Alegria pascal

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A 13 de Fevereiro comemorou-se com alguma pompa o centenário do nascimento de Agostinho da Silva. Um mês antes, o Luis Rainha teve a supina amabilidade de me oferecer uma agenda da Imprensa Nacional – Casa da Moeda dedicada ao George de Barca de Alva. Graciosa dádiva? Digamos que fui o providencial salvador dessa peça, de outra forma destinada a um funesto porvir nas mãos de um perigoso esquerdista. É que a Esquerda é alérgica ao Império do Espírito Santo, anticapitalismo oblige. [para os que tiverem dificuldade em detectar ironias, é favor introduzirem ponto e vírgula e parêntese direito no final do parágrafo]

Agostinho da Silva é um daqueles casos onde há de tudo para todos. Começa por não ter doutrina alguma, resultado de uma mescla delas. Quando apareceu como estrela mediática, em finais dos anos 80, o parolismo jornalístico tentou cunhar-lhe o epíteto de “Filósofo”. Seria filósofo porque dizia umas coisas assim a modos de coisa nenhuma, e os jornalistas têm a pragmática clarividência de reconhecer na filosofia a sua intrínseca inutilidade. Por outro lado, com a inflação de romancistas e poetas lusos, o nicho da filosofia pátria estava carente de reforços; até porque Eduardo Lourenço é complexo e taciturno demais para o gasto diário e José Gil ainda não tinha aparecido com um livro que se entendesse à primeira leitura. Com o velhote das barbas brancas era um regalo, toda a gente ficava com a sensação de ter percebido alguma coisa. Finalmente, tínhamos um filósofo para a faixa dos 7 aos 77 anos, fórmula que sempre vendeu bem.

A minha primeira reacção foi de enfado. Considerava a atenção mediática prova suficiente de logro, pois algo de errado tinha de existir para explicar a crescente popularidade. Sim, o povo não se costuma enganar, preferindo invariavelmente a má cópia ao original no que diz respeito ao pensamento. O que ia conhecendo dele, entretanto, só confirmava a intuição: aquilo não era filosofia, era literatura; e bera. Até que calhou ouvi-lo pela rádio e a sua voz deixou-me ver o que as palavras ofuscavam. Isto da voz, já agora, tem muito pouco que se lhe diga — é apenas a parte do corpo onde estamos mais nus.


Salto quântico para As Conversas Vadias, série de 13 episódios na RTP em 1990 (lançadas em DVD pelo jornal Público neste ano), onde uma amostra do país irreal dialogou com o Professor. 84 anos de um lado, com destino marcado para não mais de 4, e uma juliana de equívocos do outro, compuseram uma opereta como nunca se tinha visto antes e não se voltará a ver depois. Não sei qual foi o critério que decidiu o elenco e a sequência dos colocutores, mas para a história ficou o Joaquim Vieira em último lugar. Na altura director-adjunto do Expresso, tinha publicado no início da série televisiva um conjunto de artigos na “Revista” onde manhosamente se acusava o simpático Agostinho de ser uma fraude. E nesse espírito vadio foi para a conversa. A sua agenda secreta saía-lhe pelos poros: ele ia decidido a desmascarar o ancião, talvez manifestar alguma piedade quando o visse balbuciante e taralhouco, e de seguida rumaria à Trindade para jantar com a malta da redacção, receber palmadas nos costados e beber uns canecos. É, ele era o Joaquim Vieira, cromo do Expresso, habituado a tratar a contemporaneidade por tu, tendo acesso aos segredos da máquina social, rodeado de intelectos brilhantes, almoçando com cavalheiros de indústria, ceando com celebridades e artistas. Ter um geronte a propor modelos políticos medievos oferecia uma oportunidade impossível de recusar para um despachado espancamento ideológico. Quer-se dizer, desmascarar a vedeta serôdia seria até um acto de higiene pública; pensou felino o Vieira dos jornais entre dois bocejos.

Joaquim Vieira começou a conversa com uma ostensiva displicência: “De que é que vamos falar hoje?”. A pergunta e o seu modo, como dizem os ingleses (os cultos, que falam francês), “c’est tout un programme”. Transmitia o juízo de serem aquelas conversas uma xaropada ao serviço da cassete agostiniana, ao mesmo tempo que mostrava estar ali a fazer um frete. A resposta de Agostinho da Silva foi um manifesto de humildade: “Sobre o que quiser, porque o que ficou combinado é que a pessoa que vinha fazia perguntas e eu respondia se pudesse responder”.

