A campanha pelo estado de excepção

Pedro MexiaSe no fim deste processo, num processo desta natureza, contra um ex-primeiro-ministro, o crime realmente grave não é provado... isto é um flop grande. E eu não consegui ainda, em nenhum momento...

João Miguel TavaresMas as leis portuguesas estão feitas para esse flop existir, não é?...

Pedro Mexia'Tá bem, mas se há um flop probatório...

João Miguel TavaresMas a questão é que eu não acho. Acho que a coisa mais importante neste processo, apesar de tudo, é avaliar quem é que é aquele homem.

Governo Sombra – 8 de Novembro

*_*

O Presidente da comissão das comemorações do 10 de Junho de 2019 assumiu há semanas, num programa de televisão, que (i) as instituições e entidades públicas que o escolheram, e que ele aceitou representar, para ser o rosto e a voz de um dos mais simbólicos feriados da Pátria são cúmplices de criminosos e que (ii) a “Operação Marquês” é um processo judicial cuja finalidade não é descobrir se eventuais crimes foram cometidos, e de que modo, e com que gravidade, antes a devassa, humilhação e condenação moral e política de um dado cidadão e do partido a que pertenceu. A seu favor, o facto de não ter sido a primeira vez que bolçou tal, a que se junta a evidência de ser exactamente assim que a indústria da calúnia e a direita decadente têm explorado o processo desde o período em que ele ainda não existia oficialmente mas já circulava no meio político-jornalístico e dava origem a reportagens em Paris e a tentativas de golpadas com a chancela da PGR para ajudar Seguro no páreo com Costa. Também a seu favor o facto de aceitar servir e promover aqueles que, garante e repete com dolorosa vontade de se partir à gargalhada, usam o Estado para ajudar os corruptos a escaparem impunes; logo, que são igualmente corruptos e que, na plena posse dos seus poderes corruptores e corrompidos, o emolduravam em Portalegre – o que faz do João Miguel Tavares, afinal, farinha do mesmo saco, para ir buscar a metáfora favorita do veterotestamentário Jerónimo.

O que releva, em tudo o que diga respeito ao caluniador profissional entronizado por Marcelo Rebelo de Sousa à custa da dignidade da República, é sempre quem lhe paga, ou quem o usa, ou quem se cala. No caso, o primeiro silente foi Pedro Mexia, fulano que ostenta uma licenciatura em Direito pela Universidade Católica no seu currículo. Que diria este licenciado em Estado de direito e seus códigos legais se tivesse de justificar a sua registada concordância com a acusação alucinada e fétida de termos leis feitas de propósito – portanto, com a conivência do Parlamento e dos eleitores, dos Presidentes da República e dos tribunais, passando pelos Governos e pelo Ministério Público, a que se junta a imprensa e a sociedade civil – para permitir impunemente a corrupção das mais altas figuras do Estado? Que diria este infeliz se o destino lhe pregasse a partida de ter de opinar na televisão, ou que fosse da varanda de sua casa, sobre a ideia de poderem existir processos judiciais cujo móbil “mais importante” não é o respeito pela Constituição e a aplicação da Lei, antes a “avaliação” de alvos políticos? E que diria o Sr. Araújo, esse exemplo deslumbrante da inteligência mais apurada ao serviço da liberdade mais indómita, calhando sujeitarem-no à mesma curiosidade? E que diria o alegrete, o pachola, o galhardo representante do mais nobre jornalismo, de seu nome Carlos Vaz Marques, se colocado entre as mesmas perguntas e a parede? E que diria Sérgio Figueiredo, director de informação da TVI, se interrogado sobre a utilidade social e/ou cultural de espalhar no espaço público esse programa político de ódio a Portugal e a certos portugueses que o caluniador profissional acha ser a chave do seu sucesso?

