Lá me enganei…

Por muito que me desagrade Mário Soares (e sobretudo a sua peculiar visão da ética política) há que dar o braço a torcer. O homem deu um banho a Cavaco Silva. Este, às tantas, só se refugiava em tíbias recomendações de leitura do que sobre ele se escreveu, ou de algo que Delors sobre ele disse, sei lá; quase fazia pena, sobretudo depois de Soares ter lançado o remoque “o senhor fala da sua autobiografia como se fosse a Bíblia”.
Mas Soares esteve, para usar uma fórmula de reality shows, “igual a si próprio”, também com tudo o que isso implica de mau, de péssimo. Insinuou que os seus pares europeus viam Cavaco como um homem distante e que “não tem conversa” mas depois recusou-se, para “não ser deselegante”, a revelar ao certo o que se dizia. Perguntou se Cavaco escreveu “sobre as mudanças do mundo”, apenas para acrescentar a patética e gabarolas continuação: “eu escrevi vários volumes” (coisas boas, presume-se).
Depois de muito acicatado, Cavaco lá saiu da concha com uma resposta tremenda: “ai quer que eu fale de globalização? A globalização é uma realidade que está aí.” Minutos passados, o responsável por um terço da governação de Portugal em Democracia teve o desplante de perguntar porque é que a Espanha está a crescer mais do que nós! Nos entrementes, Soares lá ia lançando as suas farpas: “o senhor não lê livros, lê dossiês”, aqui sem dar mostras de perceber que o bom povo também não os lê e olha de soslaio essa malta que anda sempre por aí de livro em punho.

Resumindo: Cavaco Silva é um provinciano de vistas estreitas, um saco de vento cheio de coisa nenhuma, preocupado apenas, como George Bush há uns tempos, em não dar bronca da grossa. Soares é mesmo um velho leão, de unhas rombas mas ainda capaz de dar cabo de um palonço atrevido. Pena é que nada mais tenha a oferecer ao Portugal de 2005 do que alguns garbosos rugidos.
Pobre país que se vê confrontado com semelhante escolha.

PS: a coisa correu de tal forma mal ao economista de Boliqueime que Dias Loureiro, depois de vaguear por alguns minutos, só conseguiu atrever-se a dizer que a “estratégia de Cavaco Silva foi melhor”; não que ele tinha ganho o debate.

16 thoughts on “Lá me enganei…”

  1. A sua interpretação é isso mesmo…é a sua. Mas, para mim, que não gosto particularmente de circo e de touradas, acho que o Dr. Cavaco foi o que é – bem educado. Relembro-lhe, ainda, que estavam todos contra Cavaco: os jornalistas e o Dr. Soares. Gostaria de o ver lá a si…e a vê-lo numa de leão.

  2. Olha,
    Eu em Mário Soares só vi uma bafienta arrogância e uma pesporrência narcísica insuportável.
    De tal modo que não me apercebi de mais nada.

  3. «Soares é mesmo um velho leão, de unhas rombas mas ainda capaz de dar cabo de um palonço atrevido. Pena é que nada mais tenha a oferecer ao Portugal de 2005 do que alguns garbosos rugidos.»

    Depois de uma imagem tão certeira como esta, já não é possível fazer mais comentários. Ela já é o encerramento do assunto

  4. Bem, Luis, a gripe está-te mesmo a chegar aos neurónios.

    Quase incomentável o que acabaste de escrever. De resto, o facto de chamares ao claro vencedor do debate, de resto, ao único candidato presente (o outro limitou-se a ajudar na entrevista), “provinciano de vistas estreitas, “saco de vento cheio de coisa nenhuma” e “palonço atrevido” diz muito sobre a forma estreita e parcial como viste o debate.

    Já agora:
    “ai quer que eu fale de globalização? A globalização é uma realidade que está aí.”

    Isto é rotundamente falso! Uma sórdida e desonesta descontextualização. Esse foi apenas o início do discurso sobre a globalização.

    Da forma como escreves dá ideia, a quem não viu o debate, que se ficou por aí.

    Uma vergonha, este teu post.

  5. “Provinciano de vistas estreitas, um saco vento cheio de coisa nenhuma”, “economista de Boliqueime” ou “velho leão, de unhas rombas” acha o Luís que isto é análise política? Este desdenhar de um por ser provinciano, de Boliqueime e do outro por causa da idade, repito a pergunta, isto é análise política? A mim mais me parece uma xico-espertice, o piscar de olhos tipo, “não esqueças, o nosso é de Lisboa e só está nos cinquenta”. Conteúdo ideológico? Nickles, batatóide…Tanta banalidade e tanto auto-convencimento enjoa!

