A sociedade em rede

«A diabolização do outro − que deve muito aos debates esquerda-direita em modo futebolês, aos média de trincheira, à adoção da retórica da extrema-direita até por partidos tradicionais e, sobretudo, às redes sociais que descobriram o filão do ódio ao adversário − teve este efeito.»

Pedro Marques Lopes

Como sou fã do Pedro, tenho um requintado prazer em discordar dele. Nesta oportunidade, a tese de que em Portugal “a diabolização do outro” vem principalmente das “redes sociais” é de uma ingenuidade não só simplista como errónea. Sim, há diabolização do outro nas redes sociais, mas só porque ela existe em qualquer grupo social. Desde sempre, provavelmente para sempre. Por diabolização deve-se entender, no seu rigor antropológico e sociológico, a desumanização de indivíduos e/ou grupos.

Para que serve a desumanização? Para o mesmo efeito que pode ter o álcool ou outra droga com efeitos semelhantes: inibe a actividade do córtex pré-frontal, desligando a empatia e a avaliação moral. Tal é necessário para exercer a violência, a qual pode ser extrema e horrenda consoante o contexto. E para que serve a violência? Para defender ou conquistar recursos, materiais e/ou simbólicos. Assim, na política o mais comum é a desumanização do adversário quando só com o assassinato de carácter não se conseguiu a vitória.

A história da desumanização na política portuguesa, no pós-25 de Abril (também há desumanização à esquerda, é universal), teve um momento de mudança de fase a partir de 2007 por confluência de abalos tectónicos e ameaças existenciais no tecido oligárquico causados pela crise económica internacional, a implosão do BCP, BPN e BPP, a ameaça de o BES também cair, e pela presença de um Sócrates que parecia imbatível e implacável. Essa conjuntura teve partes folclóricas, como o ensaio marreta de agitar alguns militares fora de prazo à volta de Cavaco para uma tomada do poder executivo, mas teve também partes gravemente subversivas que deram origem ao Face Oculta e à Operação Marquês, verdadeiras operações de judicialização da política que nunca antes (que se saiba) tinham sido tentadas cá no burgo. A principal figura charneira deste período foi o então ocupante de Belém. Ele no mínimo foi conivente, no máximo poderá ter sido o mandante. A Inventona de Belém dá peso à segunda hipótese.

Em 2009, na campanha de Ferreira Leite em que o Pacheco Pereira aparecia esbaforido nas vestes de Torquemada dos diabólicos socráticos, e na campanha de Passos em 2011, a desumanização correu solta. Figuras gradas do PSD na altura compararam Sócrates a Saddam, ao Drácula e a Hitler. Toda a estratégia do PSD e de Cavaco passava por tratar o PS como uma organização criminosa. Dessa forma, conseguiram montar um aparelho que juntou procuradores, agentes da Judiciária, juízes e jornalistas, gastando os recursos do Estado, para meter nos tribunais os seus adversários. Conseguiram com pleno sucesso.

Mas a desumanização política em Portugal, embalada pelos triunfos recentes da direita, viria a conhecer um salto quântico em 2017. Este foi o ano em que um partido fundador da democracia portuguesa quis ter sob a sua chancela um discurso racista e xenófobo. Passos, mesmo que não tivesse estado na origem dessa travessia do Rubicão, podia ter cortado a cabeça à serpente com a sua autoridade, a sua palavra. Não o quis fazer, pelo contrário, foi para o palco com ela. E essa dupla de calhordas não tem parado de chocar ovos desde aí. Com um sucesso histórico fulminante, assombroso.

Redes sociais? Não, mano. Exemplos de quem manda, e de quem quer mandar, que normalizam a abjecção.

15 thoughts on “A sociedade em rede”

  1. neste caso concreto ,do zezito , respondemos apenas na mesma moeda com que nos tratou. ninguém o diaboliza , queremos castigá-lo pela arrogância e desumanidade com que tratou o povo.

  2. O Texto é bom, Valupi, mas o diabolização? tem razão. Quem discordar de ti neste pardieiro leva com demonizsção putinista em cima. Neste pardieiro e em todo o lado. Vivemos num lamaçal.

  3. Aqui temos, pela 395ª vez, o catálogo de conspirações do volupi: o maquiavélico PSD ou uma nebulosa “direita” usou a justiça, fachos e inventonas para suplantar o PS e derrubar o “imbatível e implacável” 44. Tiveram sucesso, e daí a triste sina do nosso herói, que de contrário teria levado Portugal a alturas nunca vistas (ah, o incompreendido PEC 4!) e seria hoje celebrado.

    Claro que o volupi não chama a isto teorias da conspiração; só broncos manipulados têm dessas coisas. Gente brilhante (e isenta!) como o volupi só constata verdades inequívocas. Que outros motivos podiam existir para o 44 ser acusado ou o PS perder eleições, não é?

    Como de costume, o mais divertido nem é o maquiavelismo do PSD – não é difícil acreditar que a Laranja Podre fizesse pelo menos parte disto para chegar ao pote – mas a implícita inocência do PS: coitados, tão nobres e tão indefesos perante estas maquinações diabólicas.

