Cineterapia


Hadewijch_Bruno Dumont

O cristianismo não-cristão, aquele que ainda não chegou a Roma, sequer à diáspora, e se mantém originariamente judaico, é uma religião como nunca se viu antes ou depois. Encontra-se preservado na sua integridade nos diferentes Evangelhos, tanto nos canónicos como nos apócrifos, e tem uma perene manifestação esotérica, artística e política ao longo dos séculos no Ocidente. Consiste numa proposta de transformação cognitiva onde os conflitos existenciais, universalmente inevitáveis seja qual for a classe social e a cultura a que se pertença, são colocados sob a esfera de autonomia do sujeito; embora diferentemente das escolas filosóficas gregas, as quais desenvolveram mediações discursivas adequadas a factores étnicos e históricos distintos daqueles em que Jesus se movia.

Cada um, por si, com os seus recursos intelectuais e volitivos, numa relação directa consigo próprio, pode dar sentido ao enigma em que se constitui a realidade na sua indomável complexidade, desafios e ameaças. Não é outro o anúncio de fé, a boa nova. E poderá fazê-lo com tão maior facilidade quão maior for a sua pobreza – entenda-se, a sua capacidade de crescimento, a sua curiosidade. Daí ser tão difícil aos ricos entrarem no Reino de Deus – isto é, abandonarem o materialismo, o cinismo, e recuperarem a juventude, nascerem de novo. A radicalidade do cristianismo evangélico, nisso se distinguindo das restantes teorizações religiosas, mostra que a própria prática religiosa, com os seu códigos rituais, com a sua moral, é impeditiva de uma vida espiritual. Jesus, nesta linha interpretativa, não era judeu nem cristão. Era um poeta e um guerreiro, um ser humano livre.

O cristianismo não-cristão é da família das tradições sapienciais onde se cultiva o paradoxo. Compreender esta super-lógica permite aceitar uma característica principal pela qual os conhecereis, esses que se inspiram naquele original pedreiro nazareno sendo ateus, agnósticos ou deístas de qualquer outra narrativa mítica: eles celebram a ideia de que só nos salvamos quando salvamos alguém.

Este filme ilustra essa esperança com uma libertinagem perfeitamente cristã, a qual encherá de alegria o cinéfilo paciente, virtuoso.

10 thoughts on “Cineterapia”

  1. Boa noite, Val

    não vi o filme. Li algumas coisas sobre o mesmo. Parece-me entender onde quer chegar com este texto.

    É difícil encontrar em “Roma” ou nas outras expressões cultuais do cristianismo a tal “boa nova” do carpinteiro Jesus (no seu texto é pedreiro, para o caso não interessa nada). Sobretudo quando pretendem (cada um à sua maneira) defender que há um único modelo de Igreja fundada por Jesus, o nazareno, dos Evangelhos (canónicos ou apócrifos).
    A preocupação de Jesus não é fundar alguma Igreja. É ser agente de “inclusão”, dizemos numa linguagem actual, de todos, sobretudo dos mais marginalizados, encontramos nos evangelhos canónicos.
    Viver uma vida uma vida espiritual é compatível com a radicalidade evangélica. Jesus é o cabal exemplo disso mesmo. Certos modelos de cristianismo tornaram antagónicas as duas dimensões da vida humana.

  2. KALIMATANOS, e compraste muitas garrafas?
    __

    Joao, momentaneamente, dizes muito bem.
    __

    maria, não posso concordar mais. Quanto ao carpinteiro, era pedreiro segundo a mais recente exegese. É essa a actual noção, posto que não havia trabalho para carpinteiros naquele tempo, mas muito para pedreiros. A palavra grega donde veio a opção por “carpinteiro” – tekton – quer dizer “construtor”. E aceita-se que Jesus trabalhou como construtor (pedreiro, diríamos hoje) para os romanos.

  3. Uns são crentes e outros não, uns acreditam e outros não. Eu não acredito, mas respeito os crentes. É isso, respeitemo-nos uns aos outros, o que infelizmente nem sempre acontece.

