A festa da inocência

No assassinato de Bin Laden a parte menos importante é a da operação militar. Variadas unidades do exército poderiam ter sido usadas, as forças especiais não eram sequer necessárias para cumprir a missão. E até a vexata quaestio da legitimidade e moralidade do ataque letal ao terrorista mais famoso de sempre acaba por ser algo irrelevante perante o real triunfo desta operação: a CIA recupera a sua credibilidade.

O 11 de Setembro e o caso da alegada existência de armas de destruição maciça no Iraque revelaram uma CIA não só incompetente como perigosa para os interesses dos EUA e seus aliados. Pior do que terem provocado uma invasão errada com provas falsas, só se começassem a conspirar para derrubar o Presidente americano, tal o descalabro na sua reputação. Assim tem estado a CIA, humilhada durante quase 10 anos por não conseguir decapitar a al-Qaeda. Renasceu para a glória no dia 1 de Maio, o dia do trabalho.

O que a captura de Bin Laden mostra é uma organização que conseguiu lidar com aquele que é um dos maiores desafios para a sua segurança: o secreto poder militar paquistanês, o qual protegia o alvo mais cobiçado da América. Obviamente, nada poderia ser partilhado com as autoridades de Islamabad antes de se concluir o plano. A guerra contra o terrorismo é também contra quem o apoia ou defende, são outras as regras.

*

Bin Laden não pretendia conquistar recursos naturais, fundar um Estado autónomo ou expulsar um invasor do seu território. Pretendia destruir a civilização. Nada havia para negociar, o compromisso seria impossível. A festa que alguns fizeram pela sua morte, para além de ser uma catarse natural e inevitável, e para além de ser uma manifestação pungente na sua assimetria face ao horror sofrido, é um direito civilizacional – como sempre foi e será – é o direito à inocência.

34 thoughts on “A festa da inocência”

  1. Olha Val, como catarse ou celebracao de uma vitoria militar, acho que a reccao ainda se aceita. Eu proprio senti alivio quando ouvi a noticia e nao censuro Obama por nao terem tentado capturar Bin Laden vivo (a logistica de seguranca de um julgamento que seria inevitavelmente longo, com a possibilidade da tomada de refens na America e por esse Mundo fora pela Al-Qaeda para forcar a libertacao do chefe, seria um pesadelo). So que Bin Laden nao existe no vacuo. Nao apenas o apoio que regista ou registou no mundo muculmano e em parte consequencia das diversas politicas que o mundo ocidental teve em relacao ao dito, como muito em particular a situacao no Afeganistao e no Paquistao e uma consequencia do apoio directo da America aos radicais muculmanos nos dois paises nos anos 80 e 90 e, como tu muito bem notas, o Paquistao nao tem passado de um falso amigo da America. A CIA tem um termo para as consequencias inesperadas da politica externa americana (e ocidental, por entensao). Chama-se ‘Blowback’. Insinuo com isto que o 11 de Setembro e apenas uma consequencia das accoes da America? Nem por sombras. Mas deviamos pensar duas vezes antes de continuarmos a agir da maneira que ate agora agimos. Sera que aqueles que celebram a morte de Bin Laden nao sabem isso e nao passam de ingenuos enganados pela Comunicacao Social? Duvido, suspeito que, pelo menos intimamente, o sabem muito bem. A morte de Bin Laden devia por isso ser mais uma ocasiao para reflexao do que para celebracoes. Nestas coisas, aconselha-se sempre humildade…

  2. Esta actuação dos EUA tem inúmeras implicações…é bom pensar nelas.
    E (dificuldade minha, naturalmente) não entendo a expressão:”É o direito à inocência”.
    De quem?

