olhos nus

Os óculos partiram-se. Mesmo no eixo que assenta na cana do nariz. Não foi queda, nem o ter-me sentado, inadvertidamente, com eles no bolso. Limpava a lente direita quando foi um olho para cada lado. Sucumbiram a anos de uso.
Com olhos cansados, aplicados em leituras ao longo do dia, raramente suporto, agora, as lentes de contacto. E foi assim que saí de casa, pela primeira vez desde os dezasseis anos, sem o recurso a próteses.
Não recordava a carícia do ar quente na córnea, a entrada da luz solar sem reflexos. Já não sabia o que era a visão pura, sem o incómodo de corpos estranhos à fisiologia a mediá-la, no espaço alheio à domesticidade.
Descubro então como as minhas (muitas) dioptrias geraram uma peculiar percepção e modos particulares de olhar. Comentavam que, adolescente, caminhava a olhar para o solo. Sabia que esta disposição aparentemente cabisbaixa me conduziu a representações de um mundo visto de cima. Imagens de perspectivas sem pontos de fuga, traços e manchas nos pavimentos, diferenças na irregularidade das pedras da calçada. Podia ver o que havia na distância reflectido nas superfícies molhadas pela chuva, pedaços de céu nas poças de água.
Depois passei a olhar sobretudo para cima, ávida de distâncias inalcançáveis. Mas continuava a chocar com as pessoas e, aqui e além, a embater em postes. Aprendi a olhar em frente. Hoje percebi as razões do meu apelo inicial. Quando se colecciona detalhes com olhos muito míopes, sabe-se que apenas o chão que se pisa é tangível.

susana

26 thoughts on “olhos nus”

  1. (e agora comentário ao texto: sim, a miopia é uma valente muralha de nós para fora, mas repara que é uma ilusão: essa ideia que aquilo que não vemos também não nos vê, normalmente antecede uma dentada numa canela.)

  2. susana,
    eu tenho o problema oposto, tenho 125% de visão. Isso faz com que tenha grande dificuldade em conduzir de noite, os faróis dos carros e as luzes da cidade fazem-me confusão. O que me leva no mesmo sentido: olhar para o chão.
    Por isso, pensa positivo, tu podes não ver determinadas coisas (algumas até é bom), mas eu não posso ver a Luz.

  3. Já que isto é um diálogo de míopes, gostaria de fazer uma pergunta: esse isolamento resultante da deficiência de visão é algo de terrífico? algo que causa medo e pavor dos outros? algo que dá necessariamente uma grande insegurança? Pergunto porque tenho um filho que já vai em 4 dioptrias e uma psicóloga vendeu-me essa.

  4. mana, aí está uma sorte a que eu escapava sempre. e hahahahahaha prá dentada na canela.

    joão, hum?

    jorge, não me lmnto. trouxe-me uma mensa capacidade de síntese.

    nico, essa foi mal comprada. acho. fui míope durante anos sem sequer me aperceber. ao ser gradual, não sabia que se via melhor do que eu via. tinha 4-5 dioptrias quando comecei a usar lentes de contacto. nenhum medo ou pavor dos outros, nem sequer isolamento, mesmo enquanto não sabia que era míope, nem tinha reparação para esse défice – o que presumo não seja o caso do teu filho.

  5. E como fica o interior das pessoas visto sem óculos? Melhora? Se sim, deixa-os em casa. O mundo parecer-te-á mais belo.

  6. bonito, susana, agora o impressionismo faz sentido, além de que é um ganho e não uma perda poder ver com duas velocidades, ou melhor, intensidades, com e sem, fauve

    como tu achas graça a eventos pontuados pelas papilas aproxima-se sarapatel e vindalho, mas o I Ching tá mau, ugh!, não escapo à última onda de Plutão

  7. daniel, isso vê-se bem é de muito perto. e eu tenho os olhos cansados, mas ainda não padeço do que chamam vista cansada.
    se falas em interiores de pessoas vivas, exclui-se a autópsia; radiografias, tacs e ecografias são sempre imagens atraentes – e enganadoras. de resto, as vísceras são muito lindas e não há naipe de copas que chegue aos calcanhares de um coração verdadeiro.

    exactamente, z, isso das duas velocidades. a outra abriu-me o apetite.

    sulidade, então porquê? não gostas dos calores na córnea?

    jorge, ainda bem.