  6. Margarida,

    Mas quem é que lhe garantiu que eu ia fazer essa tal sacrossanta “análise”? Acho melhor procurá-la lá pelo seu jornal, onde até poderá encontrar elogios a Estaline e à Coreia do Norte; isso sim, será perspicácia.
    Mas até me dou ao trabalho de lhe responder: para começar, Cavaco é provinciano não por ser de Boliqueime (eu tampouco sou de Lisboa) mas sim por ser limitado, inculto e vazio.
    E para sua informação, que bem precisa, “velho leão” é um elogio. As suas unhas podem estar rombas, ele tem a idade que tem e isso é um facto, mas ainda chegaram, como escrevi, para desfazer este oponente.

    Rogério,

    A tal “sórdida e desonesta descontextualização” não é nada disso: o resto do tal “discurso” seguiu precisamente pelo mesmo caminho de banalidades de pacotilha e de lá não saiu. Acredito é que não tenhas dado por isso, o que é outro problema diverso. E também folgo em ver que continuas sem apresentar um único argumento com pés e cabeça para votar no teu candidato.

  7. Caro Luis,

    É com algum pesar que constato que os seus posts continuam vazios de conteúdo, como habitualmente, e com uma 2ª intenção política, também habitual.

    De facto, estamos na presença de um autêntico sermão. Infelizmente, este, desmontado, reduz-se a um “saco de vento cheio de coisa nenhuma”.

    Ora vejamos: o meu caro amigo, inicia o seu discurso, afirmando que “por muito que me desagrade Mário Soares, há que dar o braço a torcer”… É a melhor maneira de começar… De facto, é do género,”eu nunca gostei do gajo mas toda a gente muda na vida… mude também você…”

    Prossegue referindo o facto de Cavaco Silva inúmeras vezes remeter os telespectadores para os seus livros, mas nem por uma vez se interroga porque o faria! Não acha que poderia ser por as perguntas que foram colocadas serem TÃO vazias de conteúdo, e ser realmente importante passar a falar de problemas a sério??

    No seguimento, vem falar da patética e estúpida ideia do Dr. Mário Soares de se lembrar de, num debate em que supostamente os candidatos deveriam falar dos seus ideais enquanto PR’s, vir falar sobre os seus “inúmeros textos escritos sobre a visão do mundo e a globalização”!

    Mas sabe, Luis, você tem razão: Mário Soares é um velho leão. Um velho leão que continua com uma falta de ética nojenta e com um sinismo snobe… Fazer insinuações do género: “mon ami Mitterrand” e os meus amigos europeus andaram-me a dizer mal de si, mas o que disseram isso não digo… é baixo, porco, mas foi bonito ver Cavaco Silva não baixar o nível…

    É de facto um velho leão… é pena já não possuir a garra para falar dos seus ideais, porque ontem, à semelhança do último mês, só se falou de Cavaco… e ele agradece

    abraço

  8. O LR confirma que o que o move não é a análise nem a perspicácia, acrescento eu. Pois que se pretendia catalogar Cavaco de “limitado, inculto e vazio” porque é que por duas vezes invocou Boliqueime? O que pretende então o LR? Ora sendo ele membro do staff da candidatura de Louçã é óbvio que o move é a promoção do seu cliente e não manhosamente como agora diz, o elogio do “velho leão”. E a promoção subliminar lá está no “não esqueças, o nosso é de Lisboa, só está nos cinquenta, é muito culto, muito cosmopolita e moderno”.

    É a esta obsessão bloquista com a sua auto-afirmação que se resume a campanha do candidato do BE.

    Louçã começou por desvalorizar a candidatura de Cavaco, chegando a chamar-lhe de “extraordinariamente frágil”, depois fez umas rábulas sobre coisas que ele disse, mas o essencial da sua campanha é expor a retalho linhas do programa de governo do BE. No seu manifesto eleitoral não há uma definição sequer de inimigo principal, pois que nem uma vez sequer Louçã emprega os termos “direita”, esquerda”, 25 de Abril” ou “Constituição da República Portuguesa.

    E entretanto a candidatura de Cavaco prossegue, e os ataques de membros do staff de Louçã, como o LR continuam ao nível do “provinciano”, do “saco de vento”, do “economista de Boliqueime”. Continua a desvalorização pessoal do Cavaco e principalmente continua a omissão das forças que precisam de Cavaco em Belém e do que as movem, pese embora o facto da clareza do Presidente do PP, no domingo passado contra a Constituição.

    E o despropositado ataque do LR ao Avante (associando-o a Estaline e Coreia do Norte) clarificam que de facto isto não acontece por acaso mas tão somente porque para o membro do staff do Louçã o inimigo principal está aí, no partido proprietário do Avante e que para os LR’s o inimigo principal é o candidato que o Avante apoio e mais nenhum outro.

