Deixa arder, é a liberdade do vizinho

Ouvi dizer que Marcelo exigiu a cabeça de uma ministra e ameaçou um Governo por causa de incêndios num ano de extraordinária seca, num mês de incrível irresponsabilidade de quem nele fez queimadas, num dia de absoluto perigo por causa de um furação que estava onde nunca costumam estar, e numa era de alterações climáticas que favorecem o aumento do número e da devastação dos incêndios numa geografia e numa sociedade como a nossa. Os mortos de Pedrógão, e a exploração mediática e política que deles foi feita intensa e ininterruptamente nos meses que precederam os incêndios de Outubro de 2017, deram a Marcelo uma capa de isenção que recolheu aplauso exaltado da direita e aprovação cabisbaixa da esquerda. Matou uma toca de coelhos com uma única declaração de 10 minutos, dando uma injecção de adrenalina ao PSD e ao CDS, satisfazendo o desejo de sangue político do sensacionalismo industrial e brincando ao a-minha-pila-é-maior-do-que-a-tua com Costa.

Ouvi dizer que vários grupos de comunicação social, dos mais poderosos em Portugal, são relapsos na prática de crimes com origem em criminosos que exercem funções na Justiça. Esses crimes cometidos pelo tandem Justiça-Pulhice são não só celebrados como justificados por comentadores pagos ao metro pela imprensa de “referência”. Esses comentadores, mas também os seus editores, estão em campanha para que se consigam reduzir os direitos dos cidadãos quando confrontados com os recursos totalitários da máquina policial e judicial. Esses editores, muitas e muitas vezes pelo teclado desses comentadores, prosseguem uma agenda onde a Justiça é utilizada às escâncaras e à gargalhada para atacar alvos políticos.

Ouvi dizer que uma associação da GNR declarou publicamente que os suspeitos de crimes não devem estar abrangidos pela Constituição, podendo-se fazer com eles o que der na mona das autoridades que calhem ter de lidar com essa escória – por exemplo, tirar fotos giras onde apareçam como os condenados que serão e espalhá-las pelo mundo imundo, mas que a imaginação não esmoreça com este exemplo pois não faltam ideias.

Ontem, ouvi uma procuradora a achincalhar um cidadão que o Estado colocou à sua frente durante o seu horário de trabalho. Fiquei convencido de que essa procuradora teria gostado de bater ou cuspir no fulano a quem tratava como alimária a pedir focinheira e chicote. E ainda mais convencido estou de que, a tê-lo feito, Marcelo continuaria impávido e fotogénico a contemplar as labaredas que nos devoram a liberdade.

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Esta excepção confirma a regra do silêncio mediático sobre os abusos do Ministério Publico: O sketch da procuradora

17 thoughts on “Deixa arder, é a liberdade do vizinho”

  1. essa senhora é caso para psiquiatria . talvez a coisa da psicopatia dos que têm vocação para policias abranja também a magistratura, vá se lá saber.

  2. Vivemos numa geração “houve sangue? queremos mais!”.
    Em Portugal e no Mundo inteiro.
    O Estado de Direito está todo fodido.

  3. Oh! Que surpresa, que horror!
    Nunca foi diferente, vivemos num sistema de criminilaziçao sistemática. É esse o trauma da Morgado, com a luz e a sombra e a panca que aquela cabeça tem. O facto de a jornalista só o saber agora só mostra que o jornalismo é totalmente condicionado e alienado, não passa de um folhetim de cordel. Esquecendo o contexto e a intenção esta peça devia ganhar o Pulhitzer, nao por dizer algo de novo mas porque obriga os que sabem a nao poder dizer que nao sabem.

  4. Não percebo, agora, estas a congratular-te com a publicação dum documento, em violação total do segredo de justiça, que nos permite assistir a um abuso intoleravel (e infelizmente comum quando se trata de arguidos considerados como parte da ralé, ou seja tudo o que não seja VIP) por parte do MP ? Afinal ja não queres crucificar os jornalistas pulhas que violam os principios fundamentais do Estado de Direito, corta-los às postas e expo-las a seguir no pelourinho ? Falhei algum episodio ?

    Boas

  5. Não me lixe, caro jpferra,

    Reli. Tanta cambalhota para no final … congratular-se com uma excepção à “regra do silêncio mediático sobre os abusos do Ministério Publico” que, no caso, aconteceu atravês duma flagrante violação do segredo de justiça, coisa que ha uns posts atras era apresentada como uma séria ameaça ao Estado de Direito, à democracia, à paz mundial e ao equilibrio do universo (e também aos interesses dos amiguinhos, claro esta…).

    Boas

  6. O que é escandaloso é que, em Portugal inteiro, este nojo de interrogatório apenas cause incómodo às “viúvas do Sócrates”. E acredito que esse incómodo apenas existe pelo que (na mente delas) o MP “fez” ao Sócrates (sendo que ao menos ninguém o interrogou aos gritos e insultos e sem o deixar falar). Não fosse isso, e estou certo que também se estavam nas tintas para o “animal” da claque (perdão, animal não, senão tínhamos o PAN a clamar contra os maus tratos a que foi sujeito). 44 anos de democracia e de estado do Direito e é isto.

  7. JPT,

    Não me considero uma viuva de socrates e a mim causa-me incomodo. Presumo que não seja o unico neste caso.

