Conta, peso e medida

O segredo de uma boa sesta, contava o avô octogenário, é a sua duração: tem de ser suficientemente longa para ser reparadora e suficientemente breve para impedir a indisposição. Por isso, lembrou-se um dia de tentar adormecer com uma pedra na mão e deixar-se acordar quando a mesma caísse ao chão. O que ele não sabia, nem poderia saber, é que demoraria dois anos a encontrar a pedra ideal. Inicialmente, acreditou que o peso da pedra era a única variável relevante: quanto mais pesada ela fosse, menor seria a duração da sesta; quanto mais leve, maior. Comprou então uma balança de pratos e um caderno quadriculado onde ia apontando os pesos das pedras que ia testando. Todos os dias, depois do almoço, sentava-se no cadeirão com a pedra na mão e fechava os olhos. Quando, alguns minutos depois, acordava com o ruído da pedra a bater no soalho, voltava a fechar os olhos e tentava decifrar no paladar da saliva os sinais do corpo: fadiga ou indisposição? Ao fim de alguns meses, e apesar de alguns inevitáveis erros, ele foi conseguindo estreitar cada vez mais os intervalos de peso da pedra desejada e chegou mesmo a conhecer uma ou outra vez o frenesim inconfundível da aproximação. Contudo, ao olhar para as tabelas e gráficos do seu caderno, era por de mais evidente que havia um factor desconhecido que interferia com o rigor dos cálculos e das medições. Chegou a pensar que tal se deveria a variações do seu próprio peso e procurou introduzir uma certa regularidade no horário e na quantidade de comida que ingeria nas refeições. Acrescentou então uma terceira coluna na tabela, ao lado da do peso das pedras e das respectivas considerações, com o peso do seu próprio corpo. No entanto, mesmo após ter conseguido estabilizar esse segundo factor, os cada vez mais reduzidos intervalos que ia definindo revelavam-se instáveis e, mais grave ainda, incongruentes. Num primeiro momento, chegou a especular sobre a questão da forma, mas rapidamente afastou essa hipótese pelo facto de o leque das probabilidades ser praticamente infinito e, por isso mesmo, inalcançável. Lembrou-se finalmente da mão. Todos os testes e cálculos que tinha efectuado tinham sido feitos com a pedra agarrada na mão direita e essa não tinha sido uma decisão pensada, mas apenas um fruto do acaso ou, quando muito, a tendência natural de um dextro. Quase febril com essa descoberta, desenhou um risco horizontal na folha do caderno e agradeceu aos deuses o facto de ter conservado e catalogado todas as pedras que tinha testado: 439. Seu propósito era inequívoco: refazer, com mão esquerda, pedra a pedra, sesta a sesta, todo o percurso da sua busca e comparar os resultados. Ao fim de algumas semanas, a disparidade era evidente. Os intervalos, outrora hesitantes e pouco precisos, possuíam agora um rigor belo e matemático. Numa tarde, chegou mesmo a determinar com exactidão, através de simples cálculos de proporcionalidade, a pedra que lhe proporcionaria finalmente o repouso imaculado. Contudo, resolveu não saltar etapas, talvez por superstição ou pelo facto de sentir um certo e inconfessável prazer em prolongar a espera. Quando finalmente chegou o dia em que ele iria testar a pedra que sabia ser a que procurava há quase dois anos, não deixou de sentir uma irreprimível tristeza. Agarrou na pedra e olhou longamente para ela. Era uma pedra absolutamente banal, feita do que lhe parecia ser granito, sem forma precisa e de cor irregular. Percebeu que o facto de saber o exacto peso da pedra ou mesmo o de um hipotético geólogo lhe determinar a sua complexa constituição não dissolveriam em nada o seu mistério. Antes de adormecer, calculou no caderno a razão exacta entre o seu peso e o da pedra, não por lhe interessar o resultado, mas apenas para se distrair do medo inexplicável que sentira de repente. Pousou o caderno, respirou fundo e agarrou a pedra com a mão esquerda. Fechou os olhos e, para sua grande surpresa, não lhe custou nada adormecer.

21 thoughts on “Conta, peso e medida”

  1. Podia explicar esta frase deixada no Sharkinho: “Onde é que se compra um Manu?”.
    O meu portugues é limitado mas sou curioso. Obrigado.
    A@+

  2. Nao perçebo deixas palvras sobre alguém que nao conheçes e que nao te fez nada e nao queres explicar porquê aqui ao meio dos teus amigos.
    Queres comprar-me ca estou.

  3. Manu: je suis un petit garçon parce que je vais au supermarché faire les courses de maman.

    Luís: por acaso este texto é haxe-free. :)

    (E claro, muito obrigado por toda a gentileza. Adoro gente exagerada.)

  4. Muito bem és um rapazinho educado e se estou a pedir que expliques a razao das frases que me
    disseste podes explicar na tua lingua da qual gosto muito.

  5. E eu também gosto muito de ti, rapaz. Acontece que não posso atender o teu pedido, pois tal constituíria uma violação da minha liberdade condicional. Espero que compreendas: é a minha vida e a minha orientação sexual que estão em jogo.

  6. Sabes pa tenho 60 anos sem tempo a perder com conversas estupidas.
    Que os teus amigos te apreciem mais agora duvido e duas coisas me fazem prazer os 2000km que nos separam e nao ser obrigado a ler o que escreves.
    Adios!

  7. Ja te disse adeus mas quero deixar aqui uma informaçao visto que perçebes Françês.
    Tenho em preparaçao um projeto ao Portugal inspirado de um dos meus compatriotas que podes encontrar aqui http://www.alquimista.net/ porque estou desolado que a maior parte dos portugueses gaste energia a criticar sem olhar para o estado em que esse pais se encontra.
    Boa leitura que ela te inspir algo de positivo.
    A@+

  8. Manu: és um querido. E o teu site uma inequívoca prova dessa afeição por Portugal. (Só é pena não gostares de conversas estúpidas, mas enfim – ninguém é perfeito).

    Sejas bem-vindo a esta Aspirina.

  9. Sempre gostei destes finais em aberto, primito. Tou aqui cheio de vontade de dar continuidade à história. Que me dizes? Preciso da opinião de um familiar.

    (Ah: devo o título da narrativa à Mi, uma comentadora do blog e fabulosa amiga, que me deu a alegria de passar o fim-de-semana em minha casa.)

  10. Bom, sempre foi opinião da família que levasses os teus projectos até ao fim. Especialmente aqueles que acabam bem e prometem recomeçar melhor. Mas tu já sabias disto, queres é mimos.

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