A conversa continuou neste exacto registo. Um Joaquim a tentar achincalhar um Agostinho e um Agostinho a tentar dialogar com um Joaquim. É um documento notável, por conservar o testemunho de uma pessoa íntegra que se expõe sem qualquer artifício, sem consciência do meio tecnológico. A maior parte de nós nunca conviveu com a sabedoria que a imagem conservou para quem nela se quiser alimentar. Mas não só. A capacidade intelectual deste homem de 80 anos, que estilhaçou serena e amorosamente a bazófia cínica de um homem de 30 ou 40, é um esplendoroso antídoto contra os preconceitos de uma sociedade que despreza os seus avós.

A peça tem momentos onde Agostinho reage com virilidade, mas sempre concentrado no essencial e nunca pondo em causa a ética da relação com a pessoa que o confrontava, nunca perdendo o respeito para com quem não o estava a respeitar e que apenas procurava explorar eventuais contradições ou insuficiências. E a peça tem momentos hilariantes, como quando o feitiço se virou para o feiticeiro e Joaquim Viera se viu questionado sobre os conceitos que estava a usar. Foi ficando cada vez mais perturbado, largando disparates sucessivos, e em absoluto desespero chegou ao ponto de perguntar qual era o signo de Agostinho. Só visto…

Compare-se a atitude de Joaquim Vieira com a de Fernando Alves. A conversa deste último com Agostinho é uma exibição de talento jornalístico e paixão, apesar de tudo e por causa de tudo. Dois poetas à conversa, dois amantes de Portugal. Também merece realce a conversa de Baptista-Bastos, ele próprio uma parte viva da memória de um Portugal esquecido. Ou seja, mais do que estarmos preocupados com os pólos Esquerda-Direita, importa é estarmos atentos aos paralelos da inteligência.

Agostinho da Silva morreu num domingo de Páscoa. Gosto de imaginar que não foi uma coincidência.

Nota:

Não está em causa a competência jornalística e profissional de Joaquim Vieira, personalidade de currículo que fala por si, tão-somente a sua prestação neste episódio. Aliás, Joaquim Vieira merece o meu mais rasgado aplauso por ter ousado afrontar o império Soares, facto que lhe valeu a vingança que é do domínio público.

17 thoughts on “Alegria pascal”

  1. Devo confessar que nunca compreendi o fascínio por Agostinho da Silva. Sem qualquer falsa modéstia – enfermidade de que não padeço – sempre parti do princípio que alguma coisa realmente me escapava. Aliás, acontece-me exactamente o mesmo com Manuel de Oliveira. Provavelmente são dois génios. E provavelmente não chego para o perceber. Mas, para além da vitalidade até ao fim (não é pouco) não vejo nada.

  2. Manoel de Oliveira, devia ter escrito.

    Já agora: ainda outro dia tive, em mais um esforço para ver o que não consigo ver, a ler umas coisas de Agostinho, e cheirou-me a Aleixo ou ao Fernando Pessoa de que menos gosto – Caeiro – mas para muito muito pior. É o que digo: mesmo como escritor, escapa-me qualquer coisa.

    E a primeira condição para respeitar um velho – ou um novo –, é ouvi-lo sem qualquer condescendência. E a condescendência com o “avozinho” – que infantiliza os velhos – é a pior de todas.

  3. Desde que o Aspirina apareceu, os seus autores tentaram, de cento e dezassete maneiras diferentes, levar os seus leitores a atingirem um orgasmo. Falharam a missão. A Revolução foi uma frustração!.

  4. Também faço parte dos que nunca perceberão a razão que leva tanta gente a fascinar-se com semelhante criatura. Assumo que seja minha a limitação, mas também nada neste post me leva a mudar de opinião. Afinal quais foram as grandes ideias que defendeu nessas entrevistas. Ou trata-se, como sempre suspeitei, de conversas “for the sake of it”, completamente circulares, onde a forma e o aforismo imperam sobre qualquer resquício de lógica ou racionalismo. Até há profs de Filosofia que dão desta palha aos alunos. Para quê dar Kant? Que maçada!

