Vinte Linhas 708

A vida e a morte no alto da Senhora dos Remédios

Os pórticos de passos perdidos e portas fechadas na A23 afastaram as pessoas para o IC8. Ninguém se dispõe a pagar mais que 4,40 euros por mais alguns quilómetros a seguir a Abrantes. Se de Lisboa a Torres Novas se pagam 5,65 euros não faz sentido pagar 4,40 euros entre Torres Novas e Abrantes – só que não há alternativa. Malditos pórticos.

Eu evitava o IC8 porque não queria encontrar os rapazes que (diziam eles) toureavam os carros. Dois erros numa expressão. Primeiro não toureavam coisa nenhuma; depois não são carros mas sim automóveis. Um carro é um objecto com rodas que precisa de ser puxado por animais ou empurrado por um motor. No caso do jovem que toureava carros aconteceu tragédia: ele morreu e os rapazes que o filmavam para o colocar na Net fugiram quando perceberam a dimensão do desastre. Esses miúdos não estão preparados para lidar com sentimentos fortes: a Internet é uma realidade virtual. Queriam filmar o rapaz a tourear carros mas fugiram quando ele foi atropelado. Lembrei-me de um poema de João Miguel Fernandes Jorge do livro «O regresso dos remadores» (edição da Presença). Há dentro de um dos poemas uma mulher que costura lágrimas e baínhas numa «Singer». Num passeio a São Martinho do Porto essa viúva perde a filha e o neto para quem trabalhava na máquina de costura.

Essas mortes (as distantes num barco em São Martinho e a próxima numa curva do IC8) ocuparam uma parte do fim-de-semana mas não a totalidade. Na casa das três meninas (Margarida, Paula, Ana Maria) encontrei o oposto. A vida na sua teimosa afirmação diária, na sua alegria convocada para uma aldeia à beira do IC8. As três meninas não desistem e trazem no seu olhar o esplendor da esperança. A negação da tristeza, da amargura e da morte.

8 thoughts on “Vinte Linhas 708”

  1. desta vez gostei, particularmente da fotografia estilizada da senhora e dos remédios, tudo em forma de ventoínha. o texto está um bocadinho confuso, mas percebe-se que não tinhas nada para fazer e deu-te para os embutidos do montijo.

  2. Olinda, oh jcf:
    A nossa senhora dos remédios, de lamego, no douro – chamam-lhe douro-sul – é a mãe de todas as outras senhoras nossas.
    Jnascimento

  3. “Ninguém se dispõe a pagar mais que 4,40 euros por mais alguns quilómetros a seguir a Abrantes. Se de Lisboa a Torres Novas se pagam 5,65 euros não faz sentido pagar 4,40 euros entre Torres Novas e Abrantes – só que não há alternativa. Malditos pórticos.”

    Posso ter percebido mal.
    Paga-se 4,40 € entre a saída da A1 e Abrantes (qual saída Rio de Moinhos ou Alferrarede)?
    Se é o caso, é um exagero.
    Não concordo é com a falta de alternativas; para quem vai de Lisboa para Abrantes existem duas óptimas alternativas, uma pela margem direita do Tejo – a Nacional 3 – outra pela margem esquerda – a Nacional 118.
    Num e noutro caso poupam-se os 5,65 € (da A1) mais os 4.40 € da A23; isto no sentido Lisboa / Abrantes; no sentido Abrantes / Lisboa, normalmente, opto pela 118 e 10 até Vila Franca de Xira (evito a portagem das pontes) e “apanho” a A1, 60 cêntimos.

  4. Meu Caro Pedro Oliveira não percebeu mal. De facto entre a A1 e Abrantes (Alferrarede) pagam-se 4,40 euros em pórticos. Eu quis dizer que não há alternativas ali ao pé. Não estou para ir pelas curvas de Santa Margarida, ora essa…

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.