  3. Caro Val, o título é uma das coisas com que concordo neste teu texto. É, de facto, a festa da inocência, mas também a assunção que o assassínio político é uma arma que se deve e pode utilizar quando é conveniente.
    Segundo os dicionários correntes, são terroristas todos aqueles que recorrem à violência como meio de coação para fazer impor determinados objetivos, geralmente políticos.
    Logo a um terrorista ter-se-á de opor outro se utilizar o mesmo tipo de regras para atingir determinados fins.
    Eufemisticamente preferimos chamar “actos de guerra” e “vítimas colaterais” quando somos nós os terroristas a desencadear operações em que morrem pessoas de modo violento e sem culpa alguma exceto defender a sua vida.
    Anda por aí muita gente que matou terroristas que entretanto e fruto de manobras políticas passaram a ser conhecidos por forças de libertação. Serão culpados de terrorismo? Ou apenas estavam a desempenhar um papel na sua época?
    Já gastamos umas boas linhas neste tema, mas será que a gigantesca CIA com fundos praticamente inesgotáveis pode ser manietada por um limitado serviço secreto dum país que é uma República Islâmica?
    Será que os EUA quando o apoiaram na guerra contra a ocupação soviética não estavam a montar o tigre?
    O 11 de Setembro serviu para muita coisa, nomeadamente para esconder a ineficácia e inoperância dos controladores de tráfego aéreo, da confusão e falat de comunicação entre as diversas agências de segurança americanas e as suas forças armadas, da falta de segurança do seu espaço aéreo, da inexplicável falta de acionamento da Força Aérea atempadamente, do vácuo na presidência em momentos fulcrais, etc.
    Osama e a al-Qaeda serviram como cortina de fumo para tudo isso e continuam a servir.
    Hoje já se vai falando na conveniência no tempo em que ocorreu a sua morte, nos defeitos do material usado que já não é a primeira vez que falham, na ausência de informação quanto ao número de vítimas resultantes da operação, na estranha opção de não mostrar a cerimónia do enterro no mar ou dos ritos que a precederam, etc.
    Estás também enganado noutra coisa, Osama não pretendia poder político mas apenas o regresso a uma maior pureza nos que professam a religião islâmica e via os EUA como o mais poderoso adversário por ser a fonte de poder de Israel que sabemos ter delírios hegemónicos sob os árabes islâmicos ou então ainda não sabemos bem o que é o sionismo dos kibutz.
    Somos contra a tortura mas compreendemos que em Guantanamo ela se pratique. Somos contra a pena de morte mas não vejo petições a condenarem os locais que são a favor.
    Somos contra o assassínio mas concordamos que há quem deva ser assassinado.
    Como diria Orwell somos contra todo o mal mas um mal que mais mau do que os outros.

  4. sim. não obstante os argumentos que deixei no ar no outro dia, que se ninguém os apanhou é porque foram para o caralho, a inocência – que pega no direito ao colo e não o contrário – é rainha. e foi o que também escrevi pela fotografia que levei do Vega e que ele não viu ou não lhe apeteceu comentar:

    são cimentos crescidos de sonhos ou sonhos que em cimento ficam, mas são – são passados presentes de gentes, são luzes com gentes por dentro: são vida a querer viver sem vidas que trazem lamento.

    :-)

  5. Jaime Santos, o apoio americano aos talibãs foi feito no contexto da Guerra Fria e da invasão soviética. Que é que isso tem a ver com um projecto alucinado para matar civis ocidentais em nome de Alá?
    __

    maria, dos inocentes. As vítimas do terrorismo e de qualquer injustiça – seja ela qual for e venha de onde vier.
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    Teofilo M., trazes muitas questões ligadas umas nas outras, com diferente relevância. Talvez possas clarificar a questão principal se deres exemplos do que – por mão americana e/ou de outros Estados – possa ser comparável aos ataques terroristas e que, se bem te leio, estaria na sua origem ou pode ser apresentado como desculpa suficiente para essa resposta.

  6. Val, Apoiar os mudjahedin e depois os taliban, bem como os radicais paquistaneses, nao poderia deixar de ter serias consequencias a longo prazo. Isto nao era claro? Parece que nao, pelos vistos… Tu subsidiarias gente que quer levar um pais de regresso a Idade Media e que sempre mostrou intolerancia em relacao a nossa maneira de viver, e nao apenas em relacao a URSS? E ja havia, parece-me a mim, vozes nos anos 90 que chamavam a atencao disto. A tese de que o inimigo do meu inimigo e meu amigo e francamente perigosa. So que infelizmente a politica externa americana (e nao apenas ela) parece ter vistas muito curtas…

  7. Jaime Santos, qual é o país ou países, na tua opinião, cuja política externa está imune às consequências das vistas curtas?

