Novo ciclo, novo resgate

No passado mês de Julho, com a demissão de Vítor Gaspar e as piruetas de Portas, o País mergulhou numa crise que Cavaco tentou por todos os meios que não descambasse em eleições antecipadas. Não se podia juntar uma crise política à crise económica, pois as consequências podiam adivinhar-se: os mercados não perdoariam e o segundo resgate seria mais do que certo. E lá acabou por segurar o Governo, mesmo sem o consenso que tinha exigido aos partidos do Governo e ao PS. Pois bem, passado pouco mais de um mês, Cavaco tem dúvidas quanto à legalidade da chamada requalificação dos funcionários públicos e pede a fiscalização ao Tribunal Constitucional que acaba por chumbar a lei. Conhecida a decisão, o Governo não perde um segundo e imediatamente responsabiliza o Tribunal por todos os males que nos possam vir a acontecer, incluindo a possibilidade de um segundo resgate. Curiosamente, Cavaco, que foi quem questionou a legalidade da lei, fica de fora dos ataques da direita. Cavaco não é uma força de bloqueio. Percebe-se. Não se percebe é que Cavaco segure o Governo com a desculpa de não se poder agravar a crise económica e permita que o primeiro-ministro já esteja novamente a ameaçar com um segundo resgate. Até porque, em princípio, Cavaco terá avisado o Governo da sua intenção de enviar o diploma para o TC. Ou não? Uma coisa sabemos: apesar de tanto o exigirem aos outros, aparentemente, não houve consenso entre ambos.

Enfim, longe vão os tempos em que as relações entre um certo primeiro-ministro e o Presidente da República eram analisadas à lupa. Tempos em que o primeiro-ministro era obrigado a ouvir e a acatar todos os ensinamentos que Sua Excelência lhe transmitia nas reuniões semanais em Belém sob pena de ser acusado, por toda a oposição e por um verdadeiro exército de comentadores, de ter tiques totalitários, de ser arrogante e de não ouvir ninguém…

2 thoughts on “Novo ciclo, novo resgate”

  1. Diz o provérbio “que mudam os tempos mudam as vontades”. Na atual situação política, em que finalmente a direita conseguiu “uma maioria um presidente”, e dominando os media, como é do conhecimento geral, poderão ocorrer as dissonâncias mais evidentes, que de um modo geral, serão omitidas, ou tratadas com pinças. Tudo democraticamente tratado, sem censores, nem lápis azul. Pois desse trabalho se encarregam a esmagadora maioria dos jornalistas. Auto censuram-se, para agradar aos patrões e concomitantemente ao poder.

  2. Apesar da campanha eleitoral em curso sim, porque já passou o tempo do “que se
    lixem as eleições”, o p.ministro está a construir o seu álibi para um inevitável segun-
    do resgate, daí o recorrente desafio ao Tribunal Constitucional e o recurso à velha
    vitimização … enquanto espera por um qualquer milagre que o salve e ao des-governo!!!

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