O silêncio, de facto, faz parte do modelo de negócio de quem utiliza meios de comunicação social de grande alcance para apoiar os negacionistas climáticos, para arrotar ignorância pesporrenta sobre o multiculturalismo, para alimentar o revisionismo sobre o Estado Novo, para ligar Vítor Constâncio, a propósito de algo que se provou e comprovou não passar de chicana e calúnia, a Adolf Eichmann, a Hitler, ao Holocausto. Podemos adivinhar o seu gozo, a soberba, ao constatar que pode insultar e ofender tudo e todos. O seu método consiste em olhar para as causas que defendem as pessoas que lhe pagam e para as causas das pessoas decentes, e depois arranjar maneira de se colar às primeiras e emporcalhar as segundas (se lhe cheirar a Sócrates e a esquerda) no limite do escândalo que obrigasse quem lhe paga a assumir responsabilidades editoriais. Poderia ser apenas um modo de vida como outro qualquer, seguramente menos nefando do que andar a traficar pessoas ou a assaltar idosos, mas acontece que é muito mais do que isso. A economia do sucesso deste caluniador está umbilicalmente ligada ao sucesso do que tem sido feito a Sócrates e ao PS pela oligarquia (com a, só aparentemente, paradoxal conivência do próprio Partido Socialista).

Começa hoje a ser interrogado o acusado que pode chutar o “Processo Marquês” para o arquivamento. Ignoro se o irá fazer, se o irá conseguir e, acima e antes de tudo, ignoro se cometeu algum crime. O que não dá para ignorar, sob pena de perder o respeito por mim mesmo, é a dimensão objectivamente corrupta que dá origem ao que veio a ser a operação de meter Sócrates na prisão a um ano de umas legislativas onde Passos Coelho concorria, onde Cavaco Silva protegia a direita, onde a procuradora-geral da República mostrava alinhamento político com o Governo e sua bandeira populista – e politicamente dirigida contra o PS – do “fim da impunidade”. Essa operação implicou várias ilegalidades e várias irregularidades, as quais, parece certo, ficarão abafadas pelo regime. Que já o começaram a ser ao se ter afastado as legítimas suspeitas existentes sobre o envolvimento de Carlos Alexandre e o afastamento de Ivo Rosa a partir do momento em que passaram a existir dois juízes no Ticão. Que não geram uma linha de espanto, sequer desconforto, ao se saber como a Caixa Geral de Depósitos foi usada de forma inaudita para se simular ter aí começado uma investigação que já durava há anos e anos.

Chegamos ao fim de 2019 com prováveis 15 anos de espionagem contínua sobre Sócrates, e sobre terceiros do seu círculo íntimo, onde até se obtiveram escutas ilegais de um primeiro-ministro em funções, e ninguém foi capaz de provar directamente uma única ilegalidade. Só existem comportamentos que chocam a moral comum à mistura com fantasias toscas, vergonhosas, e a esperança desesperada de que uma testemunha diga em tribunal o que precisa ser dito para o regime deixar cair a guilhotina. Conclusão: os milhões atribuídos a Sócrates são a milionésima parte de uma migalha quando comparados com a certeza de termos uma Justiça capaz de se enterrar na luta política mais sórdida e inconstitucional. Daí se compreender tão bem a campanha para que a “Operação Marquês” seja transformada numa concretização do estado de excepção.

18 thoughts on “A campanha pelo estado de excepção”

  1. Certíssimo, Valupi !
    Mas olha que a Op Marquês mais não faz do que dar visibilidade a um estado de excepção que já existe de facto na justiça. E há bastante tempo.

  2. BRUTAL… CLARO …. E COMPROVADO!
    …. MAS É O PAÍS QUE TEMOS, COM UMA DIREITA QUE HABITUADA AO “MONOPÓLIO DO PODER” SABE QUE PODE USAR O ESTADO COMO ARMA… E TEM O CAPITAL COMO ALIADO….

  3. há uma ilegalidade inegável, só que depende de queixa privada, que é o plágio ( dá direito a 3 anos de prisa) . talvez o plot saiba um dia que foi plagiado e o kitchs vá de cana.

  4. Oh Yo,porque raio não tens a coragem de dizer coisas claras e nítidas,que a maioria perceba?
    Charadas atrás de charadas…que enjoo, que merda…

  5. A charolesa castelhana não desgruda da companhia dos infiéis. Um dia a avença acaba, masochista dum cabrão!

  6. «Acho que a coisa mais importante neste processo, apesar de tudo, é avaliar quem é que é aquele homem.»