    Boas

  8. Eu, obviamente, também não, e causa-me extremo incómodo. Tal como me causa extremo incómodo não ouvir um advogado (ou, porque não, o juiz) dizer: “ou a Sr.ª Agente do MP tem compostura ou acabou o interrogatório”. Limito-me a constatar que, no espaço público, ninguém (mas mesmo ninguém) se incomodou com esta vergonha, salvo pessoas que vêm criticando toda e qualquer a actuação do MP, por força da sua ligação ao ex-primeiro-ministro. E a estes somo a Ordem dos Advogados, que foi lesta a reagir à (lamentável) divulgação televisiva dos interrogatórios desse cidadão, e, relativamente a estes cidadãos, nem um pio.

  9. Concordo. Não tenho seguido as reacções, mas julgo que de facto a OA devia reagir, e não so a OA. Noutro pais, parece-me obvio que haveria reacções indignadas, e não é para menos.

    Boas

  10. JPT, acho que confundes a árvore com a floresta. A árvore, para ti, é Sócrates. A floresta, caso não tenhas reparado, é o regime. Donde, a minha curiosidade: achas que Sócrates é apenas um sujeito com quem tu, pelos vistos, antipatizas e que, portanto, já despachaste como culpado sem ser necessário julgamento?

    Parece que sim, daí o teu entusiasmo com as “viúvas de Sócrates”, uma forma de desvalorização “ad hominem” a quem apresenta um argumento que fica sem ser rebatido. O argumento é o seguinte: há criminosos na Justiça, os quais alimentam crimes na comunicação social, e esses crimes têm uma gravidade correspondente aos alvos em causa. Se o alvo é um primeiro-ministro em funções (“Face Oculta”), então o alvo também é o seu partido a eleições e a democracia. Se o alvo é um ex-primeiro-ministro sob suspeita de corrupção (“Operação Marquês”), então o alvo é também o seu partido a eleições e a democracia.

    Dá-se o caso de apenas ter visto algo como o que se fez a Sócrates, logo desde 2004, ao próprio. Não tendo tu mais nenhum exemplo comparável, não podes saber o que diriam as tais “viúvas de Sócrates” se o alvo fosse Passos ou Cavaco ou Portas. Acontece que vens para aqui garantir que sim, que sabes tudo. E isso leva-nos para a tal árvore, onde te vejo a dar cabeçadas no tronco para tentares curar uma dor de cabeça.

  11. Isto so visto !

    1/ O problema não é o Socrates, mas ja que falas nisso, o Socrates etc.

    2/ “O argumento é o seguinte: há criminosos na Justiça, os quais alimentam crimes na comunicação social”. Que queres dizer com isso, que o jornalista a que devemos a publicação da peça que hoje te choca é criminoso e que devia ser punido ?

    São as tuas habituais coersocratências. Infelizmente o JPT tem toda a razão e este blogue é a prova mais ilustre desta triste realidade portuguesa, reveladora duma profunda e deseperante menoridade civica : as pessoas so criticam o que lhes convém quando lhes convém. As conversas em Portugal são essencialmente clubisticas e vocacionadas para o café. Eis a unica floresta nesta historia. Triste.

    Boas

  12. joao viegas,a si já lhe vi cuzinho! tantos bandalhos de direita que andam solta e temos um ex primeiro ministro que a beneficio da politica e dos políticos já devia ter sido julgado.qual a intenção deste atraso ? simplesmente manter Sócrates debaixo de fogo daqueles que nunca gostaram dele como politico e como 1. ministro. até agora, o maior” crime” de Sócrates foi mandar a direita à merda!

  13. Obrigado azevedo por confirmar o que escrevo. Não fui eu a falar no socrates (em quem me aconteceu votar uma vez), nem sequer o que eu disse implica a minima complacência em relação aos magistrados em geral, ou aos do mp em particular. O assunto é a imprensa e a ideia, defendida ferrenhamente por aqui, de que ela nunca deveria, em caso algum, tornar-se cumplice de violações do segredo de justiça. Se assim fosse, quem é que teria ficado a saber do abuso objecto do post ?

    Quanto ao resto, se quiser acreditar que sou de direita, e que o pai natal existe, por mim tudo bem.

    Boas

  14. ” Não fui eu a falar no socrates (em quem me aconteceu votar uma vez),…”

    só acredito quando puseres aí uma fotografia do boletim de voto e cópia do cartão de eleitor. andaste estes anos todos a votar no salazar e agora acordaste para o pinto coelho.

    ” … nem sequer o que eu disse implica a minima complacência em relação aos magistrados em geral, ou aos do mp em particular”

    qual “complacência” qual caralho, o termo técnico é broche

    “Quanto ao resto, se quiser acreditar que sou de direita, e que o pai natal existe, por mim tudo bem.”

    claro que o pai natal existe, mas só para direitolinhas, até há um filme que publicita essas fantasias de natal do coelhinho de massamá

    https://www.youtube.com/watch?v=pR6O9yzPqRk

  15. Camarada das 15.50, “Broas” é marca registada, estás autorizado a usar apenas se pagares a taxa correspondente, que até é barata, a saber: de vez em quando metes o dedo no cu do Broas, só para ver se tem ovo.

  16. Já aqui não comentava postas há algum tempo, mas gostava de saudar o 15.50 (Ignatz?) pelo habitual avacalhanço. Chamar is bois pelos nomes é preciso. E quantos Viegas por cá já passaram…
    O Valupi também melhorou um pouco, tirando a paixão pelo Marques Lopes que deve pertencer à tal direita não decadente (seja lá o que isso for), lóle.
    Saudações a todos sem excepção.

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