As somas nulas do governo

Na oposição, a plateia laranja agitava histericamente o espantalho das fundações e das PPP – símbolos máximos das gorduras e da ruína do Estado. No poder, os Abranhos, Gouvarinhos e Acácios, obrigados a fingir que cumprem algumas promessas, só têm produzido pilhérias, como diria o pai deles, o Eça.

Com previ, a histeria anti-fundações pariu um rato. Gastaram um pipa de massa num censo de palhaçada que classificou a Gulbenkian, a mais importante fundação portuguesa, abaixo da fundação do Alberto João Jardim, denunciada na Madeira como uma falsa fundação, ou seja, uma organização que existe para receber “donativos” de origem duvidosa, para financiar actividades partidárias e para isentar esse partido de diversos impostos e taxas, como o IMI. Agora vêm os governantes propor a extinção de 11 fundações universitárias, medida essa que não vai representar 1 cêntimo de poupança e quiçá, a prazo, vai aumentar a despesa do Estado. No melhor dos casos, será de soma nula.

Quanto a Serralves, Casa da Música, Casa das Histórias de Paula Rego, etc., a decisão segue o lema principal de Passos Coelho: “Que se lixem!” De facto, Portugal não merece ter museus nem salas de concertos. A propósito: quanto terá custado a construção e manutenção até hoje do Centro Cultural de Belém, obra faraónica da época do sr. Silva, em cujo reinado se fez também a mais faraónica sede de um banco em Portugal, a da CGD? Será que Ferreira Leite também engloba o CCB e a sede da CGD naqueles investimentos que “arruinaram o Estado” e “comprometem o futuro dos nossos filhos”?

O guru de Economia da Rádio Católica, o esverdeado Sarsfield, foi ontem à TV explicar que antigamente é que era bom: um milionário quando morria deixava o pastel para uma fundação e o Estado não tinha que lá meter um tostão. (Nunca foi verdade: o próprio Botas perdoou todos os impostos a Calouste Gulbenkian e à Fundação). Agora não, lamenta-se o esverdeado comentador, as fundações querem “viver à pala” do Estado. Sarsfield, que de vez em quando não recua perante as opiniões mais trogloditas, não explicou (também ninguém lhe perguntou!) porque é que o censo do governo não abrangeu as 100 fundações da Igreja e quanto é que estas recebem em subsídios e benefícios fiscais do Estado.

Quanto às PPP, o governo fez mais ou menos o mesmo passe de ilusionismo. A tal poupança que a renegociação dos contratos vai originar tem como contrapartida para as empresas que o Estado – através das Estradas de Portugal, etc. – vai assumir encargos que nos contratos cabiam às empresas. Soma nula, no melhor dos casos, previu ontem na SIC o economista Caldeira Cabral, da Universidade do Minho.

4 thoughts on “As somas nulas do governo”

  1. Da galeria queiroziana faltou a figura de proa,o Conde Abranhos,analbabeto,amoral e desprovido de escrúpulos o seu (in)fiel secretário Zagalo,que consta não obteve nenhuma turbo-licenciatura nem andou à trolha com senhoras jornalistas.

  2. Pois é Júlio, a lengalenga do costume comporta-se como aqueles balões das festas. No dia da festa são bonitos, divertem a malta, dão um colorido ao mais cinzentão dos ambientes e alguns, cheios de gases, até parece quererem levantar voo. Dias depois a história é outra, jazem no chão, deformados,quer por uma fuga do ar que os enchia, ou dos gases que vão soltando para a atmosfera, espestando o ambiente.
    As gorduras do estado, que tão sebosas serviram para engordurar os governos anteriores, com especial enfoque para os que não são da mesma cor, por um qualquer milagre desconhecido, transformaram-se em carne da perna, ou a austeridade sumiu-as.
    Fazem-se passes de mágica, transferindo para o estado responsabilidades que eram de privados, e depois canta-se vitória por ter diminuido custos, escondendo que estes respeitam a serviços a prestar futuramente que não se sabe ao certo quanto irão custar, quer em dinheiro, quer em vidas.
    Arrasa-se com tudo o que estava feito, veja-se por exemplo o casos do encerramente de lojas do cidadão.
    Quem antigamente, num só lugar podia tratar de diversos assuntos, volta a ter de andar a saltitar pelas cidades, utilizando o transporte público ou privado com os inconvenientes e perdas de tempo daí decorrentes, que, certamente, não contribuirão em nada para a reclamada produtividade nacional, para além de se voltar a reequipar e tornar aptos outros centros de atendimento com todos os custos inerentes!
    Será isto cortar nas gorduras?
    Das fundações já tenho falado q.b., mas que dizer dos dinheiros que continuamente os governos (e aqui falo de todos) delapidam em inaugurações, conferências de imprensa da treta, veículos topo de gama com o respetivo motoristazinha às ordens, no batalhão de adesivos (agora chamam-lhe especialistas) que enxameiam os gabinetes, nos principescamente pagos pareceres a gabinetes de ilustres advogados, badalados economistas e fiscalistas, reputados técnicos e quejandos, quando os que há a disposição dentro do estado vegetam à espera que lhes encomendem qualquer coisinha?
    Aí as somas já não serão nulas, mas parece que a faca de aparar gorduras se perde algures entre os discursos inflamados do (des)governo e seus apoiantes e o local em que as mesmas deveriam efetivamente ser cortadas.
    Corta-se na carne da perna, ou seja, no trabalhador por conta de outrém, pois é o que está mais à mão de semear e não pia muito ou então nos desgraçados dos reformados que são roubados indecentemente sem terem ninguém que os defenda.

  3. O Centro Cultural de Belém – obra-emblema do cavaquismo – tinha um orçamento inicial de seis milhões de contos para a construção de 5 módulos, mas teve um custo final de trinta e seis milhões, para apenas três módulos. O terreno para a construção dos restantes continua lá, vazio (às vezes montam lá umas tendas).

    Tenho muita pena que esta gentinha tenha tanta falta de memória (e de vergonha) quando lhes convém.

  4. C. Serra, os jornais escreveram há anos que o sarcófago do Cavaco tinha custado 40 milhões de contos (valor de 1992). Ao certo, ninguém sabe dizer quanto o CCB custou, existem números muito desencontrados (entre 100 e 250 milhões de euros) e afirma-se que Cavaco mandou esconder os verdadeiros.

    Facto indiscutível é que em Julho deste ano (2012), o CCB ficou 6 milhões de euros mais caro, com a venda pela CML ao Estado, por esse preço, dos terrenos onde o CCB está.

    A Expo custou entre 2 e 3 mil milhões (mas foi um investimento bom), o BPN foi pura perda de 8-9 mil milhões e o bananeiro Jardim tinha um buraco escondido nas contas de 7 mil milhões, pelo menos.

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