Balanço carregado num país soalheiro

Portugal é uma terra de singularidades, umas boas, outras más, para não falar, por enquanto, das péssimas. Temos o clima mais ameno da Europa, o que nos traz muitos fugitivos do Norte. Não vou falar da nossa comida, mas tinha que falar do sol no fim de um domingo faiscante como este foi. Criamos e exportamos excelentes futebolistas e treinadores (é fatal), mas nos nossos balneários a língua oficial é o espanhol. Não sabemos que somos o terceiro produtor europeu de grão-de-bico (agora apanhei-vos). Produzimos bons vinhos e exportamos excelentes trabalhadores, automóveis alemães, sapatos, rolhas e concentrado de tomate. Temos um serviço nacional de saúde que se compara aos melhores, embora às vezes possa não parecer, quando se tem de esperar meses por uma consulta ou um tratamento. A nossa esperança de vida à nascença é superior à dos norte-americanos, embora possamos esperar dela, da vida, bastante menos. Não andamos armados até aos dentes e a nossa taxa de homicídios intencionais é persistentemente um quinto da dos norte-americanos. Quando queremos arrasar mesmo, dizemos (e é verdade) que estamos melhor posicionados em taxa de mortalidade infantil do que o Reino Unido, Canadá, Estados Unidos e todos os países produtores de petróleo, excepto a Noruega. Já me esquecia, nesta clássico rol do orgulho nacional, dos 900 km de costa, que fazem a inveja da Suíça, Mongólia, Nepal e Andorra. E da vasta Zona Económica Exclusiva, que é a terceira da Europa e a 11.ª do mundo, olaré, embora só sirva para passear os dois submarinos do Portas e cinco fragatas, quando há dinheiro para combustível e reparações. E dos 3.000 km de auto-estradas (eram 25 km em 1974), que nos colocam à frente de muitos países europeus em kms/habitante, mas que agora não sabemos como vamos pagar nem se temos dinheiro para andar nelas.

Parecia que éramos um país do quilé, mas somo-lo cada vez menos. Todos sabemos porquê, mas vou repetir só para chatear. Desleixámos a agricultura e a indústria transformadora, que nunca tinham sido grande coisa. Demos cabo do resto da pesca, destruímos a recém-criada reparação naval, a incipiente siderurgia, a nova indústria química, etc. Se calhar já tinham sido más escolhas, como outras que vieram depois. Persistimos nas indústrias baseadas em baixos salários e qualificação zero até sermos inundados de produtos do terceiro mundo. Como país, andámos trinta e tal anos a gastar muito acima do que produzíamos, aplicámos fatalmente mal os fundos europeus, nunca poupámos o necessário e temos sistematicamente recorrido todos (empresas, bancos, famílias e Estado) ao financiamento estrangeiro. Enquanto muitos países subdesenvolvidos saíram da miséria e voaram para a prosperidade, nós marcámos passo e agora estamos a empobrecer.

Na política, então, o panorama é dos mais sombrios. Depois de termos suportado durante meio século uma ditadura de caserna, esquadra e sacristia, fizemos uma grandiosa revolução das antigas e enveredámos gloriosamente por uma sociedade sem classes, para arribar hoje em dia a um país sem crédito. A única coisa que em Portugal deixou absolutamente de ter classe foi o governo. Estamos actualmente sujeitos a levar com governantes rascas e trampolineiros, que por essa Europa fora, exceptuando a Itália, só dariam para carteiristas ou industriais do alterne. Aqui especializaram-se em leiloar serviços públicos.

Acontecem por esta terrinha as coisas mais assombrosas, que fazem duvidar da saúde mental da democracia. Como esta: em plena ressaca do maior escândalo bancário e financeiro da história do país, o partido político que ganhou as eleições foi aquele a que estavam umbilicalmente ligados todos os fautores e numerosos aproveitadores da mega-burla. A comunicação social tinha conseguido convencer o público de que o vigarista era o primeiro-ministro cessante, porque a licenciatura dele tinha sido passada a um domingo, o que num país católico é pecado. Soubemos ontem que os maiores devedores do banco burlão, também eles burlões além de caloteiros, criaram um buraco de 3,5 mil milhões de euros de crédito mal parado, o equivalente a mais de três anos do subsídio de Natal dos funcionários públicos. O governo do partido dos burlões vai em 2013 espoliar ainda mais todos os trabalhadores e reformados portugueses para tapar o dito buraco.

Desastrosa é também a extrema-esquerda, num país em que quase não há extrema-direita organizada. A extrema-esquerda recolhe, e praticamente inutiliza, 15 a 20% dos votos, o que na Europa nos coloca tristemente na peugada da Grécia. Desconhece o que seja negociação, compromisso ou pragmatismo, tem para tudo soluções mirabolantes que antagonizam e excluem as soluções de todos os outros, é avessa à partilha do exercício democrático do poder e elabora estratégias políticas totalmente obnóxias e incompreensíveis. No meio de uma grave crise financeira internacional que afectou (e agora, graças ao governo, afecta cada vez mais) a economia nacional, o emprego, a população trabalhadora e os reformados, os dirigentes da extrema-esquerda, recusando um plano de estabilização financeira que permitia evitar a submissão do país a uma troika dos credores, precipitaram a vinda da dita e, do mesmo golpe, ajudaram decisivamente o partido dos burlões a chegar ao poder. Agora passam o tempo a insultar a troika, a organizar protestos e greves contra o governo e a exigir a sua demissão. Feliz Ano Novo, Jerónimo, Louçã & Sucessores.

5 thoughts on “Balanço carregado num país soalheiro”

  1. Um bom Soalheiro é meio sustento.

    O melhor soalheiro do mundo fica em Portugal, na região chamada de “Lisboa e Vale do Tejo”

    E dentro desse lugar o melhor é a margem direita (norte) do Rio.

    É aí que vivem(os) o maior número de velhos “velhos do restelo”.

    Eu devia ter ficado junto deles se soubesse o que sei hoje quando há muitos anos via os lenços deles a dizerem-me adeus.

    Quando retornei fui ver o soalheiro das minhas berças e como muitos dos patrícios não achámos que fosse da mesma qualidade, bom sim mas não tanto.

    Só aí é que compreendi e cá estamos.

    Viva o Natal soalheirento.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.