Já não é possível regressar aos mercados

Porque já regressámos. Já lá estamos. Já está feito. Foi mais fácil do que fatiar manteiga com uma lâmina de barbear aquecida. Um notável caso em que a união fez a força. Só que não estamos a falar da união dos portugueses, da união da coligação governativa ou até da união dos neurónios na iluminada cachimónia do primeiro-ministro. Falamos da União Europeia, falamos do sistema, falamos de um contexto já com largos meses de tendência que por pouco até permitiria à Grécia igualmente regressar aos mercados e anunciar que se tinha afastado de si própria. Portantos, triunfo propagandeado e trunfo gastado, segue-se o quê, pazinhos? Um anticlímax ao retardador.

Por um lado, o empobrecimento da classe média e o empurrão dos pobres para a indigência fará o seu inexorável caminho. Tendo em conta os constrangimentos do quadro partidário, onde não há neste momento nenhum partido que acene com uma qualquer alternativa à situação, a sociedade irá tomar directamente nas suas mãos a manifestação dos seus interesses. 15 de Setembro lá para Abril ou Maio. Por outro lado, os mercados continuarão a ignorar olimpicamente a retórica dos capatazes que nos desgovernam e manterão os olhos fixos no BCE. A aritmética continuará a esmagar a semântica no que diga respeito à descida ou subida dos juros. E a economia internacional não vai deixar de se manter caótica só para agradar ao Excel do nosso ministro das Finanças.

A emissão de dívida, numa operação para português ver, acaba por ter uma enorme vantagem: permite afastar essa cenoura do arsenal demagógico da direita que nos atraiçoou, dado que fica patente a completa ausência de nexo entre a lógica dos leilões da dívida pública e os números dos principais parâmetros económicos nacionais. Quer dizer que até um Governo de coligação MRPP-PNR regressaria aos mercados a correr e a saltar nesta altura do campeonato. Falta apenas que apareça alguém interessado em fazer oposição.

3 thoughts on “Já não é possível regressar aos mercados”

  1. Nem mais. Curto e lúcido comentário. Por outro lado…se não houver um rasgo, de alguém, nas hostes do PS, receio que nos vamos arrastar, nós povo, como lesmas, até ao fim da legislatura. Quiça, para além dela.

  2. ai que não gosto nada de te ouvir dizer portantos nem pazinhos – arranha-me toda. quem me dera que tivesses dito foda-se, segue-se o quê bois d’areia ladinos?

  3. “15 de Setembro lá para Abril ou Maio” ?! Não estou nada certo disso, meu caro Val!
    “É um fenómeno curioso! O país ergue-se INDIGNADO, moureja o dia inteiro INDIGNADO, come, bebe e diverte-se INDIGNADO, mas não passa disto! Falta-lhe o romantismo cívico da agressão. Somos, socialmente UMA COMUNIDADE PACÍFICA DE REVOLTADOS!”

    AQUI TEMOS ESTE POVO! TUDO DITO, EM MEIA-DÚZIA DE LUMINOSAS PALAVRAS COMO SEMPRE SÃO AS DO GRANDE MIGUEL TORGA!

    É certo que, como diz Pedro Barroso, numa das suas grandes canções,

    “de 30 em 30 anos, às vezes mais, 50, até acreditamos, rumamos à tormenta, batemo-nos e vamos para a liça do futuro, com a nossa força grande, antiga! Mas, contados pelos dedos, assuntos bem saldados, ficaram intenções, castelos abandonados, crianças sem saber, o sol para os reformados, remessas de emigrantes, ah! … e o mar!
    ELES voltam, voltam sempre, cinzentos, sorridentes, cheirosos, influentes, de todos os quadrantes e por todas as frentes, com cupidez te amansam com polimento avançam e….zás! Caíste!

    Voltaste a cair, nas mãos da “direita” mais desgraçada que Deus ao mundo deitou!

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