  8. Val, Na verdade nenhum, porque nos somos muito maus a prever o futuro (recordo-me do teu post do outro dia sobre isso). Mas a America, como boa Republica Imperial que e (e em que se tornou ha muito), exagera quando falamos em ter vistas curtas. E nao e que lhes faltem recursos ou inteligencia para tentar fazer uma analise das consequencias possiveis das suas accoes (a CIA tambem se dedica a isso). Enfim, talvez seja como o Churchill dizia: ‘America will always do the right thing, but only after exhausting all other options’. Sera de mais esperar que desta vez, com um homem inteligente e sensato como Obama (e nao com um cowboy como Bush), os Americanos metam a mao na Consciencia e se habituem a agir com mais prudencia e um pouco mais de humanidade e fidelidade aos seus principios fundadores, que tanto gostam de invocar? Espero sinceramente que sim, mas conhecendo a Historia, nao estou muito optimista…

  9. Pois… a ideia de que no mundo de hoje é tudo «conquista do Oeste» na qual valia tudo – até dar cobertores de doentes tuberculosos aos índios. Eu vi em Londres no Museu da Cidade as fotos e as breves biografias dos mortos daquele atentado de Julho de 2005 (salvo erro). Esses também não tinham culpa e morreram. Estou pessimista sobre as respostas que podem chegar noutros cenários pois parece que tudo é campo de batalha.

  10. obrigada pela resposta, Val.

    A mim não me parece que a via de justiça que se abre pela liquidação de um criminoso (sim, Bin Laden era um criminoso. E contrariando o comentário do Teófilo M., Bin Laden não pretendia uma maior pureza da religião islâmica, queria converter todos a essa religião, não olhando a meios) seja a que melhor serve a humanidade. É a mais fácil. É a de quem tem mais força e poder, mas não é a que pode abrir caminhos de paz e de diálogo entre as diferentes correntes religiosas e sociedades envolventes.

    Dietrich Bonhoeffer, um místico cristão, foi preso e morto por conspirar para eliminar Adolf Hitler. Segundo ele, era preciso deter o mal com a supressão física de quem o estava a desencadear. Esse testemunho de vida, deve questionar-nos.

    Mas como é explicitado nalguns comentários anteriores, até que ponto os métodos, a posição dos EUA, tem legitimidade para agir como tem agido?

  11. Caro Val,
    não pretendendo dar uma lição de história, mas apenas recordar alguns factos sobre terrorismo comecemos pela primeira corrida para o Oeste onde a colónia branca trucidou os habitantes das terras que pretendiam em nome da fé. Para eles os homens, mulheres, crianças e velhos que detinham os territórios que almejavam tinham duas hipóteses ou eram acantonados em espaços controlados e fechados (reservas) ou eram abatidos como cães. Estava-se no século XIX, os ideiais da república francesa norteavam os fundadores dos EUA, mas a igualdade ficava metida no saco, a liberdade era só para brancos e a fraternidade foi cimentada pelo senhor Samuel Colt.
    Quem atacou a República Dominicana e colocou à sua frente Trujillo que mais tarde foi assassinado po ordem da CIA.
    Os bombardeamentos de Dresden durante 24 horas (terror bombing) onde morreram pelo menos 25.000 civis foi efectuado por ingleses e americanos a uma cidade que não tinha alvos militares e onde só 23% do tecido industrial foi dabnificado contra os mais de 56 % de prédios de habitação e serviços sanitários. Mais houve em território alemão e nem por isso são citados tão frequentemente nomeadamente o de Hamburgo 50.000 civis mortos e o de Pforzheim 18.000 civis mortos.
    A bomba atómica deitada sobre Nagasaki 80.000 mortos sem necessidade alguma a não ser a de experimentar um tipo diferente de bomba em relação à lançada sobre Hiroshima (140.000 mortos). O general McArthur reconheceu em 1960 que não existiu nenhuma necessidade militar de usar as bombas.
    Quem terá estado por trás da Baía dos Porcos, dos massacres em Angola perpretados pela UPA, do assassínio do Allende, chamava moderado a Videla, armou Saddam, apoiou Zia que tinha assassinado o democraticamente eleito Ali Bhutto, forneceu armas aos dois lados no Ruanda, utilizou o famoso agente laranja na Indochina e se vê metido em todas as alhadas onde os direitos humanos são relegados para o ground zero quando os interesses americanos correm perigo?
    Estes, são apenas alguns exemplos, muitos mais haverá por aí, e nem todas as vítimas do 11 de Setembro mais as respetivas famílias chegariam para equilibrar esta mortífera contagem que continua sem que ninguém esteja interessado em pôr-lhe cobro.

