Medidas estruturais profundas, diz ele

O FMI existe para quê? Tanto quanto percebi, para intervir nos países em apuros financeiros, sejam quais forem as causas, de molde a levá-los a pagar as dívidas aos credores, seja a que preço for para as populações e para o presente e o futuro dos países. Para tal, concede-lhes um novo mas teoricamente derradeiro e eficaz empréstimo, pelo qual se faz pagar bem, embora não tão bem como os anteriores credores, estando aí a suposta vantagem, pobres de nós. A receita aplicada também tem por curiosa característica ser a mesma para todos os “doentes”.

A missão desta instituição convém que não seja esquecida nunca, porque, a partir daí, tudo o que personagens como Poul Thomsen ou até mesmo Christine Lagarde possam dizer é conversa autojustificativa da usura, da indiferença ou da orientação ideológica, ou são incentivos verbais à calma e, claro está, ao pagamento. Eles têm que dizer alguma coisa.

Faz parte dessa conversa as “reformas estruturais profundas”. O FMI, no caso europeu acompanhado e corroborado pelos alemães, vulgo UE, e pelo BCE, mandam para o ar coisas, à espera que os tolos apanhem, e que subentendem a ideia de que Portugal – vamos concentrar-nos aqui – se foi abaixo porque, além da dívida com que nenhum credor ganhou e que nenhuma UE incentivou, até agora, as empresas não podiam despedir a seu bel-prazer ou porque os salários eram demasiado elevados. Esta “evidência”, que só vê mesmo quem é… cego, é desmentida pela realidade. As empresas começaram a fechar em catadupa na sequência da crise de 2008 por falta de mercado (razões várias, países de Leste) e por falta de crédito, razões que, aliás, se mantêm. Com as leis em vigor, os despedimentos nunca foram tantos e os salários eram e são os mais baixos da zona euro. O número de funcionários públicos está longe de ser excessivo e a eficiência do setor começava a melhorar fortemente nos últimos anos, graças nomeadamente ao recurso às novas tecnologias e à mudança na política de admissões. O fisco funcionava relativamente bem. A Justiça não, e há muito a mudar, sobretudo a nível da execução e das possibilidades dilatórias, assim os seus agentes permitam que lhes “saia algo mais do lombo”, mas duvido que entidades como o sindicato dos magistrados do MP e o dos juízes, e as suas cabeças, sejam reformáveis pela Troika e que o fecho de alguns tribunais de província vá acelerar os processos.

Enfim, o FMI e quejandos* não podem vir dizer que se surpreendem e estão apreensivos com o agravamento da recessão e dos indicadores em países como a Irlanda, a Grécia ou Portugal, tendo dúvidas quanto ao desfecho de todo o processo de “ajuda”. Lagarde fala na necessidade de crescimento, mas a instituição a que preside não tem a mínima intenção, como já declarou, de relaxar a trela. Apesar de, aconteça o que acontecer, eles ficarem sempre bem, a hipocrisia, essa, não lhes fica bem. E nós ficamos mesmo muito mal. A solução tem que ser outra, porque nem as causas principais e primeiras nem os responsáveis da crise nem a solução para a mesma se encontram onde nos querem fazer crer que se encontram.

*Vítor Gaspar, que não é, por enquanto, quadro do FMI, escusava de ter feito um desvio por cá, na qualidade de governante, para testar um modelo.

5 thoughts on “Medidas estruturais profundas, diz ele”

  1. São assim como que… uma espécie de casa de penhores, onde se vão receber uns tostões, em troca da entrega do ouro que vale o dobro, ou mais. Antigamente, chamavam a estes sujeitos, “agiotas” ou “usurários”; agora chamam-lhes FMI, BCE e UE.

  2. Penélope,

    só acrescento uns pós à tua nota final: testar um modelo que, já tendo sido testado, se provou que não funciona. Portanto,nem cobaias somos…por falta de originalidade do nosso supremo governante fantasma gaspar…Isto sim é que é estar na cauda da europa, do mundo.

    José, também votaste na vinda destes agiotas e usurários para Portugal ou não?

  3. Penélope, posso até não ser muito esperto ou inteligente, mas ainda me sobra perspicácia para detetar a mentira e o oportunismo.
    Só por não me conheceres, nem às minhas convicções, aceito que avances com essa provocação.

  4. Muito bem dito, Pen’elope, no teu post. Não sei se este ultimo José do comentário ‘e o mesmo do primeiro. Diria que não.

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