1º de maio – continuar e repetir os gritos passados

Num debate com um deputado do PSD, na introdução ao que eu queria dizer acerca do arraso que este Governo tem feito ao espírito, à história e à lei do mundo do trabalho, recordei o dia 1 de maio.

Fui imediatamente interrompida, porque não estamos, ouvi, no século XIX. O mundo mudou, a competitividade é outra, a globalização obriga a não sermos fósseis.

Pois. No dia 1 de maio de 1886, houve a famosa manifestação em Chicago, na qual mulheres e homens corajosos exigiam coisas fósseis e nada discutidas atualmente como o direito a uma jornada de trabalho digna: 8 horas. Como é sabido, as manifestações sucederam-se com mortos e feridos que exigiam isto: uma jornada de trabalho.

A exigência correu mundo e o dia foi consagrado em vários países como feriado nacional, entre nós proibido durante o fascismo e celebrado com o seu derrube, momento que para o líder parlamentar do PSD tem a importância histórica da saída (limpa ou suja) da troica.

Falar do mundo do trabalho passa por conhecer a sua história e nela o sentido que a palavra trabalhador carrega.

Ser trabalhador é passar de servo a pessoa. Uma pessoa com dignidade, uma pessoa que não se limita a executar sem regras o que for, mas que tem direitos e não benesses, que tem espaço para uma vida pessoal, que tem salário digno, que não se descarta, que não é produto de uma exploração de classe, mas participante de pleno direito da construção social, contribuindo para ela com o seu próprio destino, os seus projetos pessoais, o seu descanso.

Ser trabalhador resulta de uma revolta ética contra o esmagamento de tantos num mundo em industrialização com peças humanas na engrenagem. Adultos e crianças no campo e na cidade, nas fábricas, a metáfora de Oliver Twist, o menino que, acabada a parca sopa, não sabia do espanto da frase que proferiu: – quero mais.

Ser trabalhador resulta da constatação de que não há paz nem crescimento sem justiça social. Sim, crescimento.

Ser trabalhador significa a negação da degradação, da injustiça, do domínio.

Uma sociedade só é digna se todos têm o direito ao trabalho; se o Estado executa políticas de pleno emprego; se o Estado promover a igualdade de oportunidades na escolha da profissão ou género de trabalho e condições para que não seja vedado ou limitado, em função do sexo, o acesso a quaisquer cargos, trabalho ou categorias profissionais; se o Estado promove a formação cultural e técnica e a valorização profissional dos trabalhadores; se os trabalhadores tiverem o direito à retribuição do trabalho, segundo a quantidade, natureza e qualidade, observando-se o princípio de que para trabalho igual salário igual, de forma a garantir uma existência condigna; se se respeitar, e estou sempre a citar a Constituição, o estabelecimento e a atualização do salário mínimo nacional; se forem respeitadas as garantias especiais de que gozem os salários, nos termos da lei; se existir segurança no emprego; se não se despedir sem justa causa, assim porque sim; entre tantas coisas elementares numa sociedade avançada.

No século XIX começou um grito, seguiram-se ecos, nasceram sindicatos, lutas, começou por uma jornada de trabalho. É pouco?

É muito. Na exigência de se trabalhar 8 horas por dia está a afirmação que permite todas as outras: ser trabalhador tem o sentido do reconhecimento da dignidade de cada homem e mulher que é igual em direitos e deveres a qualquer pessoa, que estando em posição de subordinação tem de ter garantias de que o grito primeiro não é abafado e que não volta à condição de servo.

Foi no Século XIX. O número de desempregados no Portugal que voltou a celebrar o 1º de Maio após 40 anos, o número de desempregados sem qualquer apoio social, o número de desempregados emigrados, o número de falsos trabalhadores retidos em falsos recibos verdes, retidos em contratos a termo de renovações a cada passo aumentadas, o número de falsos trabalhadores em estágios não remunerados, escravos, portanto, o número de mulheres em situação real de duplo-emprego, o jogo de bola com o salário mínimo, trabalhar-se e ser-se pobre, esta competitividade selvagem negada pela história, pela experiência, pelo direito comparado, pela economia, diz-nos o quê?

Talvez que seja tempo de repetir de outra forma a frase de um miúdo inventado no livro que denuncia a precariedade inglesa daqueles tempos: – queremos o que nos tiraram. Exigimos o que nos tiraram.

Porque é nosso.

 

 

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6 thoughts on “1º de maio – continuar e repetir os gritos passados”

  1. Brilhante ,como sempre!

    A propósito do Montegebo: A falta de qualidade do seu cérebro,jamais lhe permitirá elaborar uma ideia que seja,com a espessura e densidade que só o estudo e o conhecimento permitem.Estudo e conhecimento,condimentado de seriedade intelectual e compromisso com a História,definitivamente,não constam dos seus comportamentos existenciais.As suas orientações são outras,e essas,garantidamente,pertencem a um mundo que nunca será o daqueles que estão na vida como a Isabel Moreira.

  2. Brilhante,Isabel Moreira ,em contraponto com o gebo do psd autêntico espelho do coelhismo e do cavaquismo sósias das nulidades.

  3. Lá tinha que vir o João Lisbosta borrar a caixa de comentários…
    Ó Lisbesta, vai promover a tua chafarica mal cheirosa para outro lado, pá!

  4. Não chega Isabel Moreira

    Em vez do lema conservador de: “Um salário justo por uma jornada de trabalho justa!”, o trabalhador deverá inscrever na sua bandeira esta divisa revolucionária:”Abolição do sistema de trabalho assalariado!”. Karl Marx – o velhinho de barbas que em tempos longínquos o PS se dizia inspirado.

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