  12. Sinhã, não entendi o que disseste, por isso não o comentei. Mas se tens algo para dizer-me, ou perguntar, podes sempre tentar com outras palavras que não pagas mais por isso.
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    Jaime Santos, não estou a perceber o que invocas. O que percebo é que Obama fez questão de capturar Bin Laden no seu primeiro mandato. Tal foi conseguido e não houve Nobel da Paz que o tivesse levado a hesitar quanto ao que os americanos queriam: dar sentido à tragédia do 11 de Setembro com algum tipo de justiça. A justiça aplicada foi a da guerra ou a da legítima defesa. Portanto, o tal homem sensato e inteligente que dizes ser Obama concluiu que o melhor que podia acontecer ao país a que preside era matar Bin Laden.

    Se fosses americano, ou alguém que amasses ou estimasses tivesse morrido por causa da loucura do terrorismo talvez também não tivesses tantas dúvidas quanto ao que era preciso fazer depois de pôr a mão na tua consciência.
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    maria, eu é que agradeço a tua presença e palavras. Quanto ao tema em discussão, fazes alguns considerandos que não entendo e pareces-me com mais dúvidas do que certezas. Porém, detectei uma falácia:

    “não é a que pode abrir caminhos de paz e de diálogo entre as diferentes correntes religiosas e sociedades envolventes.”

    Estás aqui a pressupor que o terrorismo de Bin Laden seria uma manifestação legítima de uma corrente religiosa diferente da cristã, a que se acrescentam as diferenças inerentes nas respectivas sociedades. Ora, tal raciocínio é inaceitável pois nem os EUA, ou o Ocidente, representam qualquer religião (vivemos em Estados seculares), nem Bin Laden representava fosse o que fosse para além da sua alucinação. Por isso chegou também a matar muçulmanos, sendo odiado em muitos países e locais onde se vive segundo os preceitos teologais do Corão.
    __

    Teofilo M., trazes exemplos que saem fora do conceito de terrorismo tal como o aplicamos a acontecimentos como o 11 de Setembro. Por essa lógica, qualquer guerra, por ter acções violentas – e de uma violência que invariavelmente tem aspectos ou momentos incontrolados e caóticos – podia ser descrita como um acto terrorista e, dessa forma, o conceito desapareceria diluído numa categoria maior.

    Para não nos perdermos, só te pergunto se a destruição que Bin Laden provocou e jurou provocar encontra algum acontecimento da responsabilidade dos EUA, ou aliados, que a legitime.

  13. Se fosses palestiniano, ou alguém que amasses ou estimasses tivesse morrido por causa da loucura do terrorismo israelita sobre a palestina, apoiado pelos americanos, então devo presumir que exultarias com as mortes causadas em retaliação deste terrorismo. ou há double standards? o teu apego pelas virtudes do estado de direito flutua, flutua.

  14. susana, é nesse princípio da razão do mais forte que se fundamenta a lógica assassina e destrutiva do terrorismo.

    De que terrorismo israelita falas? E qual foi o apoio americano nesses casos? Responderei quando explicitares.

  15. se é suposto os comentadores agradecerem os blogers por darem retorno ao que dizem, obrigada mas não o farei – eu sou comentadora, não sou pedinte. por outro lado, é a falta de entendimento que mais rapidamente gera discussão (e não o contrário) como, aliás, se pode constatar pelos comentários que acabaste de tecer a outros comentadores.

    eu disse o que disse, em bom português. mas se me disseres o que não entendeste eu, com toda a certeza e gosto, explicarei. :-)

  16. Hum, deixa-me juntar ao Val, Sinhã, para dizer que também não entendo muitas vezes o que queres dizer, logo não sei como responder. Por mim, é só isso, mais nada :)

  17. Val, Eu gostava que me explicasses o que é isso da Justiça de Guerra ou da Legítima Defesa (a única Justiça que conheço é a dos Tribunais). Se te referes à Razão de Estado em relação à eliminação de Bin Laden, eu acho que já disse acima que não censuro Obama pela decisão que tomou. Agora, Direito à Inocência? Em democracia, os governados partilham de responsabilidades pelas decisões dos governantes. E, objectivamente, os EUA partilham de responsabilidades pelo apoio aos radicais muçulmanos no Afeganistão e no Paquistão e em particular pelo apoio aos militares paquistaneses, para além de outras responsabilidades que levam ao difuso ódio à América que existe no Mundo Muçulmano, mas não me vou meter nisso, porque isso não justifica o apoio material directo que Bin Laden recebeu e sem o qual a Al-Qaeda não existiria. Será muito esperar que os Americanos reconheçam estes factos e que exijam a esta e a futuras administrações que mudem a sua política externa? Por isso lamento, reconheço que senti alívio pela morte de Bin Laden, mas até essa mudança de política acontecer, não acho que haja muito a celebrar…

  18. oh abécula! se fosses comentadeira, comentavas e não te punhas pr’aí com prosotretas indecifráveis de autopromoção tipo franciscano, flatulências, brejeirices e amuos de qi incompreendido.