  5. Penso que o prof. Agostinho da Silva, independentemente das suas ideias e teorias, era também um velho simpático e que não pactuou nem com outros tempos, nem com o dinheiro – coisa rara entre os actuais comunicadores.

    Além de ser agradável e interessante de ouvir (o que não acontece com muito boa gente que enxameia a nossa comunicação), assim à maneira de Vitorino Nemésio, era uma figura muito própria, particular e viva da nossa cultura – reconheça-se.Tinha uma qualidade ímpar: era respeitado.Óh Daniel, olhe que não temos muitos assim.

    E como sou um simples, isso a mim bastava-me para eu o respeitar – apesar de, às vezes, também não o perceber bem (mas quem sou eu?????).Mas penso que também não temos que perceber tudo para gostarmos de algo, não é?

    Por mim, recordo-o com saudade, no Jardim do Príncipe Real, a conversar com os gatos…
    Parecia-me um Corto Maltese reformado.

  6. Já agora: um abraço de solidariedade ao Joaquim Vieira, não pelo programa em causa, mas por ele ter tentado abanar o elefante branco que é a família Soares – o que não é só raríssimo em Portugal mesmo entre a Esquerda (que têm que velar pelo seu futuro financeiro): é destemido!.

  7. Valupi,

    Espero que venha alguém aqui dizer o que é que Agostinho da Silva lhe diz exactamente na vida. Culturalmente, moralmente, historicamente, coisa assim. Não é o meu caso, não é o caso de nenhum dos comentadores acima («Moz» perdeu a oportunidade de nos elucidar), não é sequer o teu.

    Posso imaginar que A.S. fosse um senhor cativante. Eu nunca o vi, nem na tv. Mas valho-me dum conhecimento que tive, o de António José Saraiva, a quem conheci de muito perto neste sítio do planeta onde vivo. E também ele era extremamente cativante, e entusiasmante, e visionário. Também ele tinha uma compreensão do real, a sua. Que não era deste mundo, mas que, enquanto se lha ouvia expor, nos explicava o universo.

    Uma importante diferença entre Saraiva e Agostinho é que, no papel, Saraiva se conservou racional e acessível, isto é, comunicativo – mesmo, ou sobretudo, quando o tomava o furor, e denunciava as atrocidades que via no nosso presente (como o escândalo da descolonização, é um exemplo). Agostinho da Silva confiou ao papel as suas visões do País, da nossa História, da Humanidade. Que não partilho. Que nada me dizem. A que sou visceralmente alérgico. Para já, tenho-o (conforme fazes sugerir a Joaquim Vieira) na conta de simpática, amantíssima fraude. Inofensiva. Para fazer sonhar, fugir deste mundo. Para empatar, um pouco, no fundo.

    Mas pode ser que alguém me desconvença. Tu ainda não foste.

  8. A questão do mediatismo é sintomática: quando se tem sucesso ou se é famoso, a esquerda não quer saber. Mas e o tal do Che Guevara, cuja imagem é apenas secundada pela de Cristo como a mais vendida?
    Capitalismo, devoção?
    Talvez um fenómeno, talvez reflexão…

  9. Daniel

    Concordo a 300% contigo quanto à necessidade de sermos implacáveis, em especial com os velhos. Pela simples razão de o velho (de idade, não por estar decadente) ter a obrigação de já ter aprendido alguma coisa. Com certeza, o fascínio com o Agostinho nascia de muita condescendência da parte de quase todos. O homem era um pachola que falava de borla e dizia umas coisas aparentemente simples e inócuas. A miudagem curtia porque ele parecia um Pai Natal sem prendas, e uma trupe de bafientos e confusos adultos aplaudia para brincarem aos eleitos. Só que ficar nesse nível de compreensão do Agostinho da Silva é uma opção (ou condição…) que não colhe.

    Literariamente, o seu valor é de mediano para baixo, não passa de uma curiosidade, tanto na obra em prosa como na poética. Por isso não espanta que o relaciones com o Caeiro, porque também afirmas não compreender o Caeiro. O Caeiro só à superfície é superficial ou básico (palavras tuas, posto que o colaste ao Aleixo), por debaixo desse “pastor” está a mesma intuição do Abismo que se encontra em todo o Pessoa. Com Agostinho é similar; as temáticas parecem mortas e enterradas, intempestivas, até reaccionárias, mas esse é um reflexo do observador, não a matéria do pensamento expresso.