    Ter chegado a esta conclusão é deveras forte indicador do total falhanço intelectual deste lambe-botas delator corrupto sempre ao serviço de quem o possa promover na sua importância e conta bancária.
    Então não é que o bobo do reino dos ddt deste país ao fim de mais de dez anos a avaliar o ser Sócrates, sua moral, seu carácter, seus atributos político e éticos, sua vida pessoal e de político desde a juventude, seus estudos e passagens ao pormenor, suas riquezas e pobrezas pessoais e familiares, manias e taras de grandezas e misérias, os seus desvios sexuais e corrupções megalómanas e de, sobre toda essa panóplia de constatações assertivas, ter tecido opiniões categóricas e inferido uma convicção inabalável sobre o que foi, é e será sempre a personagem Sócrates vem, ao fim deste tempo todo confessar que não sabe quem é esse homem Sócrates ex-PM de Portugal!
    Ó caca rala, corrupto da ilegalidade conveniente estabelecida, perorista bem pago em todas as formas de media para opinares acerca do dito homem e que em todas as intervenções nesses locais feitas há anos e anos seguidos nunca tiveste qualquer dúvida em ditar certezas acerca de quem foi tal homem vens tu, cagalhão de gente imprópria, propor nova avaliação do dito.
    Afinal, depois de anos cheio de balofas certezas o que queres agora? Uma avaliação segundo as tuas “convicções” que seja prova para uma condenação exemplar conforme uma justiça à tua maneira e dos teus correligionários fedorentos.

  7. Mas qual é a dúvida? se o próprio Presidente dos Estados Unidos da América do Norte é julgado na praça pública, e com direito a transmissão televisiva, as democracias de inspiração anglosaxónica têm mas é que seguir a evolução dos conceitos plasmados nos respetivos Código de Processo Penal.
    Portugal não pode ficar para trás!

  8. Claro que, estamos perante um conjunto de invertebrados, tipo minhoca rastejante
    que, limpam os fundos, comendo e chafurdando nas “investigações” dos pasquins e,
    respirando os fumos de certas mentes pachecas onde predomina um ódio cego e in-
    veja da competência do ex Primeiro Ministro de Portugal!
    Para quem gosta ou aprecia as teorias da conspiração e, saiba pensar sobre as ques-
    tões, salta à vista que houve uma tácita conspiração para tentar anular política e pes-
    soalmente José Sócrates por ser incómoda para o “status” vigente na altura, basta
    analisar as ligações pessoais e corporativas e a forma canhestra como tudo começou
    para um caso tido por tão grave, não foi chamada a PJ tudo só com meros inspetores
    de finanças que se dizem especialistas em seguir os trânsitos dos dinheiros!?!
    Assim, não se percebem certos comentários aqui colocados desde o plágio? qual?
    até falar no Trump e no processo claro de destituição iniciado pelo Congresso do USA
    com audições públicas, quando por cá se limitaram a enviar “postas” para os aliados
    que fabricam os super juízes com pés de barro e sem amigos … vergonha, com esta
    famosa “operação” fizeram o país subir no “ranking” dos países mais corruptos, avil-
    tanto a já tão fraca e pobre Justiça como foi mencionado num recente relatório da
    OCDE , todos enchem a boca com a corrupção mas, é raro falar-se de competência e
    desempenho de funções a todos os níveis porque será???

  9. “…antes a devassa, humilhação e condenação moral e política de um dado cidadão…”, não se trata dum qualquer cidadão, foi 1º ministro de Portugal e sim, “pôs-se a jeito…”.

  10. ” Conclusão: os milhões atribuídos a Sócrates são a milionésima parte de uma migalha quando comparados com a certeza de termos uma Justiça capaz de se enterrar na luta política mais sórdida e inconstitucional”

    e daqui se conclui que o JMT é ministro da justiça , manda naquilo tudo , de forma a corromper a Justiça ; ou então , pelo mero facto de achar estranho que quem não tem cabras venda cabritos , sendo este quem político, a Justiça é uma cabra atrevida por não ter o bonitinho respeitinho e questioná-lo ( e , ó, não tem obtido respostas de jeito às questões , ele é cofres por todo lado e um Midas escondido no bolso ).