  19. Jaime Santos, a expressão “direito à inocência” apenas se liga às manifestações de júbilo dos americanos. Essas pessoas são inocentes, e eram elas as vítimas dos ataques e das ameaças.

    Nada no apoio a um povo que pretende lutar contra um invasor se relaciona com actividades terroristas futuras que matam civis em nome de Alá, tal como acabas a reconhecer.

    Finalmente, a questão da celebração nasce e esgota-se no que vimos nos EUA. Foi essa atitude de explosão emocional que levantou a questão, no resto do Mundo não se constatou fenómeno igual, sequer aproximado.

  20. Caro Val,
    o problema está aí mesmo, e és tu próprio a dizê-lo quando escreves sobre os conceitos do terrorismo que são usados conforme as necessidades.
    A mim preocupa-me mais a definição. E aí não há conceitos que valham para alterar o axioma.
    Saberás bem que há sempre atos terroristas dentro de uma guerra e existem de ambos os lados, mas geralmente são os vencedores que julgam os atos dos vencidos e nunca verão os seus julgados à mesma luz.
    Hoje em dia o terrorismo tem mil faces. Estaline foi um terrorista, e que me lembre ninguém invadiu a Rússia de então para a tornar democrática. Logo ali ao lado Mao foi outro e não vi ninguém a tentar matá-lo. Há muitos anos que acusam a Coreia do Norte de impor pelo terror a sua política e quem é que obsta a que isso aconteça.
    Por outro lado, Idi Amin, outro terrorista, foi apoiado inicialmente por ingleses e israelitas depois foi o que se viu. Do Ruanda já falei embora por alto mas posso perguntar se apoiar materialmente dois lados do mesmo povo que se destruíram num imenso massacre não será terrorismo de estado. E que dizer da venda de armamento ao Irão que estava debaixo de um embargo durante a administração Reagan e que hoje é apelidado de estado terrorista. E sobre o apoio aos Contras para o derrube do governo da Nicarágua.
    Quantas vítimas foram gerados por este tipo de terrorismo?
    Ou terrorismo, são apenas as bombas nas caixas dos engraxadores de Saigão, os ataques a kibutz israelitas, o atentado de Lockerbie, os militantes do Hezzbollah, os carros-bomba nos mercados, e não o são o bombardeamento gratuito de escolas e hospitais quando efectuado por forças chamadas amigas, o exercício da tortura em prisões fora do alcance de qualquer justiça, o assassínio político, o apoio descarado a governos anti-democráticos mas com grandes reservas de materiais influentes ou todos aqueles jogos de poder sujos e viciosos escondidos em milhões de papéis que circulam entre embaixadas?

  21. Teofilo M., claro que essa leitura plástica do que seja o terrorismo, fazendo-o equivaler a qualquer acto de violência, condena esta discussão, porque não é possível tomar partido. Por mim, nem sequer feridos numa guerra desejo que aconteçam, quanto mais o interminável rol de desgraças pessoais e colectivas que a História regista em todos os tempos. Só que se nivelar pelas suas consequências todos os actos da política internacional que causem baixas e destruição material, deixarei de ser analítico. Não creio que tal seja uma vantagem.

    Nesta conversa, está em causa saber se aqueles americanos que foram para a rua celebrar efusivamente a morte de alguém estavam a errar, fosse de que forma fosse. E tu continuas sem ser claro a respeito da questão fundamental: o terrorismo de Bin Laden é, para ti, uma resposta legítima a algo que os EUA e aliados tenham feito? É que se a tua resposta for afirmativa, concluo que também faças equivaler as manifestações de júbilo de alguns americanos com a de alguns palestinianos (por exemplo, mas não só, até europeus e outros) que exultaram com o 11 de Setembro.

