O fantasma do meu Natal Passado

Há um ano, caí na asneira de tentar descrever como são os “Natais que cantam” aqui da malta de esquerda, decididamente entregue à construção do Socialismo sob os auspícios do único partido com um candidato presidencial chamado Jerónimo. Além da ira da minha namorada, a coisa conseguiu atrair pelo menos um comentário que a levava a sério. De tal, nem a nossa comentadora Margarida se lembraria; aliás, não é tarde nem cedo para lhe dedicar esta reedição do meu pequeno panfleto natalício:

Desde que vivo com uma militante comunista, tudo mudou na minha vida. Em nossa casa, respira-se ideologia, come-se dialéctica, bebe-se dedicação à Causa. Mas não é por isso que deixamos de ter Natal. Apenas recusamos a celebração consumista e burguesa que só serve para encher o bolso ao explorador Belmiro. Sim: o nosso Natal é ideologicamente puro e decididamente Socialista!
Começando pelo presépio. Rodeado por um carpinteiro de ar humilde (símbolo, é bom de ver, das heróicas virtudes do Proletariado) e por uma robusta e azougada camponesa (representando a gloriosa Revolução que todos adivinhamos para breve) está o menino camarada Jesus, de punho direito bem erguido (a bem da verdade, tinha um dedo esticado até ao dia em que caiu da prateleira). Ao lado, lá estão dois animais de ar estúpido: as bestas do capitalismo e do imperialismo. À porta da caverna de musgo artificial, três homens sábios a camelo. Os bonecos são um bocadito mal-acabadões, mas as suas fisionomias dignas e corajosas não enganam: trata-se dos camaradas Engels, Marx e Lenine (este com um belo bronzeado). Só ainda não percebi uma coisa: que prendas trarão eles? Ouro, incenso e mirra não será por certo; para que quereria um recém-nascido essa tralha burguesa?


Bem perto, brilha gloriosa a nossa árvore de Natal. A minha companheira e os miúdos decoraram-na sozinhos: recortando fotografias do jornal, fizeram uns bonecos com as caras do Santana, do Bagão, do Portas e do meu patrão. Depois, penduraram-nos a todos pelos pescoços. Mas eu também contribuí: comprei 3 conjuntos de luzinhas e juntei todas as lâmpadas vermelhas numa só fiada. Nem nos tempos áureos da saudosa União Soviética houve Natal mais Vermelho. Ficou linda de morrer, a nossa árvore!
Claro está que, aqui em casa, as crianças também têm direito a listas com pedidos de prendas. Mas elas renegam o materialismo interesseiro desta sociedade caduca e assumem uma pureza ideológica total – e um altruísmo de louvar; sempre que leio os seus pedidos ingénuos, quase me vêm as lágrimas aos olhos. Então, que pediram este ano os nossos pequenos Pioneiros? Simples sonhos de crianças politicamente activas: o Socialismo, a Paz no Mundo, o impeachment de George Bush.
Os presentes chegam a nossa casa através dos bons ofícios do Pequeno Ancião Vermelho; um velhinho barbudo, alquebrado por anos e anos de exploração, que se desloca num veículo ecológico, a reboque de um colectivo de renas. Mas, como seria de esperar de uma sociedade imperfeita (e do bafo a rum do velhote), o que recebemos nunca é bem aquilo que pedimos. Por exemplo, eu, que queria tanto um significativo reforço de votação da CDU, acabei por receber um conjunto de fondue de loja dos 300. Enfim, melhores dias virão: todos sabem que a chegada do Socialismo é inevitável. Até lá, só vos digo uma coisa: viva o Natal, camaradas!

6 thoughts on “O fantasma do meu Natal Passado”

  1. Com força Luis.
    Só espero que os 3 conjuntos comprados sejam chineses, para continuar a causa encarnada.
    Quem nos pode acusar de acrentes com tal fé no verdadeiro socialismo?
    Tem é que se arranjar uma solução para a causa comunista post-mortem. Isto de perdermos a fé na morte não está com nada!

  2. Houve mais que um a levar a coisa a sério, o que é absolutamente fantástico.

    De resto, o post ainda é do tempo em que nós conseguíamos estar sentados à mesma mesa sem cuspir no prato um do outro. Fomos jantar ao Bragal, sim senhor. E correu bem, o que é surpreendente.

    Lembro-me perfeitamente: roeste uns ossos, não foi? :)

  3. Tu és uma espécie de “socialismo num só país” pelo volume e por conviveres de perto com o Gulag (começa por “I” e acaba em “a”, e mais não digo para não ser agredido, pela propriamente dita).

  4. Li o texto original e os incríveis comentários que se lhe seguiam; o Bragal fica em João Bragal de Baixo, e não de Cima. Depois desta indispensável correcção geográfica, tenho a dizer que é um magnífico restaurante, situado num local extreamente aprazível, mas talvez mais agradável com tempo mais soalheiro do que com o frio que paira na Guarda nesta altura.

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