Zé Povinho: o mau da fita?

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O Fernando Venâncio chamou-nos há pouco a atenção para um texto de João Camilo onde se ressuscita uma polémica antiga e sem desenlace à vista.
“O filósofo José Gil há tempos, Eduardo Prado Coelho recentemente, encontraram o culpado de todos os males portugueses: sem surpresa, o culpado é o português”, arranca ele, para depois analisar um outro dado conhecido: o excelente desempenho laboral dos nosssos emigrantes, “pelo menos iguais no talento, nos empreendimentos, no sentido das responsabilidades e no carácter” aos naturais dos seus países de adopção. “Conclusão: os nossos políticos, os nossos intelectuais ou educadores, as nossas instituições são de facto responsáveis pela situação em que vivemos e temos vivido.”
Eis um excelente argumento. Tome-se como exemplo o Luxemburgo, cuja força laboral inclui 14% de portugueses. Trata-se de um dos países com maior produtividade e maior PNB per capita de todo o mundo. Que milagre se opera nestas almas lusas mal chegam ao Luxemburgo? Se calhar, coisa pouca. Soubémos, aquando da recente visita de Jorge Sampaio àquele país, que a “nossa” comunidade ali se destaca das outras pelo fortíssimo insucesso escolar. Será que, como sugere o Fernando, o português é mais adepto do uso dos músculos e menos empenhado em exercícios do pensamento?
Uma das poucas explicações razoáveis para o nosso embrutecido atraso remete para a bondade do nosso clima. A tese é simples: países com meteorologia mais inclemente criam personalidades e instituições habituadas a lutar contra a adversidade. Ao invés, climas amenos apenas encorajam a preguiça, a irresponsabilidade e a acédia. Mas não me parece que a Califórnia — apenas para referir a que seria a 6ª maior economia mundial, caso fosse independente — sofra de tais maleitas…
Não é problema fácil. Mas deve ter algures uma solução iluminadora. Só espero que esta não tenha nada a ver com a Teoria da Evolução, decretando que a nossa nação é simplesmente uma experiência evolutiva falhada, a que deveria ser dado (e bem depressa, para encurtar o sofrimento dos nativos) um golpe de misericórdia.

13 thoughts on “Zé Povinho: o mau da fita?”

  1. Eu tinha uma teoria. E a minha teoria dizia assim: todo o português empreendedor abandona Portugal.

    Isto estava longe de começar com a debandada para a França e para Angola nos anos 60. Ia para aí atrás, para o Brasil nos séculos 18 e 17, para o Oriente no século 16, para o Norte de África no século 15. Sim, e prosseguia, até à debandada rumo ao Sul, saídos do Condado Portucalense, com esse fulano enérgico à frente, o Afonso filho de Henrique, estávamos nós no Alentejo tão sossegadinhos.

    Bela teoria, achava eu próprio. Mas essa chatice estatística dos fedelhos no Luxemburgo vem disturbar os meus círculos. Tenho de recomeçar. Mas por onde?

  2. Luis
    Se o texto de Prado Celho a que se referem e’ um que ha’ poucas semanas andava em circulacao pelos e-mails de todos nos, manda a seriedade intelectual que se diga que tal texto e’ obviamente falso. Nunca Prado Coelho assinaria um texto tao mal escrito e disparatado.
    Se for outro texto qualquer agradecia que fizessem a referencia.

  3. Luis,

    Não sei se é por ser emigrante e já ter sido taxi driver, mas creio que parte da tua perplexidade e do juizo apressado do Fernando beneficiariam da leitura deste naco àcerca das dificuldades postas aos filhos dos emigrantes no Luxemburgo. Os trilinguismos são fodidos. E repara no empenho missionário da Embaixada a querer que os nossos menininos aprendam português para não se esquecerem da Pátria.
    Mercy beaucoup, mon vieux.

    “Jusqu’à la fin XIXe siècle, le Luxembourg avait été un pays rural plutôt fermé sur lui-même. Toutefois sa population avait accepté sans difficultés l’arrivée massive des immigrés allemands et belges, dont elle comprenait la langue. Mais en cette fin du XXe siècle, l’arrivée d’immigrants en provenance de l’Italie, du Portugal et de l’Espagne a bousculé le système scolaire luxembourgeois et celui-ci tarde à s’adapter à une situation nouvelle. Les parents portugais, espagnols ou italiens se concentrent sur ce qui leur est familier, à savoir les cours de portugais, d’espagnol ou d’italien organisés par les autorités du pays d’origine pendant les après-midi libres. Les immigrants perçoivent l’école luxembourgeoise comme immobile et sans issue pour leurs enfants. Les problèmes sont connus: comment concilier l’apprentissage de la langue allemande et le rôle de la langue d’origine des enfants d’immigrants?

