata-se é de encontrar um modelo onde tal discussão e votação fosse exequíveis e justas. Enquanto tal modelo não for sequer proposto, falar em paternalismo do actual regime é apenas displicente demagogia.

    Em relação à problemática dos programas eleitorais, adivinho-te na gozação. Porque é absurdo querer vincular os partidos aos programas eleitorais quando uma parte deles nunca os poderá sequer pôr em prática, posto que serão oposição, e a outra parte tem a responsabilidade de apresentar um programa de governo, o qual é suposto ser sempre distinto do programa eleitoral tanto na forma como no conteúdo. Aliás, um partido que se agarrasse ao programa eleitoral ao ponto de anular a adaptação à realidade, sempre mutável, seria um partido fundamentalista e a sua concepção da política não seria democrática. Os eleitores não elegem sacerdotes cuja missão é proteger os dogmas apresentados em campanha, elegem cidadãos que se comprometem a resolver os problemas o melhor que souberem e puderem. Caso não o façam, os eleitores terão ocasião de escolher outros finda a legislatura ou o Parlamento, até o Presidente da República, poderá derrubar um Governo que não sirva os interesses nacionais.

    Lembro-te que nem na Grécia existiu uma democracia onde todos votassem tudo, sem delegação em representantes. O que aparentas propor, ou assim me parece, não tem lugar nas democracias modernas, só em grupos comunitários de tipologia tribal. E mesmo assim, como nos mostra a antropologia, há sempre hierarquias.

  34. Mais uma vez te adivinho a rir. Achas que 10 milhões a discutir um assunto não o tornam de resolução mais demorada porque mais difícil e quantitativamente mais extenso quanto ao processo de debate e recolha e validação dos resultados? E os custos disso tudo, quem os paga? E que dizes, já agora, quanto à exigência de conhecimentos especializados em tantas e tantas matérias? E como lidas com os agentes políticos e sociais que farão campanhas para explorar potenciais iliteracias, ignorâncias e preconceitos da população? Se os eleitores quiserem expulsar os ciganos, porque andam aos tiros nas zonas infantis dos centros comerciais e vendem droga ao pé das escolas, vamos deixar nas suas mãos a decisão? Ou as sondagens só devem servir como critério político quando são a favor das nossas posições?

  35. eu nisso do cartão de cidadão não me intruso, mas, sim Susana, os chinocas e os alemães, – agora tudo o que é importante é a pilhas de lítio -, e nós exportamos bruto em vez de processado, que burrice!

    E agora sumiu o ouro de Fort Knox, e era lá que estavam as reservas portuguesas, e o DSK levou com aquela porque andava a farejar o assunto das 200…

  36. valupi,, disse “se não erro” e posso até ter errado, ou a pergunta pode ter sucedido noutro formato de comunicação, sei lá. a lembrança que tenho é só essa: de te mostrares entusiasmado com o cartão do cidadão, de eu ter perguntado para que servia e tu não teres respondido.

    a questão relevante é esta: o cartão do cidadão custou muito dinheiro ao estado. ora, o que eu queria que verificasses por ti próprio é a dificuldade em descobrires quanto. repara que um governo que se pretende honesto terá todas as vantagens em apresentar esses dados. na facilidade actual, estivesse essa informação voluntariamente disponibilizada, tu conseguirias encontrá-la em 10 minutos.

    quanto ao resto, não me vou alongar. se procurares na wikipedia “Participatory democracy” encontrarás modelos. tens aí alguns links para coisas interessantes, como a ‘open-source governance’. e pensa na wikipedia. como é óbvio, se tiveres um projecto governamental qualquer e uma estrutura wiki ao teu dispor, podes elaborar os projectos de modo colaborativo. quem quiser contribui e há muito mais massa crítica a aferir, avaliar, criticar, e refinar o objecto. e não custa um tostão, porque é voluntário. mais responsabilidade e mais cidadania. mais participação ->maior transparência e maior concertação. mais governabilidade. e podias ter ainda outros modelos de voto e de contagem dos votos, não tenho tempo para elencar e descrever, se queiseres terás que procurar; uns favorecem a diversidade partidária e inclusão de partidos pequenos, outros a governabilidade (em que tu, ao votares numa série de PESSOAS por ordem de preferência, podes não ter maioria no primeiro mas ter no segundo mais votado, o que favorece o consenso e a serenidade), etc.. o modelo que temos, como saberás, favorece os maiores partidos, propiciando uma disparidade entre totais e representação que consolida o bloco central.
    menos corrupção, claro. é verdade que isto dá pouco jeito a quem está no poder, mas isso é algo que a tua candura se recusa a aceitar, pois é avesso ao espírito de missão que vês nesse pessoal. mas até podias esquecer isso tudo e ficar no modelo actual. os momentos de grandes decisões são aqueles que pedem referendos, dizes tu. este, na grécia (e, já, agora, em portugal), não é um deles?

