Duas histórias para contar

Cavaco Silva fez a Portugal o que se sabe e o que não se sabe, nem se sabe se alguma vez se saberá. Destruiu a agricultura e as pescas, não introduziu novas indústrias nem renovou as antigas, desbaratou os dinheiros europeus, aumentou o peso do Estado, chefiou um bando de políticos que enriqueceram no Cavaquistão e construiu algumas boas estradas. Durão Barroso jurou que a sua missão na Terra era ser primeiro-ministro de Portugal, prometendo ser o novo Cavaco e o rosto da salvação nacional, mas fugiu cobardemente passados apenas dois anos da realização do seu destino. Santana Lopes não tinha planeado ser primeiro-ministro no Verão de 2004, o resto do País também não. Quando se esperava que Ferreira Leite assumisse a responsabilidade de aguentar com a irresponsabilidade de Barroso, a escolha recaiu numa figura que de imediato – isto é, no seu primeiro discurso como primeiro-ministro – revelou estar completamente à nora com o poder que lhe tinha ido parar às mãos. Os meses seguintes levaram essa impressão ao seu paroxismo, tendo Santana, um circense bluff que surpreendeu quem o admirava como tribuno, acabado por ser a condição sine qua non para a primeira maioria absoluta do PS.

Esqueçamos estas misérias clássicas do PSD. O que está a acontecer em 2012 é algo que não tem comparação com nenhuma situação de que haja memória em democracia. Atente-se. O actual Governo foi preparado durante mais de 1 ano, logo a partir da vitória de Passos no partido em Março de 2010. Teve o apoio fáctico de toda a oligarquia para a sua viabilidade. Teve a cumplicidade decisiva do Presidente da República para a sua existência. Recebeu a protecção do Memorando e da Troika para qualquer medida ideologicamente radical, por mais impopular que fosse, que quisesse tomar. E que se passa agora? As contas do Estado, que este Governo conheceu com absoluto detalhe antes de tomar posse por via da sua participação na negociação do Memorando, estão muitíssimo piores do que em Março de 2011, do que em Junho de 2011, do que em Janeiro de 2012, do que em Agosto de 2012. Os portugueses estão muitíssimo piores hoje por comparação com o que estavam ontem, amanhã por comparação com o que estão hoje. Porque, ao arrepio da moderníssima lipoaspiração e suave dieta, prometidas na campanha eleitoral, estamos perante uma sangria medieval às mãos de carniceiros. O mata-sanos acha que a doença está no sangue, há que retirá-lo do organismo com cortes e sanguessugas.

Portugal está sob intervenção externa e não tem Governo, não tem Presidente da República e não tem oposição. Mas tem duas histórias para contar: aquela de como chegámos aqui e aquela de como vamos sair daqui. A primeira é fácil de contar. A segunda vai ser escrita por aqueles que sabem ler o tempo.

5 thoughts on “Duas histórias para contar”

  1. Para mim as histórias já estão escritas há muito tempo…infelizmente.
    “O triunfo dos porcos” do Orwell, para contar a chegada ao poder destes atrasados mentais, e as fábulas do Lá Fontaine para ilustrar o brilhantismo intelectual de alguns animais.

  2. Excelente post.Sintético. Perfeito.
    Infelizmente não temos qualquer perspectiva de solução no horizonte.
    É quase como na situação do Glorioso, mas bem mais grave.
    Que mal fizeram os portugueses, que mereça tão grande punição?
    Mal informados votaram PSD/CDS!

  3. Para salvaguardar a Democracia torna-se necessário realizar verdadeiras transformações
    que vise regenerar a representação do Povo na Assembleia da República, acabar com a
    exclusividade dos partidos, não esquecer os resultados alcançados nestes últim. 36anos,
    apesar da alternância, ciclicamente estamos em críse porque a economia não consegue
    sustentar o Estado, muito dispendioso para o que produz e, goza de alguma irresponsabilidade nos gastos dos dinheiros públicos!
    Se houvesse interesse em atacar de raiz o problema, não se tinha perdido o tempo que
    o actual governinho tem usado na destruição do tecido empresarial, em três anos seria
    possível preparar a mudança de regime para presidencialista e, nova organização adminis-
    trativa ( não se vai lá só com extinção de Juntas de Freguesia), com economias de escala
    apreciáveis ( só a PR nos actuais moldes custa cerca de 600 milhões/ano)!
    As reformas devem começar no Estado e na sua organização política, num país com pou.
    mais de 10 milhões de habitantes, bastam 150 deputados ( a Holanda tem 14 milhões de
    habitantes e governa-se muito bem com este número), um Presidente com programa de
    governo, cujo chefe de gabinete faria as vezes de p.ministro e respectivos secretários de
    Estado! Redução de Câmaras mais de 300 para pouco mais de 90 mil km2, são muitos
    poleiros e recursos nem sempre optimizados! E, muitos outros campos em que se deve
    agir, sob pena de nunca se ganhar para pagar o Estado! A carga fiscal atrofia o desen-
    volvimento e, incide muito sobre os mesmos!!!

  4. pois está tudo muito certo, tanto o post, como alguns comentáris. tenho uma terceira história para contar, uma história paralela, sem análise intelectual, enfim de somenos importância, que aliás não foi dada nem aqui na comunicação social.”Vale o que vale”. Na manifestação de sábado vi duas coisas que nunca tinha visto: gente a chorar de desespero (um ou dois foram entrevistados rapidamente pela tv sic), o que estragou um pouco aquela noção tradicional da manif “foi bonita a festa, pá” e metade da rua do ouro cheia de forças policiais que pararam o desfile enquanto cantavam o hino nacional e depois desfilaram aplaudidos pelo resto dos manifestantes.

    Parece aquel acoisa das doenças terminais: primeiro a negação (já passou), depois a raiva está em passagem), depois a dor e o desespero – já vi. Espero que não se chegue à fase de aceitação resignada – mesmo que me acusem de acreditar em milagres.

    E fica o Camões.
    http://www.youtube.com/watch?v=Xc_fMCp36mI

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