Farmacopeia

O saite do Instituto de Meteorologia é feio, mas útil. Nele se desmonta o cepticismo popular relativo às previsões meteorológicas; bizarra crendice que persiste por causa da complexidade e instabilidade dos sistemas climáticos. Porém, quando o cidadão larga com um sorriso agasalhado a decisiva sentença – “eles nunca acertam!” – algo de ancestral arregaçou as mangas: é uma pequena vingança da racionalidade mágica, acossada pela racionalidade científica.

Na secção de mapas por satélite é possível visualizar animações variadas, sendo a minha preferida a da visão sobre o Atlântico. O filme constrói-se com imagens de infravermelhos, uma por hora. Ali assisto aos movimentos das massas de ar, acompanho os seus rodopios, faço apostas quanto à sua direcção, comovo-me com o desaparecimento das frentes frias, antecipo a chegada de gloriosas formações de cumulunimbus. E quando as nuvens aparecem na barra do Tejo, tenho ganas de as ir receber e oferecer-lhes um poiso para descansarem.

20 thoughts on “Farmacopeia”

  1. Caro José Tim

    Fica-te bem o insulto, a arrogância e a cultura de um livro só…
    Eu ainda não te insultei e espero conseguir assim continuar…
    Os textos com que nos presenteias são, à parte da poesia neles sempre presente, um hino à ciência e à verdade histórica…

    Sempre grato, e continua a querer contar com os teus textos, apresento votos de bom natal, chei de paz, Igualdade e Amor…

  2. Fiquei nas nuvens. :-)
    se gostas de nuvens, há um livrinho do Goethe (estarei enganada?), sobre a observação das nuvens, que é engraçado.

  3. Como vaticinei, o Fernando está a preparar-te a cama(e o nome) com este pontapé de saída muito alto. Quando chegar à Portela já todo o mundo sabe.Estes hermeneutas sonsinhos…

  4. Ai, Bomba. Sempre solícito. Nunca confiado da inteligência alheia. E se no mundo houvesse mais algum aeroporto?

  5. Podemos combinar, inspirados pelo Goethe, uma sessão de saudações às nuvens. Desanuviar talvez não seja o verbo apropriado, mas o sentido é esse mesmo. E baptizar uma nuvem com o nome Valupi parece-me uma homenagem perfeita para essa senhora a quem fui roubar o apelido literário.

  6. Cheguei atrasado a Dezembro, como chego sempre atrasado a todo o lado, a toda a hora. Mas talvez por isso tenha visto, da janela do pássaro metálico que me trouxe de Bruxelas, a nuvem Valupi.
    A sua forma estranha nunca me permitiria descansar nela o meu olhar.
    Acenei-lhe e senti-me dono do universo, observando lá de cima o trabalho e a melancolia da terra e dos mares. Então, caí das nuvens e perdi-a outra vez de vista. Não tive tempo de ouvir a resposta à minha pergunta sobre quem foi essa senhora da literatura de tão belo nome. Fossem as nuvens menos velozes e não fosse o vento o seu senhor!…

    Um abraço em forma de rajada.

  7. Mas afinal, quem foi a Valupi?
    E quem é o Valupi?
    E, já agora, por que escolheste um nome de mulher?
    A natureza detesta o vazio.
    sit tibi terra levis e responde.

  8. “Maria Valupi” é o pseudónimo de uma poetisa portuguesa, ignorada por editores e críticos (facto que não me causa qualquer admiração). A senhora já morreu, faz tempo, mas tropecei num poema dela; um daqueles acasos que se tornam a matéria do destino. Sim, apaixonei-me por esse poema. Assim, não escolhi um nome “de mulher”, antes um apelido pseudónimo “da mulher”. E, claro, gosto do nome, gráfica e sonoramente.

    Quem é o Valupi? Gostava de poder responder: é um ciclone. Aliás, já me contentava em poder responder: é uma brisa.

  9. Brisa ou ciclone, sensível ou tempestivo, seda ou lona, chocolate ou café, estrela cadente ou cometa, riso ou lágrima? Tu ou tu? Val ou Upi. Vale, Valupi?

  10. E não é que descobri um post inspirado em mim? Mesmo sem ir ao site, posso-vos garantir que “Valupi” é uma nuvem suspensa cheia de uma grave melancolia que só a morte a fará descer um dia. Capaz de falar de anjos numa tarde de Inverno e de chuva, feita de espirais de fumo quente, com o ruído nervoso da cidade logo ao virar da esquina.

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