  8. Com 60 anos e usando óculos desde a instrução primária aprimeira coisa que faço de manhã, antes mesmo de me levantar é pôr os óculos.
    Reconheço que sem eles sou um deficiente.

  9. Também me aconteceu uma vez partir os óculos pela chamada “ponte”.
    Deixei passar a hora de ponta e fui para a paragem de autocarro, onde fiz parar dois ou três (-Para onde vai?) até passar aquele que me levava às proximidades do meu óculista de há muitos anos.
    Ainda entrei em duas lojas antes de acertar com a porta certa. A paragem, que fica perto de uma esquina facilmente identificável era um bocadinho mais longe do que eu pensava.
    E quando me disseram: -Pode vir cá amanhã buscá-los, repondi: -Não saio daqui sem eles.

  10. Muito bonito, Susana.
    Já tinha saudades deste teu dom de encontrar poesia no quotidiano.
    E sei exactamente ao que te referes (acho que todos os míopes conseguem perceber). Não tiveste vertigens quando olhaste para o chão com os novos óculos? A mim parece-me sempre que a calçada como que se dobra e escorre num remoinho.

  11. Adorei o texto, Susana.
    Imagina que me lembrei de “As asas do desejo”, aquele momento em que o anjo se torna humano e descobre o sabor do café, a sensação de calor, as cores. Curioso.

  12. joãozinho, deficientes, é isso mesmo. mesmo assim, leva-me a pensar que daqui à cegueira ainda há uma distância enorme. e os cegos, andam na rua (enfim, alguns – e com que dificuldade!, mas andam).

    luis, muito obrigada. e a tua leitura é bem pertinente.

    querida M., e eu saudades tuas. ainda não tenho óculos novos. estou à espera da consulta (já agora ajusto a graduação…). ando com os ósculos colados com fita adesiva (muito lindo).
    é como dizes. nunca consegui andar na rua com os primeiros óculos, porque me parecia enterrar os pés no asfalto a cada passo. mas a vertigem, ou desequilíbrio, acontece também sem óculos – o que eu percebi, quando reparei que olhava para o chão para não me desequilibrar.

    alba, sim, curioso. e obrigada. agora fizeste-me lembrar «os outros» do martin amis, que faz lembrar algumas das histórias do oliver sacks.

    cláudia, é só levantares o nariz, estão no alto da tua cabeça.

  13. Susana

    Surpresa, confesso. Melhor, ignorância. Não me recordava do seu escrever,o que só pode querer dizer duas coisas, que leio pouco ou que a li sempre sem atenção. Agora pus os óculos. E não, não é trocadilho de pacotilha. Sem querer alongar ‘conversas de míopes’, sou óculodependente desde os 9, creio. Nada me faz sentir mais inseguro que partir os óculos (bem, talvez o Bush). Li com gosto. Duas vezes. E adorei o humor da mana e da Cláudia. Mas nem o talento e humor das três, todo junto, me faz sentir tão inseguro como partir os óculos.

    RVN

  14. susana, despoço-me no teu lindo olhos nús, de ti e de todo o pessoal que curto aqui.

    que estejam bem é o que desejo, desejo mesmo felizes, que eu gosto de palavras proibidas. Levo um livro de infinitos se tiver necessidade de disparar algum :-)

    mas eu venho aqui dar um cheirinho de vez em quando por causa das saudades, tuga é assim e agora internauta

    Também levo ultra-levure, aspirina e etc. não te preocupes sou um raposo avisado…

  15. (bem parece que os deuses não querem que eu me despeça e arranjaram-me ali um neologismo que só espero não me traga complicações – até já, então)

  16. rvn, se nunca me leste com alguma atenção, nada ficaste a perder, asseguro-te. então o talento e humor dos outros faz-te sentir inseguro? hum…

    z, faz então boa viagem. :-)

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.