Cavaco, o fiasco

O discurso de Ano Novo do Presidente da República é um logro. 7200 caracteres, fora os espaços, gastos para o boneco. A única ideia que se demarca é a inverosímil admoestação contra os salários dos altos dirigentes de empresas. Que é isto? De que empresas está a falar? De que nível de rendimentos? Estará Cavaco a falar de Jardim Gonçalves, entrando assim na corrida eleitoral em curso no BCP? Está a falar de alguma empresa de curtumes na Beira? Ou estará a falar dos empresários que enriqueceram por terem sido favorecidos no cavaquismo, ganhando tanto que até dava para financiarem o PSD com os trocos? Acima de tudo, que adjectivação merece um discurso que tem uma nulidade de mensagem como prato principal? Esta: bela merda. Não sei quem lhe escreve os textos, mas está a precisar de ajuda.

Na mesma senda, a referência à sinistralidade rodoviária é caricata, tendo em conta a sua irrelevância no contexto do discurso. E a pérola críptica do que foi dito consiste nesta afirmação:

Perante as dificuldades de crescimento da nossa economia, perante a angústia daqueles que não têm emprego e a subsistência de bolsas de pobreza, devemos concentrar-nos no que é essencial para o nosso futuro comum, e não trazer para o debate aquilo que divide a sociedade portuguesa.

Não desviemos as atenções do que é verdadeiramente importante.

Se alguém conseguir decifrar este passo, ou tão-só a quem se destina, é favor partilhar. Receio que esteja em curso uma sampaízação da Presidência.

11 thoughts on “Cavaco, o fiasco”

  1. O Senhor Presidente tem toda a razão e deveriamos “trazer para o debate” tudo e tão só o que une os portugueses. Estamos todos desejosos de um verdadeiro debate nacional, alargado a todas as classes, faixas etárias, sexos e amplexos, animais do zoo e peixinhos do mar, sobre a importância do amarelo numa pintura do pôr do sol.

  2. ó Vale-u-py,

    mas quem é que ainda se dá ao trabalho de ouvir o Cavaco de Belém, quanto mais escutar ?!… tinha a televisão ligada quando começou o discurso, aquela figura causa-me um enorme desespero, sobretudo quando fala, e decidi baixar o som até não o ouvir e fiquei a olhar o homem como se fosse uma marioneta grotesca ou uma personagem dum filme mudo de terror – tipo Nosferatu – no início fartei-me de rir mas, depois, só pela ideia de que uma parte significativa dos portugueses tenha votado nele, para não partir a televisão, o que não resolvia nada, apaguei-a e senti-me um pouco melhor…

    e fui fazer as minhas imagens digitais para pôr no meu e-konoklasta… para desejar melhor ano solar a quem por lá passa.

  3. (mas ó e-ko, olha que o homem é bom tipo, conservador por certo, mas também não se pedia pedir mais – desculpa lá esta enjoativa veia redentora que me atacou logo a abrir 2008; e eu destei o cavaquismo, acho que sou meio insuspeito; já outra coisa é deitar umas farpas vai que não vai, embora eu odeie touradas, só admiro os forcados porque não espetam coisas no bicho)

    bem, vou ali ao vivo

  4. Pois. O discurso do Cavaco não foi apenas demagógico (uma característica permanente do seu mandato presidencial – basta pensar nos seus inócuos roteiros), mas quase poujadista. Esse parágrafo que destacas, primito, é um prodígio do grau zero do discurso político: pronomes sem referente, deíticos que apontam para o vazio e substantivos que são um primor de ambiguidade (essencial? importante?). E depois um gajo lê os editoriais do Público e fica a pensar: ou esta malta é doida ou pensa que somos burros. Hi-hon.

  5. Ó pá,este discurso era,apenas,para os jovens que gozam do novo estatuto de estudante.
    Pessoal,como nós,que aprendeu a escrever correctamente,e que se faltasse às aulas,chumbava,não tem capacidades para intrepertar textos destes.
    (Era meter-lhe um fogueiro pela peida acima,para ver se aquela voz, fanhosa e saloia,lhe desaparecia.)

  6. “(…)Pessoal,como nós,que aprendeu a escrever correctamente…

    não tem capacidades para intrepertar textos destes(…)”

    oh, diabo foi, azar,faltar,logo,às,aulas,de,português.

  7. (bem eu disse aquilo e mantenho, mas nem vi, nem me lembrava de tal; vi foi um filme forte, para quem gostar de penas de morte tem lá um a fritar os miolos – sweet is the smell, she said)

  8. e-ko, sejas bem-reaparecido. Quanto a não dar atenção ao que diz o Presidente, e seja lá ele quem for, não me parece patriótica tal desconsideração. Temos de ser uns para os outros, ó pá.
    __

    Primo, essa dos deícticos lembra-me uma outra questão: quando voltas? Acaso tens noção das carências que vais deixando hipertrofiar?

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