E tu, Marcelo? Por onde tens andado?

Marcelo Rebelo de Sousa diz não conseguir perceber o desaparecimento do ministro das Finanças.

“Estranho muito esse desaparecimento durante tanto tempo. Não dá para perceber se é por estratégia, por afastamento, ou por discordância. Em qualquer caso prejudica o primeiro-ministro e o Governo.”

Na mesma ocasião Marcelo elogiou a postura do Presidente da República: “O presidente Cavaco Silva tem adoptado uma posição prudente, reservando-se para o período pós-eleitoral e esperando o momento certo para agir, o que me parece um bom compromisso.”

Fonte

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A situação política de permanente ingovernabilidade, desde a tripla traição de Barroso (traiu o PSD, traiu a governação do País e traiu o compromisso com o eleitorado), explica-se com uma frase: decadência da direita portuguesa. É uma crise estrutural e ideológica, por isso de longa duração. Por um lado, não têm recursos humanos, sangue novo, talentos com menos de 40 (50?) anos. Por outro, não têm visão, ideias, caminho. O resultado, posto que insistem em lutar pelo Poder, só podia ser um: o recurso às tácticas mais hipócritas, insidiosas, difamantes e conspirativas que fossem capazes de montar sem perderem o bom nome ou irem de cana. O modelo supremo desta paupérrima condição é Cavaco Silva, o qual conspurcou a Presidência da República e viu-se premiado com a cumplicidade da elite e mais um mandato. Logo a seguir, vem o doentio Pacheco Pereira, o qual chegou a chafurdar – enquanto deputado e em sede de Parlamento! – nas escutas ilegais de conversas privadas. Saiu delas a dizer que eram avassaladoras e nada mais fez a respeito de tamanha gravidade. Talvez agora lhe sirvam como consolo nas insónias.

Marcelo, contudo, representa a decadência da direita com ainda maior fulgor, precisamente pelo aparato aristocrático com que a esconde sob o brilho retórico individual e colectivo propósito ilusionista. Neste episódio do remoque acerca de Teixeira dos Santos, juntando a sua voz ao coro dos acéfalos, nunca o ouviremos a retractar-se da boquinha que lançou nem a elogiar o Ministro das Finanças por ter estado a defender o interesse nacional exactamente como deviam ter estado todos os agentes políticos: com discrição, trabalho e serviço. Para ele a política consiste nesta guerra morna da vozearia à moda de Cascais e da atoarda compulsiva, a qual basta para lhe garantir a manutenção da sua valiosa marca na indústria da política-espectáculo. Acresce que os ganhos para a sua actividade profissional como jurista deste protagonismo mediático são imensos – não sendo as delícias da vaidade, e mesmo do puro gozo, as benesses de menor importância.

Teixeira dos Santos tem estado desde 2005 ao lado de Sócrates na defesa de Portugal. Ocupa um dos mais complexos e desgastantes cargos, dificuldades aumentadas desvairadamente pelas crises económica e financeira a partir de 2008. Podemos discordar do modo como o fizeram, podemos achar que erraram. Mas não reconhecer que há uma cada vez mais tarimbada força e dignidade na dedicação com que o continuam a fazer – e no que acabam de alcançar para o PEC V – é a prova acabada de que esta direita, na sua impotência, se desligou da sociedade e pessoas que alega compreender e representar. Estão reduzidos a um queixume raivoso onde não confiam em ninguém, a começar por si próprios. Não espanta que poucos, e broncos, sejam os que confiam neles.

18 thoughts on “E tu, Marcelo? Por onde tens andado?”

  1. Esqueceu-se de acrescentar que a direita portuguesa (o que quer que essa expressão abranja) come criancinhas ao pequeno-almoço, é responsável pelo aquecimento global, está por detrás da crise mundial e não lava os dentes antes de se deitar.
    E sim, já sei e convivo bem com o facto de que o Adolfo (?) tinha mais piada.

  2. p.s. (é mesmo post-scriptum): calculo que as declarações da troika o incomode, mas há que manter um pouco de compostura.

  3. Não posso senão subscrever por inteiro o magnífico texto de Valupi. Devo-lhe, no entanto, um especial agradecimento pelo último parágrafo que considero uma magistral bofetada sem mão na nossa pequenina “direita”, pelo que tem dito e continuará a dizer, porque de mais não é capaz!

  4. o memorando com o fmi entretanto aprovado é o pec4 que o passos chumbou. claro que o ppd contava que o fmi viesse impôr medidas mais drásticas, tão caras aos liberais, mas lixou-se e agora é obrigado a aprovar o que antes reprovou. e como consequência vão perder as eleições que é para não andarem a brincar aos fmi’s e às eleições.

