Naufrágio previsível num oceano de mediocridade

Impossível não notar que, nos últimos dias, sobretudo depois de a Grécia ter sido “resgatada” pela terceira vez para logo de seguida entrar, pela mão das agências de notação, em “selective default” (incumprimento controlado), a situação em Portugal tem vindo a deteriorar-se literalmente a olhos vistos.

O juros da dívida, que têm baixado para a Espanha e a Itália, por cá têm subido, no mercado secundário, sobretudo na dívida a 5 e 10 anos (16% e 14% respetivamente). As perspetivas de financiamento nos mercados para o próximo ano estão cada vez mais negras.

O desemprego passou praticamente de um dia para o outro de 14,3% para 14,8%!

Para coroar tudo isto, soube-se hoje que “As dívidas comerciais da Região Autónoma da Madeira estão estimadas em dois mil milhões de euros, segundo o secretário do Plano e Finanças, Ventura Garcês, pelo que a dívida global da região deve assim ultrapassar a barreira dos 8000 milhões.” (Público)

Com os alertas de várias entidades sobre a diminuição acentuada das receitas e das contribuições para a segurança social, o Governo anda desnorteado, claro, e, em desespero, resolveu regressar à velha estratégia de culpar o Governo anterior pela herança deixada.
Dificilmente conseguirão que pegue, meus caros. Dizer coisas dessas no dia em que se conhecem os novos números da Madeira parece-me desplante inútil. Portugal perfila-se para ser o próximo a cair e as teorias de Gaspar podem regressar à gaveta de um gabinete do Banco de Portugal para revisão profunda, em especial da sua parte mais curta – a referente ao contexto -, merecido arquivamento ou mesmo queima radical.

Sendo um filme de enredo trágico que ninguém gosta de ver, mas infelizmente todos pagamos para ver, não deixa de ter, apesar de tudo, os seus momentos de humor:

«O ministro Miguel Relvas afirma que o Governo está a seguir as políticas necessárias para recuperar o país tendo sempre “uma grande preocupação com os sectores mais desfavorecidos”, num comentário às declarações de Cavaco Silva sobre a austeridade. “O Governo tudo tem feito para limitar a austeridade”, disse o ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares aos jornalistas.» (Público)

Álvaro Santos Pereira perde gestão dos fundos comunitários
«Segundo o jornal (DN), a coordenação dos fundos do QREN passa para o ministro das Finanças, sendo que será alterado o modelo de governação dos fundos comunitários. O objectivo passa por mover os fundos reservados para infra-estruturas, como o TGV, para outros programas de apoio ao emprego e à formação.» (Jornal de Negócios)
Já nem os transportes e o emprego, ó Álvaro?

Enquanto isto, na Europa “séria”

Para além do jogo de Sudoku do ministro alemão das Finanças no Parlamento, «Juncker considerou […] “escandaloso” que as despesas militares na Grécia se mantenham elevadas num contexto de redução de salários e pensões, e “um escândalo” que os “países virtuosos” insistam em vender equipamento militar a Atenas. A afirmação contém uma crítica feroz à França e Alemanha, que continuam a vender submarinos e aviões à Grécia. Segundo o Banco Mundial, Grécia é o país da UE que mais gasta em defesa em termos relativos, com gastos de 3,11% do PIB em 2010, bem longe do Reino Unido, no segundo lugar, com 2,65% do PIB
(Público)

Vivemos numa época de génios.

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