    não vou prolongar mais esta discussão, mas deixo-te aqui um presente. é muito muito bom. e bastante esclarecedor.

    http://topdocumentaryfilms.com/lets-make-money/

    http://www.imdb.com/title/tt1307963/

  37. ah, e não te esqueças que a europa, que só tem união monetária mas não tem verdadeira união política, já está a fechar as fronteiras. a tua previsão quanto aos ciganos não demorará muito. o modelo em vigor não gosta de ciganos, só é liberal na falta de regulação nos negócios, mas é a favor da intervenção do estado na nacionalização dos prejuízos privados (ver decisão socialista quanto ao bpn) e é anti-liberal na circulação de pessoas. a saída do euro, para fomentar exportações, será o desfecho mais provável mas, entretanto, ainda nos vão chupar o que pudermos espremer e vender o que resta de bens públicos lucrativos. o psd, nesse campo, continuará a fazer o servicinho dos governos anteriores. o modelo liberal convém aos governos intermitentes, pois baseia-se no lucro imediato, sem visão de médio prazo.

    sabes que no século passado havia em portugal pessoas que andavam com um cesto a apanhar cagalhões da rua, pois não tendo animais essa era a única forma de estrumarem as minúsculas culturas que conseguiam plantar nuns retalhitos de terra, muitas vezes à sucapa. culturas de sobrevivência. agora nem essas são possíveis.

  38. א, claro que exportamos em bruto. como poderás confirmar se quiseres ver o documentário que deixei ao valupi, em bruto é melhor negócio (para quem compra, claro) e esse procedimento diz que nós somos apenas lacaios, no mundo actual. essa realidade é camuflada de forma sistemática pelo engrandecimento da nossa história, que dá aos portugueses a ilusão de que contam, de que têm algum prestígio no mundo, enquanto se afundam devagar. que pena não termos aproveitado a segunda oportunidade de ainda sermos espanhóis. a história da ibéria teria sido uma bem diferente, seriámos um país com a força da frança.

  39. susana, lamento que não continues a discussão, fico eu a perder.

    Sim, cada vez me convenço mais de termos falado acerca do cartão, mas mantenho-me sem conseguir recordar onde, nem consigo encontrar no Google essa referência. Acharia era muito estranho que essa conversa não tivesse sido no blogue, até apostando que, a ter ocorrido, foi nos primeiros meses deste ano. Outras alternativas, parecem-me altamente improváveis.

    A importância de encontrar essa conversa é meramente anedótica, seria só para confirmar o que a tua memória regista e dar-lhe contexto factual. Quanto ao resto, já deixaste com toda a clareza a tua posição. Tal como o documentário que sugeres defende, a tua visão é fundamentalista. Estás num processo, ou numa conclusão dele, que radicaliza a crítica ao capitalismo e passaste a não confiar nas instituições políticas dos países onde vigore esse sistema. Daí a referência a uma investigação avulsa ao cartão de cidadão, a qual resulta numa mera impressão da qual nem registas os dados, mas que te chega para confirmar que há uma conspiração dos governantes contra os cidadãos. Desenvolveste até um critério populista: “Toda a informação dos gastos do Estado deve poder ser encontrada por todo aquele que tiver um computador ligado à Internet e 10 minutos para gastar.” Chegada aqui, imagino que a tua paciência para conversas onde impere a racionalidade seja pouca ou nenhuma.

    As modalidades de participação democrática, de que trazes alguns exemplos, não alteraram em nada a questão essencial. É o mesmo que acrescentar números a números; continuamos à mesma distância do infinito. Porque se está apenas no campo abstracto, enquanto a política é feita no concreto das decisões. Quer isto dizer que a mera apresentação de uma feira de modelos de participação democrática, alternativos ao actual, não chegaria para alterar fosse o que fosse. Só com o compromisso de escolher um deles, e o compromisso de o fazer aprovar pela comunidade, é que algo iria mudar. Não te creio, pelo que leio nesta discussão, para aí virada. Parece-me que te chega o protesto e a pornografia do catastrofismo.

    Por fim, fazes uma curiosa declaração que não entendi na sua totalidade:

    “menos corrupção, claro. é verdade que isto dá pouco jeito a quem está no poder, mas isso é algo que a tua candura se recusa a aceitar, pois é avesso ao espírito de missão que vês nesse pessoal.”

    A parte que não entendi é aquela que rodeia esta ideia: governar deve corresponder a um espírito de missão. Sei bem que esta ideia não se encontra explicitamente no que escreveste, mas, como me atribuis visões, gostava de deixar uma versão mais autorizada.

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