Da excelência

Filipe Nunes Vicente respondeu, para nossa aprendizagem e prazer. E um seu leitor contribuiu para resolver a questão, na minha humilde e nada modesta opinião. Que resta? A aretê.

O Filipe diz que ela é o exacto oposto da liberdade. Vai mais longe, diz que a liberdade é património da democracia, esta do homem comum, vulgar. Se o Filipe ainda estiver a falar dos Gregos quando chega ao fim dessas associações, nada pode estar mais longe da verdade. Por um lado, a jusante, porque a democracia vai blindar-se numa complexa burocracia (Arist., Const. Aten. XXIII-XXIV; Plutarco, Péricles X). Por outro lado, a montante, o conceito de cidadania implica a estrita obediência às leis, incluindo as religiosas (ver Aristóteles, óbvio, Política e Ética a Nicómaco, mas já Heraclito). Aliás, se há traço característico da cidadania Grega que vai ao arrepio das concepções actuais é esse da ausência de individualidade, no sentido atómico. Cada cidadão é tudo menos vulgar, posto que é da família, do centro comunitário e da cidade. Vulgares são os outros, os escravos, metecos e mulheres. Os que não têm poder político.

A democracia vem resolver um problema que nasce da oligarquia, não da monarquia. A aristocracia terratenente vai acumulando terras, acabando com a pequena propriedade, levando pobres camponeses à ruína e à escravidão. E, muito mais do que no conceito da aretê, é na figura de themis, o direito de origem sagrada, que se encontra a justificação da força coerciva que ameaça causar desestabilização política e guerra civil. É uma tese, claro, mas que permite malhar na ousadia do Filipe, o qual antagoniza aretê e liberdade. Mas como? O trio-maravilha, Sócrates, Platão e Aristóteles, não fez da aretê um conceito central na realização humana? Acaso todo o edifício do saber Clássico não é subsidiário da procura da excelência, ou virtude, de que os diálogos platónicos são o paradigma supremo?

O cidadão só se realiza se cumprir a sua aretê, ou seja, se procurar o saber, se filosofar. Aristóteles chegará a dizer que tal desiderato implica a existência de uma cidade justa, aqui atrevendo-se a discordar do Paulo Rangel, que não quer misturas entre política e ética. E assim se conclui este desmazelado devaneio que tinha um único propósito: defender que nada há de mais excelente do que aprender, neste poder residindo a liberdade política mais alta. Muito obrigado, escusam de se levantar.

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