  5. João Dias: uma ano mais cedo talvez? Com o apoio de quem, já agora, se não é pedir muito. Lembras-te do que invocou Passos a nível doméstico para chumbar o PEC IV?

  6. Ouvi o Camilo Lourenço dizer que os senhores da Troika fizeram mais em quinze dias que o governo em seis anos! Que sabem mais da politica Portuguesa que os nossos políticos e que Portugal poupava dinheiro em contratar estes senhores para nos governar. Aqui Camilo Lourenço que assuma a sua culpa – ao contrário de mim que infelizmente só tenho o sexto ano, andei em explicações e autopropus-me a exame e num ano fiz o quinto e o sexto – não andei a romper o cu das calças nas cadeiras dos liceus que fará nas universidades.
    Todos temos a mania de nos desculpar e os defeitos que detectamos nos outros em nos ou nos nossos são virtudes. Mais a mais se os senhores da Troika em pouco tempo detectaram o mal no nosso Pais a alguém se deve. Ou o PECIV não era uma referência? Não temos o hábito de gabar o que e do estrangeiro e o que e Nacional não presta?
    Porque não fizeram o mesmo na Grécia e na Irlanda? Não seriam os mesmos! Se não foram a instituição era. E fácil descascar nos outros. Alias se não fosse assim o que seria dos Camilo Lourenço que não fazem outra vida se não correr de uns estúdios de televisão para outros.
    Já o disse varias vezes que se fossemos um povo honesto, cumpríssemos todas as obrigações, neste momento Portugal era um oásis. Não tenho dado conta do Camilo Lourenço e outros criticar as reformas douradas de Catroga, Campos e Cunha, do roubo no BPN, que há pilhas galinhas nas prisões Portuguesas e Oliveira e Costa e tantos outros andam cá fora a gozar os nossos impostos. As casas na quinta da Coelha ofertadas a amigos. Enquanto gente como eu que teve a (in) felicidade de ser filho da pobreza, comer o pão que o diabo amassou, que o que a vida lhe deu foi trabalho e mais trabalho seja obrigado a ouvir que a culpa e dos Portugueses.
    Comigo nunca foi gasto um tostão em propinas. A quem andou a gastar dinheiro nos estudos e nunca foi alem de um servidor do seu patrão – leia-se comunicação social, de social não sei o que tem, para mim e anti-social – vem agora dizer que três estrangeiros sou mais finos que os Portugueses e não sinta vergonha do que diz!
    Sinto vergonha dos que andaram a romper o cu das calças nas cadeiras das universidades Portuguesas. Deviam ir para a estiva.

    PS: Algumas palavras não tem acentuação por defeito das teclas o que peço desculpa.

  7. Cara Penélope, o pedido de ajuda externa não careceria do apoio de ninguém; era uma decisão soberana que cabia ao Governo, tanto mais legitimado por não estar ainda demissionário. E duvido muito que o PPC se opusesse, embora tirasse daí os óbvios dividendos políticos (algo que o Governo demissionário quis – literalmente – a todo o custo evitar. O que hoje a troika disse mais não é do que um eco longínquo das diversas vozes que alertaram para que uma taxa de financiamento nos mercados da dívida superior a 7% seria suicidária. Pois tivemos que chegar aos 9% para pedir ajuda.

  8. Esse palhaço rico chegou ao grotesco, nesse mesmo programa, de tornar pública a táctica que o Passos deve utilizar, vai utilizar: deve negar tudo o que o PS disser e defender exactamente o oposto. Basicamente e a seco. Sem mais.

    Há muito que o gajo faz análise política como se de comentário desportivo se tratasse. Mas do mau, porque frequentemente esses são obrigados a reconhecer os méritos do adversário. Ele nem morto.

    Eu acho que a troika também devia ter dirigido parte das suas preocupações para a existência de esqueletos na nossa comunicação social.

  9. Val, Justamente pelo sentido de servico mostrado por Teixeira dos Santos e que Socrates e o PS fizeram muito mal em o nao terem convidado para as listas de deputados, independentemente dos desentendimentos que possam ter existido dentro do Governo (quem quer que tenha trabalhado num sitio sob o fio da navalha sabe que esses desentendimentos vao sempre existir). Teixeira dos Santos ate podia ter recusado o convite como fez Luis Amado, imagino que esteja ansioso por regressar a Universidade, mas a dignidade de alguem como ele teria exigido que o convite tivesse sido feito. Note-se que entre o comportamento de Teixeira dos Santos, de quem nunca publicamente se ouviu uma critica a Socrates e o de Amado, que as vezes parecia ter uma agenda propria com o que dizia nas entrevistas, vai um mar de distancia…

  10. Jaime Santos, Sócrates disse que Teixeira dos Santos decidiu não continuar na política, pelo menos por agora. Talvez nem haja qualquer problema entre eles, sabe-se lá. Uma coisa é certa: não acredites em tudo o que aparece na imprensa.