    En effet, les enfants des immigrants portugais, italiens ou espagnols ont des problèmes avec l’alphabétisation en langue allemande dès la première année. L’allemand constitue pour eux un obstacle non négligeable tout au long de leur carrière scolaire, ce qui n’est pas le cas du français en raison des liens de parenté plus étroits avec leur langue d’origine. Or, l’allemand et le français sont obligatoires pour toute la scolarité au Luxembourg et ceux qui veulent éviter un échec répété (avec l’allemand) fréquentent souvent les écoles dans les pays limitrophes, notamment les établissements belges. Le bilinguisme scolaire et le trilinguisme de la vie quotidienne constituent des barrières systématiques pour les élèves immigrés qui doivent assumer les trois langues du Luxembourg ainsi que celle du pays d’origine. Dès 1989, le Conseil économique et social avait pourtant souligné la nécessité d’adapter l’école pour tenir compte des contingences économiques. Il semble bien que le problème s’aggravera avec le temps, car les solutions tardent”.

  4. Bomba,

    Boa carta. Eu não conheço bem a situação luxemburguesa, mas sei que a vida lá se passa em três línguas: o alemão para a vida pública, o francês para o ensino, o luxemburguês para o resto da vida, que é muito. Se ainda por cima se tem de estudar (ou manter) o português, a coisa é lixada.

    Conheço um pouco mais directamente o caso da rapaziada marroquina aqui na Holanda, que em casa fala berbere, na rua e na escola holandês, em aulas especiais o árabe, e que tem de estudar (claro!) inglês e uma segunda língua à escolha.

    Diz-se que a aprendizagem das línguas é um belo esforço cerebral, que desenvolve a mente como só a matemática e o xadrez conseguem. Daí que uma tradução do latim seja a mais alta actividade humana aqui à mão no planeta.

    Mas há limites. E o miúdo português no Luxemburgo pode estar a passar deles. Deponho a adaga.

  5. Luis,
    A menção ao tal texto do EPC está aqui entre aspas, por ter sido recolhida da fonte mencionada. Não o conheço, logo nada vou dizer sobre a sua autenticidade. Mas isso é um pouco indiferente para a argumentação do J. Camilo.

    Bomba,
    Nem duvido que a situação que descreves seja de difícil superação. Mas olha que também fui emigrante “braçal” por quase um ano, em Londres, e deu para conhecer coisas bem estranhas. Por exemplo, os emigrantes madeirenses integravam-se definitivamente, aprendiam inglês e tendiam a casar com nativas. Todos os outros portugueses de origem humilde que por ali encontrei tinham atitude oposta: só pensavam no dia do regresso e nada queriam com os “bifes”.
    Haverá por certo muito a explicar quanto a estes fenómenos da emigração.

  6. Eu tenho cá uma teoriazinha subversiva que diz que só os portugueses são assim porque só os portugueses gastam o tempo que gastam virados para o umbigo, tentando perceber por que razão são como são.

    Os outros acham-se os maiores e mainada. E ficam livres para fazer coisas. Nós é que temos esta compulsão em remoer as entranhas em busca de ninguém sabe muito bem o quê. E como consequência, fica tudo por fazer.

    (A bem da verdade, não são só os portugueses que são assim: os brasileiros são iguaizinhos)

  7. Luís, o LA-C tem razao, o texto foi originalmente atribuido a um autor brasileiro que tambem negou a paternidade, e depois traduzido para o portugues.

    Sobre os portugueses trabalharem no estrangeiro, ë a nossa poverbial capacidade de desenrascanço associado ao orgulho (ninguem quer voltar ao pais de maos a abanar e confessar que falhou). E, é sabido que os emigrantes de primeira geração são capazes de suportar enormes privações para proporcionar aos seus filhos as “oportunidades que eles nao tiveram”. De certa forma, sinto o mesmo.

  8. o senhor prado coelho não é exemplo para ninguém… se ele se sente culpado quando se olha ao espelho, que deixe de olhar. Eu cá por mim vou continuar a olhar com muito prazer (menos para as malditas ruguinhas!!) Detesto essa treta da culpa colectiva.. Eu escrevi sobre o assunto mas não sei dar o link :-((

  9. homemDASneves,
    Acredito que sim e fica feita a ressalva; mas nem sequer li essa tal falsificação, só apanhei a boleia do texto que citei.

    Luís Oliveira,
    E olha que nem sequer me atrevi a mencionar facctores religiosos…

  10. Como irremediável platónico, concordo com a tese do sistema. Somos o fruto das elites que temos e do escol que não temos. Somos o que a educação nos permite ser, como sempre foi e será.

    O que seja isso de uma “natureza portuguesa” é questão que talvez seja apenas pasto de exercícios literários e retóricos, sem legitimidade antropológica ou sociológica. No entanto, cumpre uma função que pode ser aproveitada, pois remete para a temática da identidade; raiz e fruto da vida interior.

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