Constipation

Não consigo. O dia foi mesquinhamente reduzido a 24 horas, decisão tão arbitrária como essoutra que faz com que os rios corram para o mar. Que raio vai fazer um rio para o mar? Adiante. Só 24 horas, em que o homem comum passa dezasseis a dormir. A mulher incomum é diferente, duas vezes oito horas a sonhar. Por isso, não consigo. Há blogues a mais. Cada blogue tem posts a mais. Um post tem palavras a mais. As palavras têm silêncios a menos. Em soma, é-me igual. Porque não consigo. Preciso de tempo para ler a Odisseia traduzida pelo Frederico Lourenço. Em voz alta, devagar. Devagar não, quedo. Preciso de tempo para olhar o Bad Boy do Eric Fischl nos olhos, ele que está de costas. Quanto tempo se leva para descobrir o rosto de uma figura que está de costas? Pouco, nada. Mas o nada demora. Preciso de tempo para escrever a biografia de uma erva daninha, para ouvir o Carl Dreyer, para abraçar uma árvore, para chegar ao fim do Half-Life 2 e começar o Civilization IV, para arrumar os livros por ordem analfabética, para ajudar uma velhinha a atravessar a vida, para reencontrar os amigos que vejo todos os dias, para dançar ao som da Nona de Beethoven, para me fechar numa praia deserta em manhã fria de Inverno.

Há blogues a mais.

16 thoughts on “Constipation”

  1. “Repetidas veces me dije que no hay otro enigma que el tiempo, esa infinita urdimbre
    del ayer, del hoy, del porvenir, del siempre y del nunca.” Borges

  2. Se esta é uma amostra do que fazes, para além de tudo o que querias ( queres ) fazer, podes continuar com o programa.
    Basta escreveres um post destes, de vez em quando!

  3. “The perceived need to write obscurely also tends to obscure thought. The Closing of the American Mind is much better-written (in style, at least, if not in convoluted structure and argumentation) than anything by Leo Strauss. But even Bloom makes his argument complex and subtle to the point of evasiveness, as if he wants to confuse and mislead the reader. (In particular, his critics — those who actually did read him — were hardly ever able to tell when he was or was not speaking in propria persona.) Bloom, at least, writes so well that he charms rather than repulses the reader, so one is (if sympathetic) willing to read his book again and again, with closer and closer attention; but not even the most sympathetic reader can really be sure, in the end, precisely what Bloom really means, behind all the good and important things he does say.”

    Karl Jahn

  4. Valupi (e os outros), procura o OGame (o internacional), nele o Universo 5, nele a aliança Portugal e junta-te à malta.

    Especialmente se há gosto por jogos de estratégia e/ou por ficção científica. Ou space opera, que não é bem a mesma coisa.

    ;)

  5. Tens razão, Valupi. E isto ainda é só o começo. Daqui a cinco anos, estaremos inertes 24 horas diante desta caranguejola.

    Haverá ainda tempo de arrepiar caminho? Cada diz será mais difícil. Não há blogues a mais. Há é uma nova forma de vida que se alojou nos nossos cérebros. Uma novíssima lei. Uma matrix. Venham salvar-me!!! Venham salvar-nos!!!

  6. Cada DIA, claro, será mais difícil.

    Sim, já nos falham os dedos. Aos poucos, vai-se-nos taralhoucando a gramática. Muito aconchegadinhos, acharemos isso munta baril. Depois, falaremos por emoticons. Depois, os emoticons falarão entre si. And so forth, enquanto houver mundo.

    (Hoje levantei-me assim).

  7. Zohia, a tua citação dá-me a oportunidade de deixar outra:

    “¿En qué reino, en qué siglo, bajo qué silenciosa
    Conjunción de los astros, en qué secreto día
    Que el mármol no há salvado, surgió la valerosa
    Y singular ideia de inventar la alegria?”

    Luís, vou fazer fé nas tuas palavras. Mas relembro-te que sou agnóstico…

    ML, acolho essa aprovação que alivia a minha ansiedade. Muito obrigado.

    Zé Mário, tens de me contar o teu segredo.

    Susana, então já somos dois. ;)

    Andronicus, na mosca. Obrigado pela citação.

    Jorge, já lá fui ver como é. Mas ainda não sei se vou habitar nesse universo. Obrigado pela sugestão.

    Fernando, pois não, não há blogues a mais. Tal como não há palavras a mais, ideias a mais ou pessoas a mais. Temos é de fazer o que os outros antes de nós sempre fizerem, ajustar contas com o tempo que nos foi dado.

    Curioso como as visões do futuro sempre se enganaram em relação à influência da tecnologia. Quem diria que a Internet e os telemóveis, por exemplo, iriam pôr tanta gente a escrever tanto?… Assim, talvez daqui a cinco (ou 10, ou 15, ou…) anos a tecnologia nos permita o retorno à natureza; finalmente saciados de recursos de comunicação e informação.

    Sim, os emoticons… que vício! E, que utilidade! São sínteses que economizam o verbo, trocas de entoações, quando a entoação é tudo ou quase. E é, vezes sem conta.

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