Alternativa mesmo

O futuro para os países do sul da Europa apresenta-se cada vez mais negro. Nem a Grécia, nem Portugal, nem a Espanha (e vamos a ver a Itália) conseguirão sair do buraco para onde estão a ser empurrados enquanto continuarem membros da união monetária. Mas ninguém ousa propor seriamente o regresso à moeda nacional, o que me parece estranho, pois já por cá tivemos o FMI no passado e recuperámos em dois anos. Fantasmas vários são permanentemente acenados. Pergunto-me se, para a maioria da população, o abandono do euro seria assim tão catastrófico, ou pelo menos tão mais catastrófico do que a sua preservação, que é o que acontece de momento.

A permanência no euro implica claramente o controlo das operações de crise pela Alemanha, o maior contribuinte. E em que têm consistido? Desde o rebentar da bolha financeira que a estratégia não tem sido outra senão a de ganhar tempo para que os bancos nortenhos estabilizem a sua situação e recuperem ao máximo da exposição à dívida dos meridionais, aos quais se impõem políticas de austeridade/rapina insuportáveis. O BCE tem sido um mero joguete nesta estratégia. Ora não diz nada de diferente da chanceler e dos ministros alemães, atendo-se estritamente aos seus estatutos, ora aparenta ultrapassar as personagens pela esquerda e promete comprar dívida soberana sem limites no mercado secundário, aliviando um pouco a pressão sobre os países em dificuldades, mas logo impondo condições de tal maneira teutónicas que praticamente anulam os efeitos do anúncio anterior, como se vê com o caso atual da Espanha. Agora já nem a ajuda à banca espanhola parece estar garantida, depois das declarações de recusa de países como a Finlândia, Holanda e Alemanha. Enquanto isto, a economia dos países que se encontram a “cumprir pena” sem julgamento vai-se destruindo, o património é vendido ao desbarato, o nível de vida das populações regressa aos anos 60, muito antes da adesão à CEE, o Estado social esfuma-se e a democracia deixa de existir, pois nenhum governo se aguenta muito tempo aplicando políticas ostensivamente suicidas, ainda que as assuma como suas.

Estamos, pois, a chegar a uma encruzilhada. Não intervindo o BCE para parar a especulação no início, já empobrecemos tanto quanto teríamos empobrecido se tivéssemos abandonado a moeda única. Vamos empobrecer mais, como tudo indica e nos exigem. Se, em cima disso, e por força da situação espanhola, formos forçados a sair do euro, então será o abismo, se bem que temporário, e, mais grave ainda, a sensação de que foi totalmente perdido o tempo gasto nas sucessivas austeridades. É verdade que toda a Europa está a aplicar políticas de contenção orçamental. Mas são de intensidade muito variável e incidem sobre bases de rendimentos muito diferentes. E não põem em causa o generoso Estado social. Como pedir a pessoas que ganham 500 euros que passem a ganhar 300? Além disso, há notícias de que bancos suíços terão há pouco tempo comprado maciçamente dívida alemã, francesa, holandesa, etc., conferindo a esses países vantagens incompreensíveis sobre outros. Já não existe União Europeia. Há muito que entrámos no “cada um por si” e no “quem pode pode”.

Em suma, que esta história é longa e não acabou, se e enquanto a linha política da UE continuar a ser a austeridade cega e a punição dos mais fracos, independentemente das consequências a nível doméstico, qualquer político que queira assumir as rédeas de um país como o nosso dando alguma esperança de saída deste sufoco terá de apresentar-se com a hipótese de saída do euro na bagagem. Caso contrário, (já) não adianta. Será queimado vivo. Mas precisamos de alguém que fale claro. Para dentro e para fora.

2 thoughts on “Alternativa mesmo”

  1. “pois já por cá tivemos o FMI no passado e recuperámos em dois anos”
    não terá sido porque entrámos na CEE e recebemos uma pipa de massa que nos livrámos do FMI?

  2. L: Se não me engano, foi antes da adesão à CEE. 78-79 e 83-85. É verdade que entretanto a economia se mundializou e se interligou demasiado, mas este caminho atual não conduz a nada de bom.

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