    Meter o Seguro ao barulho representa um avanço nas teorias caliméricas , representa pois. é só tirar cartas de manga , ãh?

    e , bem , calúnias à Justiça aqui são mais que muitas : destruir toda uma instituição pública , pilar do regime, para defender um só tipo que mete os pés pelas mãos sem justificar nada de nada de forma séria, é elevar trilhonésicamente a desfaçatez clubistica.

  11. Ó yo-yo e eu a pensar que quem tem metido os pés pelas mãos, já não sei há quantos anos, sem ainda não ter provado nada, é essa tal Justiça, que bem devia ser o pilar do dito.

  12. eu tinha um cofre onde guardava dinheiro vivo (meu) para pagar luvas a funcionários na Argélia, na Roménia, e outros países onde tinha negócios …

    o contrato pago ao Prof. Farinho era para ele prestar serviços jurídicos ás minhas empresas (tal como está redigido no mesmo) … não o chegou a fazer porque não calhou …
    ou seja, tentem descobrir o real motivo, digo eu …
    porém alguém pagava a alguém 80 000 euros para corrigir, para escrever de fio a pavio que fosse, uma merda de uma tese de mestrado ?, só mesmo os imbecis do MP para acreditarem nisso.

    o contrato de arrendamento (do apartamento) não servia para nada. Nunca quis receber o aluguer, por isso não registei o contrato e não paguei os impostos. Ele é que insistiu para fazermos um contrato para ninguém o vir a aborrecer no futuro, mas eu nunca quis receber dinheiro nenhum, nem aceito receber nada.
    Mais, depois das obras eu planeava arrendar o apartamento a terceiros, por causa da minha mulher que não queria que eu o emprestasse mais a ele.

    Ricardo Salgado ? não conheço. 12 milhões ? não passaram por mim.
    Atão e agora o “outro” diz que o dinheiro é dele, está no nome dele e teve meios de o ganhar.
    E agora ?
    E AGORA ????

  13. Quando chegarmos á parte das amigas talvez seja melhor eu falar só ao ouvido do senhor juiz, posso ? …
    É que há coisas que a minha mulher não quer que eu saiba que ela sabe …

  14. Uma alegada justiça que prende descaradamente para depois investigar,que persegue há que anos um pseudo arguido gastando milhões engendrando suposições atrás uma das outras e sempre sem provas minimamente credíveis , que efecua uma prisão vergonhosa à luz de um “direito”que nem a PIDE de má memória praticou e com a pasquinagem devidamente avisada presente para reportar a infâmia,na verdade nem anda a meter os pés pelas mãos,há muito que fez sua a “justiça”que os assalariados da cofina já decretaram na praça pública de uma estrondosa condenação!

  15. Valupi

    E para quando uma boa posta sobre “circuitos financeiros” ?

    A transferiu para B que transferiu para C que transferiu para D que transferiu para E.
    Logo … A pagou (ou deu) qualquer coisa a E.

    Ricardo Salgado transferiu a Helder Bataglia que transferiu para Joaquim Barroca que transferiu para Carlos Santos Silva que transferiu para Sócrates …

    OU
    A minha entidade patronal (vamos chamar-lhe a SONAE) pagou-me a MIM, eu paguei o meu carro novo ao dono do Stand de Automóveis, que pagou o aluguer ao dono do prédio, que pagou ao dealer a coca que anda a snifar.
    Logo … o MP acredita que a Sonae anda a comprar coca para os Azevedos snifarem …

    Que tal, gostaram ?

  16. a sonae passou um recibo de salário, a SS efectuou os respectivos descontos, o fisco tratou do irs , o dono do stand passou recibo, dado ser mais de 1000 euros o comprador não pode pagar em dinheiro vivo da silva , teve de usar multibanco , cheque ou vale correio , o dono do prédio registou o contrato no fisco e teve de passar recibo ( electrónico, se for menor de 65 anos) , o único aqui que não poderá dizer , dado poder ser preso, donde lhe vem o dinheiro é o dealer , mas com certeza que a PJ , que não é burra, sabe que vende droga. tão fácil seguir dinheiro com proveniência licita .

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