  22. Caro Val,
    a vantagem é que numa guerra são os militares que a devem travar. Dir-me-ás que os militares são civis fardados, mas são-no por escolha ou porque a lei aprovada por maioria o permite.
    Que se matem uns aos outros e que por vezes percam a cabeça, até posso entender, já não entendo que políticos carreguem num botão refastelados num ambiente com ar condicionado despachem para o outro mundo gente que nada tema ver com os seus assuntos.
    Os amaericanos que foram para a rua festejar, mais não fizeram do que é próprio da sua educação e natureza. Matar nos EUA é qualquer coisa de atávico, são os genes a funcionar, é a história do procura-se vivo ou morto. São os atentados sem sentido, os crimes mais hediondos que tornam suportável o Jack estripador.
    O ódio de Bin Laden pelos EUA não se aplica da mesma maneira a outros países porquê? O único caso que saíu um pouco da normalidade foi o atentado em Madrid, e mesmo esse teve como explicação que foi uma célula islâmica que tentou copiar os métodos da al-Qaeda.
    Embora já se tenha negado aqui a ideia de que Osama queria o retorno ao islamismo mais primário e extremista de que eu sou defensor, repara que é sempre a sociedade americana a vítima primeira dos seus atentados e porque será?
    Quando se afirma que a al-Qaeda quer lutar contra a cristandade está a falar-se verdade ou apenas a tentar manipulá-la? Se assim fosse era natural termos tido atentados cá por Portugal, Espanha, Itália, França, México, Brasil, Venezuela, Argentina o que não foi o caso.
    bin Laden atacou os EUA porque entende que eles estão por detrás de toda a ocidentalização dos países islâmicos, logo são bárbaros e agressores do Islão, daí o ataque focalizado e no que lhes dói mais… a zona financeira.
    Não estou, nem nunca estive de acordo com os seus métodos, mas isso não me faz desculpar e entender quem utiliza métodos semelhantes e anda por aí impune a fazer a sua vidinha. Lembras-te, por exemplo, do ataque de um helicóptero americano a um grupo de civis onde se encontravam alguns jornalistas e que abriu fogo sem nenhuma necessidade matando alguns e ferindo outros enquanto se divertiam a bordo? Recordas o que foi feito em Abu Ghraib e que, pelos vistos, não era do conhecimentos de ninguém como se isso fosse possível? Esqueceste o disparo intencional contra o hotel Palestina onde se hospedavam jornalistas que levou à morte de dois deles?
    Foi alguém das altas patentes castigado? Não. Talvez por isso.

  23. Val,

    sou radicalmente contra a pena de morte. Seja em que circunstâncias for.
    Não sei (não sabemos) que ordens e opções tinham os operacionais que levaram à morte de Bin Laden.
    Há quem considere a acção; um acto de justiça, de legítima defesa…é aí que me surgem as dúvidas:
    Os EUA, ignorando todas as instâncias de direito e justiça internacionais (podem fazê-lo pelas capacidades técnicas e operacionais), desencadearam uma acção num país estrangeiro e eliminaram um inimigo que, com actos terroristas, os tinha agredido.

    Bin-Laden não representava nada, como dizes. Era um perigoso alucinado que, em nome duma suposta pureza religiosa (isso não existe mas a história é fértil de exemplos de muita morte e violência operada em nome dela. Até o cristianismo caiu nessa tentação) congregou adeptos para alimentarem e executarem actos terroristas.

    Da minha discreta existência, e do que observo, sei que muito dificilmente de dialoga com fundamentalistas. E com terroristas muito menos. Não tenho ilusões quanto a isso.

    No Ocidente “laico” e secular também existe muito fundamentalismo. Até que ponto algumas decisões tomadas pela administração norte americana, não são influenciadas por ele? Directa ou indirectamente. (O evangelismo nos EUA, em determinados sectores, assume um forte fundamentalismo). Nomeio a administração “Bush” para citar apenas um exemplo. E a futura reeleição de Obama (para acontecer também tem de agradar a esses).

    Nas religiões sempre existiu ( e existe) com diferentes intensidades, a ideia de que cada uma é a que representa melhor e exclusivamente a revelação de Deus. Isto gera fundamentalismo e, consequentemente, violência. Mesmo que não física.
    É neste contexto que defendo o diálogo. Já se faz e pode fazer muito mais nesse campo. E não é só por causa da questão religiosa. A globalização também a isso “obriga”.

    Citei o caso de Dietrich Bonhoeffer, porque eticamente me parece diferente do que está neste momento em causa.