  9. Pedro,

    Vovê conseguiu não perceber mesmo nada de um textozeco tão singelo. Eu não gosto de nenhum destes dois candidatos e não vou certamente votar neles. Quase diria que antes votava no Américo Tomás.
    As pechas que você aponta a Soares são precisamente aquelas que eu enumerei: a menção dos tais “volumes” sobre o mundo que Soares terá escrito, as insinuações sobre o que se diz de Cavaco pela Europa, etc.
    “Soares esteve (…) ‘igual a si próprio’, também com tudo o que isso implica de mau, de péssimo”; acha que isto é um elogio ao homem?
    É no que dá o sectarismo: estamos de tal maneira agarrados a um dos lados que topamos “segundas intenções” em tudo o que não seja panegírico aos “nossos”.

  10. Margarida,

    Dias há em que até lhe acho piada. Mas o de hoje, ainda a braços com uma tremenda gripe, não é um deles. Mesmo assim, vamos lá a um último esforço:

    1. “Invoquei” Boliqueime uma só vez no post. Depois, comentei sim a sua menção à simpática terra algarvia.
    2. O seu sectarismo infrene tende a projectar-se nos outros, o que a leva a imaginá-los como você é. Mas achar que reconhecer que Soares ganhou o debate equivale a promover o Louçã… isso já é uma alucinação.
    3. Por acaso, Louçã ainda não “está nos cinquenta”.
    4. Os seus comentários à campanha de Louçã são meros ecos do que Jerónimo vai dizendo: primeiro Louçã não atacava Cavaco, depois veio a moda da Constituição (que você adoptou a correr, claro). Agora, o mal está precisamente em se atacar Cavaco! Se você soubesse o que isso é, gabava-lhe o domínio do Duplipensar!
    5. Não preciso de associar o “Avante!” a vergonha alguma; os seus editorialistas tratam disso sozinhos na boa.
    6. O meu “inimigo principal” é o pobre Jerónimo? Tenha dó de mim e do homem, por favor.
    7. Nem sequer tenho o seu partido como “inimigo”. Apenas como uma desgraça da História: décadas de lutas valorosas e sacrifícios tremendos que caíram nas mãos de arrivistas incompetentes e autistas que não têm pejo em atacar e ostracizar camaradas, apenas porque eles se opuseram à tomada de poder que ocorreu na Soeiro. É tristeza, não ódio.
    8. Essa do “membro do staff do Louçã” tem piada. Mas é escusado ler no que eu escrevo posições do Bloco. Eu nem militante sou. Tal como não fui do PCP quando trabalhei (de graça) para o seu partido.

  11. Luís Rainha,
    Já se sabia, o teu amor pelo Américo Thomaz, via as belas filhas da Gertrudes, mas devias manter isso no terreno sexual.

    Manda-me já a merda do texto!!!

  12. “Director da Imagem Gráfica” da campanha do Louça, foi assim que a Visão lhe chamou e até hoje não vi por lá qualquer desmentido e já passou um mês e picos.

    E sobre o Louça não estar nos cinquentas tem razão, vai só nos 49. Mas pelo menos confirma que o Louça não fala na Constituição.

    Quanto à propaganda subliminar que vai semeando, tentarei continuar a desmontá-la. Quanto às alusões a Boliqueime quem quiser que as conte.

    E quanto a associar sempre um adjectivo ou uma ideia depreciativa ao Jerónimo, ao Avante e ao PCP se há quem ainda a “coma” como original, moderna, cosmopolita, também haverá quem se lembre que essas coisas o BE não faz, nem nunca fez e por isso não tem nada a rectificar… que foi precisamente isso mesmo que no debate o Louça garantiu olhos nos olhos perante o olhar aturdido dos jornalistas. Vê-se.

  13. Margarida,

    E se a Visão me chamasse “Pai dos Povos”, começava a fazer genuflexões cada vez que me pronunciasse o nome?

  14. Luis,

    “É de facto um velho leão… é pena já não possuir a garra para falar dos seus ideais, porque ontem, à semelhança do último mês, só se falou de Cavaco… e ele agradece…”

    Caro amigo, o que sempre esteve em causa foi a posição do Dr. M. Soares no debate. Limitou-se a falar de Cavaco, Cavaco, e pa finalizar, e não enjoar, mais Cavaco. E quando este dizia vamos lá falar dos seus ideais, dizia mario soares já lá vamos, então não vamos!

    Mal educado, frio e com uma estranha síndrome de atacar tudo e todos (até os entrevistadores!)… Dizem alguns que este era, mais novo, o melhor candidato que Portugal poderia ter! oh, como vais tu, Portugal!!

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