  4. Meu caro Val, pelo que relatas, trata-se de um filme que nos traz “mais do mesmo” sobre o tema “cristianimso”. Pensava que tinha chegado ao fim a explosão de fantasias que nas duas últimas décadas “abalaram a cristandade” ou pensaram que o fizeram. Já que estamos a falar de cinema, estou a lembrar-me do disparatado filme de Mel Gibson, A Paixão, concebido sem um mínimo esforço de aproximação, já não digo à verdade dos factos segundo a História, mas à verdade da fé das primeiras comunidades de “nazarenos” , depois chamadas “cristãs.
    Leiam-se com muita atençâo os grandes biblistas contemporâneos. Comecem pelo nosso Pe Carreira das Neves e a sua obra recentemente publicada “Sâo Paulo Dois Mil Anos Depois”. Mas recomendo que fiquem pelo seu excelente trabalho de pesquisa e esqueçam as suas conclusões de caracter pastoral, porque nestas ele mantém-se, prudentemente, fiel a tudo o que em dois mil anos se ensinou sobre o cristianismo dentro da Igreja Católica.
    O embaraço ou mesmo escândalo vai ser completo, não só para católicos mas para toda a cristandade.
    Dou apenas um exemplo. O Pe C.Neves aborda a questão do conflito entre Pedro e Paulo e conclui desta forma arrasadora para a catequese conciliatória, que os evangelistas canónicos e apócrifos começaram a fazer trinta a quarenta anos depois da morte destas duas figuras emblemáticas do primitivo “cristianismo” : “Paulo voltou as costas a Pedro”.
    O pomo da discórdia não era um desprezivel “pintelho”, relacionado com as práticas judaicas tradicionais, porque esses conflitos sempre existiram, como sempre existiram seitas dentro do judaismo, fossem Essenios, Saduceus ou Fariseus. O problema residia na a ideia Fundamental do “messianismo” judaico. E Jesus era a figura central nesta disputa.
    Judeus e “nazarenos” escorraçaram de Jerusalém o escandaloso Paulo de Tarso. O que se tenta demonstrar, agora sem medo da fogueira, da forca e até da excomunhão papal, é que o Jesus de Pedro tem muito pouco a ver como o Jesus de Paulo. Para Paulo, Jesus, que ele chama “Jesus Cristo, o Senhor” é a Boa Nova incarnada. Para Pedro e todos os que acompanharam Jesus desde a primeira hora, ouvindo a sua “palavra”, o evangelho era o corpo de ensinamentos e boas práticas para um culto (sempre judaico) digno de Deus. Naturalmente, à espera do messias, depois da morte de mais um candidato, extraordináriamente carismático, Jesus de Nazaré.
    Realmente, está lá tudo, nos evangelistas, nas epistolas e nos apócrifos. Até se “informa” que Pedro negou “três vezes” Jesus. Pergunta-se: o “nazareno” ou o “Jesus Cristo Senhor” de Paulo de Tarso?
    “Na melhor ficção, uma mentira precisa parecer verdade” (Marcelo Gleiser in Criação “im”Perfeita)
    No caso dos evangelistas dos cristianismo trata-se, sobretudo, de catequização que pretende corrigir catequização anterior. Os evangelistas re-lêem o messianismo judaico à luz do evangelho de Paulo de Tarso, exactamente como S.Paulo fez uma re-leitura e uma re-interpretaçâo de toda a “Lei e dos Profetas” (Testamento Judaico).
    Falta realizar este filme

  5. Mário,

    Não desperdices esse enorme talento para ensinares as pessoas. Até o Valupi vai contribuir com três por cento do custo de seguro da tua cabeça. Isto é, dos miolos.

  6. Mario, o filme nada diz dos temas e matérias que trazes em comentário ao que escrevi, eu é que levei para aí a interpretação por razões quase todas subjectivas. O filme limita-se a contar uma história cheia de contemporaneidade, a qual até oferece um muito relevante olhar para o terrorismo de bandeira islâmica.

  7. Muito obrigado, grande Mário!

    E não ligues ao fariseu e hipócrita do KALIMATANOS. Este teu comentário foi dos textos mais enriquecedores, para mim pessoalmente, que já li em todos estes anos de aspirinismo, diria mesmo, nestes cinco ou seis anos que já levo de “blogosfera”!!!!

    Fez-se alguma luz sobre muita coisa enevoada, dentro do meu espírito de agnóstico com formação “oficial” Católica.

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