    Quem leia isto jamais pensará que o PS teve o poder e o pote durante 20 dos últimos 30 anos; ou que é a maior máfia do país; ou que o 44 aldrabou e trafulhou toda a sua vida; ou que deixou o país endividado por gerações enquanto torrava em Paris os milhões que sacou.

    Muito menos saberá que a direita e os DDT nada têm a temer do PS: foi este quem mais privatizou, quem mais os encheu e é quem melhor os serve porque tem uma vantagem sobre o PSD: passa por “esquerda”. Nem percebe o êxito do Chega – ou quanto este deve ao PS.

  4. Quando os presumidos crimes do 44 prescreverem, ou quando e se houver julgamento e for considerado culpado, ou inocente, ainda vai ganhar algum com o filme ou a novela que se fará a contar a estória.

    A unica duvida é se será tipo drama, comédia, suspense, ou tudo ao mesmo tempo.

  5. volto a dizer : não se diabolizou ou desumanizou o zezito , por o sabermos humano , mas um humano primitivo , focado em ser mais que os outros , que lhe queremos provocar a mesma dor que provocou às pessoas que levou à ruína , que foram muitas.
    os EUA e israhell é que são peritos em desumanizar . o “eixo do mal” é o quê ? matar palestinos e árabes é o mesmo que matar moscas?

  6. a bem dizer , quem desumaniza e relativiza a dor de toda a gente que sofreu ( e ainda sofre) por culpa dele , es tu.

  7. «[o] 44 … ainda vai ganhar algum com o filme ou a novela que se fará a contar a estória»

    Mais ainda? Mais do que os milhões que já mamou e estourou?

    Tem ideia de quanto custa um apartamento como o dele em Paris, mais as obras? E fazer lá vida de rico? Além das casas em Portugal, e as férias de luxo, as viagens em executiva, os restaurantes, as fatiotas, os Mercedões com motorista, e os caprichos e prendas a namoradas, namorados e a PQP?

    Sei que está a brincar quanto ao filme, mas é uma questão real: perdemos de vista o que está em causa – o dinheiro. O pilim. É disso que se trata. Também o poder, mas acima de tudo dinheiro. Acesso a bens e vidas de luxo. E por isso o 44 e todos os mamões e trafulhas nos querem distrair disso.

    Isto só tem um remédio, e nem é difícil: basta manter um foco permanente, como um laser, no dinheiro. Passamos a vida a ouvir e a dizer ‘follow the money’, mas esquecemo-nos demasiado facilmente disso. Deixamo-nos baralhar e distrair. Temos de resistir e de insistir as vezes que for preciso:

    — Ah, o PSD e as inventonas e o Chega e tal…
    — Pois, pois, pulha. E de onde veio a massa?
    — Ah, mas a justiça e o Carlos Alexandre e tal…
    — Sim, sim, pulha. Mas de onde veio a massa?

    E não só ao 44: este método é aplicável a todos, todos os chulos, mamões, trafulhas e outros criminosos deste mundo. Até aos ditadores, ou especialmente a eles. Não há Trampa, Pudim, Netanyahu, dos Santos, Lukashenko ou outro qualquer que lhe resista. Tudo vai dar a vidas e bens de luxo. Tudo.

  8. Na minha opinião acho que a diabolizacao do outro existe desde que inventaram o Diabo. E inconscientemente o vate do blogue, admirador do protuberante autor do texto (que é uma amálgama de lugares comuns) não conseguiu fugir a diabolizacão.
    “Para que serve a desumanização? Para o mesmo efeito que pode ter o álcool ou outra droga com efeitos semelhantes: inibe a actividade do córtex pré-frontal, desligando a empatia e a avaliação moral. Tal é necessário para exercer a violência…”

    Confundir a falta de empatia e avaliação moral com o meu querido Dionísio, Deus me valha, é rasurar toda a criatividade e actividade artística em nome de uma certa normalização de uma racionalidade espúria e nihilista. A religião da técnica e da quantificação, da ordem, da cena apolinea, foi por o que nos trouxe até aqui, que venha mais vinho e mais drogas, mais festa e arte.
    Sigamos o exemplo do ” nosso” novo Presidente, desde que seja o vinho certo tudo é admissível.

  9. Valupi, desconfio que tu Gregos só se for da Danone. Deixa estar amanhã dizes outra coisa qualquer, admirador de Ronaldos.

  10. Este sitio é hilariante.
    Aproveitem pois como a coisa vai indo qualquer dia só deixam sitios destes abertos como armadilhas para caçar algum insurgente distraido, como aquela jovem na china que botava postas de pescadinha sem rabo na boca, e depois da policia lhe bater á porta, foi raptada por ETs.
    Eu aproveito já.
    Plagiando o termo do Filipe, PQP PQP PQP ao centrão chulão e a quem o apoiar, seja por interesse, malvadez, ou estupidez natural.

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