    As manifestações de júbilo e celebração por parte dos norte americanos, sobretudo as que nos chegaram via media, dos cidadãos comuns, parecem-me dever ser encaradas num contexto emotivo/sentimental. E os sentimentos não são bons nem são maus. Como se age para além deles é que entra no contexto ético e moral.

  24. Teofilo M., estás a querer falar acerca de outra questão, a das responsabilidades da generalidade dos países (e tanto maior quão maior for o seu poder) na sucessão de injustiças que a História regista. Por aí, estamos todos juntos no lamento.

    Quanto aos exemplos que trazes de casos que rotulas similares, o do helicóptero, do ataque ao hotel e Abu Ghraib, isso são perigosas falácias, na minha opinião. Esses acontecimentos foram investigados pelas autoridades e as responsabilidades individuais foram apuradas. Não existe qualquer ponto de comparação com uma acção terrorista. A explicação, no caso do helicóptero e do tanque, reside na própria situação de guerra, e no caso da prisão para a confluência da responsabilidade individual e pressão de grupo.
    __

    maria, também sou radicalmente contra a pena de morte (ao ponto de também ser contra o aborto e formas ilegítimas de eutanásia). Contudo, reconheço o direito de defesa e sei que é impossível ir para a guerra com a intenção de proteger o inimigo.

    Dizes que os EUA não respeitaram o direito internacional. Ora, isso é um tema inerentemente polémico, como o são todos os que dependem da interpretação. Neste caso, os americanos invocam o direito à sua protecção contra alguém que já os tinha atacado com uma gravidade que foi classificada como acto de guerra.

    Os considerandos acerca da influência do fundamentalismo religioso na governação dos EUA carecem de provas, não sendo crível que alguém as reúna. A democracia e liberdade de expressão são realidades na América, não se compadecem com esse simplismo de ver tantos interesses sob a influência da irracionalidade de uns religiosos. Nem sequer com o Bush tal foi estabelecido, quanto mais com Obama.

    Acima de tudo, parece-me que a temática do terrorismo de invocação islâmica não deve ser vista como parte do fenómeno religioso. É precisamente isso que os terroristas tentam fazer, cobrir a sua loucura com o manto religioso, e é isso que tem de ser denunciado sem hesitação.

    Concordo absolutamente contigo na interpretação das manifestações festivas pela morte de Bin Laden: descarga de emoções e sentimentos.

  25. Sendo certo que, num assunto como este, há muito que a inocência foi perdida, totalmente (e de ambos os lados), as festarolas parecem-me no mínimo deslocadas, relevando não de qualquer forma de inocência, mas do mais básico instinto de pura vingança. Mera questão de sensibilidade, sem dúvida, que será estultícia discutir. Aliás, quanto ao antes do asterisco, o texto não me merece qualquer discordância substancial.

    Quanto ao “pós-asterisco”, aí sim, duvido muito de que o impluso primário e o objectivo último de O. Bin Laden fossem os de aniquilar a “Civilização”, ou até a “Cristandade”. Mais depressa (e com muito menos dificuldade…) atacaria nesse caso Atenas, Roma, Viena, Paris, Bruxelas, o Vaticano, ou até Fátima (não se riam, por favor)!

    Nova Iorque e torres de escritórios com empresas de alta finança e obscuros negócios não são ainda, quanto a mim, sinónimo da nossa Civilização actual. Talvez não falte muito, é um facto. Mas se é assim, se calhar então muitos de nós, europeus, latino-americanos, africanos e asiáticos não seremos ainda civilizados. Nesse caso, tal como os “romanos” que viviam fora de Roma, talvez não devêssemos preocupar-nos assim tanto com o fim da tal Civilização do Dólar. Afinal, se não fossem os “Bárbaros”, quem teria contruído as Catedrais (e reinventado a Cultura europeia)?

  26. Marco Alberto Alves, estamos em campos distintos nesta temática e problemática. Quero só lembrar-te que se calcula serem à volta de 10.000 as vítimas (mortos e feridos) da al-Qaeda. Dessas, a maior parte são muçulmanos. Ora, o ataque à civilização, para mim, é o ataque aos inocentes – seja qual for o seu credo ou etnia, sejam religiosos, agnósticos ou ateus, ocidentais ou orientais, do Norte ou do Sul.

    Isto é simples. Isto é tudo o que há de mais importante para se escolher um lado.

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