    Se acaso te interessares e tiveres acesso, vê (ou revê) as Conversas Vadias. Em especial, a conversa com um Miguel Esteves Cardoso entretanto eclipsado. O MEC levava uma queixa, que o embaraçava. Estava desgostoso com o nível discursivo de Agostinho na oralidade, o qual considerava simples demais, logo pouco prestigiante para a causa (que ele julgava a mesma nos dois, mas a vida mostrou rapidamente que não era igual, nem nada que se parecesse). Aquilo a que se assiste depois é um momento que chega a ser comovente; com o idoso a tentar, com toda a sua convicção, mostrar ao rapaz, que ele admirava, a magnitude do erro de avaliação. É que o Agostinho da Silva gostava mais de pessoas do que de livros, preferia conversar a escrever, e esta é a primeira chave para entrar na sua mensagem.

    A segunda chave está neste facto: Agostinho passou a maior parte da sua vida a ler e a escrever. Só que era um erudito de vida cheia, mundo corrido, alegria a rodos, visceral fruição do Mistério. Esta a sua poética, que se transformou em sabedoria. E que veio aspergir Portugal, para equívoco de muitos e descoberta de uns poucos. Isto é, não esperes encontrar Agostinho nos livros. Estamos perante um Mestre que desaparece com o seu corpo, pois é pelo corpo que se transmite a sabedoria. E é por isso mesmo que se fala a Oriente das reencarnações e avatares, nisso se unindo ao Ocidente quanto à noção de “tradição” (etimologicamente, uma “transmissão”).

    Pois bem, e que andava a transmitir Agostinho da Silva?… De nada serve estar aqui a limitar a eventual experiência de descoberta abstraindo conceitos como se fossem súmulas doutrinárias. Não é disso que se trata, não é de algum tipo de mentalização tão ao estilo esquizóide em que aceitamos levar a nossa vidinha. Tenho é a absoluta certeza de que se chega ao fim do visionamento das 13 conversas e se sabe. Mais, basta ver a conversa com o Joaquim Vieira e receber de boa-fé a resposta à última pergunta, “Quais são os seus projecto para o futuro?”. Sem dúvida, o que Agostinho da Silva responde de imediato, de improviso, é a melhor definição do Quinto Império que alguma vez foi elaborada por voz, ou letra, humana. Razão para se ter muita saudade desse futuro.

    Fernando

    Compreendo-te. Mas como eu tenho a honra (e o prazer) de te conhecer pessoalmente, para lá do que já conhecia em palavra escrita, ouso afirmar que tu irias gostar de conhecer o Agostinho da Silva. Apenas se dá o caso de ainda serem estranhos.

  10. A única coisa que sei deste senhor é que não tinha B.I. e Cartão de Contribuinte e nunca lhe aconteceu nada. São as mordomias concedidas aos bobos da corte!

  11. Volupi,

    É o mal de escrever coisas curtas. Eu gosto de Caeiro, só é, ao contrário do que sinto ser a opinião dominante, aquele de que menos gosto em Pessoa. E gosto geralmente pelas razões contrárias às que o tornaram popular.

  12. Aquilo que as pessoas não tem, o Caeiro não empresta. Já o Agostinho, cada vez que aponta a Lua o imbecil fica a olhar para o dedo.

  13. Daniel

    Não vejo mal de qualquer espécie nas tuas preferências pessoanas, escusado seria dizer. Aliás, tenho muita curiosidade em saber quais são as razões do teu gosto pelo Caeiro. Se quiseres perder uns minutos a explicar, muito agradecia.

    Entretanto, pela segunda vez me grafas com O em lugar do A. Piadinha ou dislexia? Just curious, não levo a mal se for uma provocação, esclareço já.

  14. Fico um pouco admirado quando encontro alguém que não entende o porquê da grandiosidade de Agostinho da Silva, que acha o seu discurso simplório. A arrogância turva a inteligência…

  15. A riqueza destes comentários está toda precisamente naquilo que o Sr Prof Agostinho da Silva defendia que era estarem sempre em contradição com o que ele dizia enrriquecendo-se culturalmente uns aos outros e a si próprios com as diferentes formas de pensar.E podem ter a certeza de uma coisa não há dois seres iguais no planeta

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