  11. 1)João Dias, se o governo tivesse pedido ajuda há um ano, sem o trabalho de pressão entretanto desenvolvido junto da UE, as condições da ajuda seriam semelhantes às impostas à Grécia e Irlanda, incomensuravelmente mais gravosas. E os juros subiriam a pique tal qualzinho no passado mês de Março/Abril, chegando tal qualmente aos 9% de que falas e mais. Manda o bom senso e o realismo que não menosprezes aquele trabalho e as vantagens a que conduziu e que reconheças que uma crise política então teria exactamente o mesmo efeito que a actual no aspecto financeiro. Ao FMI não interessa nada dizer isto, claro!

    2)A política também é uma arte. Só que nem todos a dominam.
    Todos sabemos que o que interessava à oposição, sobretudo ao PSD, depois de terem perdido as eleições em 2009, era dificultar de tal modo as condições de governação que o governo, minoritário, se demitisse. Não andando Sócrates a dormir, também ele estudou o melhor momento para tal acontecer. Lógico e legítimo!
    Ora, um pedido de ajuda em 2010 conduziria inevitavelmente à queda do governo, nomeadamente pelo aproveitamento político a que te referes, traduzido numa moção de censura, por exemplo, ou numa intervenção de Cavaco entretanto reeleito. O oposição, leia-se o PSD, não chumbou as diversas medidas de austeridade apresentadas ao longo de 2010 (e, mesmo assim, exigiu repetidamente que fossem menos drásticas, para conquistar eleitorado) por tacticismo – apostavam então no desgaste e Passos não estava ainda “preparado” (continua a não estar, teve de ser empurrado). Competiu ao governo e, em particular, a Sócrates, fazer também o seu próprio jogo. E fê-lo com sabedoria. Basta olhar para as sondagens do PS antes de Passos ser obrigado a vir para a praça pública falar e as mais recentes sondagens. De tal modo que não é claro quem vai ganhar estas eleições. Não é obra?

  12. Penélope, há demasiados “se’s” no teu raciocínio e é-me difícil contra-argumentar o contra-factual. No que a factos respeita: a troika disse preto no branco que i) as medidas que constavam do PEC IV eram insuficientes e ii) que as medidas poderiam ter sido mais suaves caso a ajuda financeira tivesse sido pedida antes. (http://ec.europa.eu/economy_finance/articles/governance/2011-05-05-portugal_en.htm)
    Cada um fará depois as interpretações que lhe apraz, mas a prova cabal de honestidade intelectual será pedirmos que os números a que a troika teve acesso sejam revelados; supostamente o Governo nada tem a perder e ficávamos todos muito mais esclarecidos/confortados/aquietados.
    Não menosprezo o trabalho de ninguém e acho que o Ministro das Finanças se esforçou; simplesmente não conseguiu, como ninguém conseguiria, fazer omeletes sem ovos.
    Bom, para teoria da conspiração, teoria da conspiração e meia; parece-me, no entanto, que sobre-estimas o tacticismo do PPC. Mas num ponto estamos de acordo: é efectivamente não ganhar estas eleições e não as ganhar por “landslide”.

  13. Caro Manuel Pacheco – mesmo sem teclas lê-se perfeitamente. Não peça desculpa – sugiro eu. Quem não gostar ponha de lado. O caminho é sempre em frente.

  14. Esta análise empírica do Autor (Valupi) mereceria constituir o mote para um estudo sociológico aprofundado e sério sobre esta componente de explicação demográfica, social e sobretudo etária da nossa classe política actual, nomeadamente nas forças conservadoras, também ditas “de Direita”, onde fenómenos de degenerescência mental e moral como os de Vasco Graça Moura e António Barreto, só para citar os nomes de maior peso intelectual (mas a gama completa deste topo vai até à base, constituída por Crespos e Manuelitas, passando por toda a espécie de sortido intelectual), começam a ser mais do que relevantes, significativamente predominantes.

    Quanto a Marcelo Rebelo de Sousa, que miscigena exemplarmente os principais ingredientes que constituem a compósita mistela – idade, posição social, formação académica, brilhantismo intelectual -, é lamentável que não coloque as suas notórias capacidades ao serviço da elevação do nível da modesta opinião pública portuguesa, preferindo abusar dela e contribuir para a sua evidente manipulação e menorização.

    Mais triste ainda é constatar que, apesar de patente o insucesso desta estratégia desastrada, não haver afinal capacidade cognitiva que baste para perceber esta claríssima e reiterada evidência, que a 5 de Junho prodigalizará, decerto, a possibilidade de recolha de mais uma inequívoca e avassaladora prova…

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